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Rodrigo Mattos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Mattos: Não adianta esperar mudança com Cruzeiro SAF e gestão do passado

Ronaldo Fenômeno está em busca de um novo treinador para o Cruzeiro - XP / Flickr Cruzeiro
Ronaldo Fenômeno está em busca de um novo treinador para o Cruzeiro Imagem: XP / Flickr Cruzeiro
Rodrigo Mattos

Nascido no Rio de Janeiro, em 1977, Rodrigo Mattos estudou jornalismo na UFRJ e Iniciou a carreira na sucursal carioca de ?O Estado de S. Paulo? em 1999, já como repórter de Esporte. De lá, foi em 2001 para o diário Lance!, onde atuou como repórter e editor da coluna De Prima. Mudou-se para São Paulo para trabalhar na Folha de S. Paulo, de 2005 a 2012, ano em que se transferiu para o UOL. Juntamente com equipe da Folha, ganhou o Grande Prêmio Esso de Jornalismo 2012 e o Prêmio Embratel de Reportagem Esportiva 2012. Cobriu quatro Copas do Mundo e duas Olimpíadas.

09/01/2022 04h00

A cada final de contrato, o goleiro Fábio e Cruzeiro protagonizavam uma novela. O jogador pedia aumento, o clube negociava, até que era fechado mais um acordo. Com isso, o jogador foi escalando até se tornar o maior salário do time no seu período de 16 anos. Aceitou reduções na Série B, mas ainda em um patamar alto.

Com a criação da SAF do Cruzeiro, a negociação foi diferente. O jogador queria um compromisso até o final do ano, o clube bateu o pé de lhe dar uma despedida no Mineiro. No meio do imbróglio, uma discussão sobre uma dívida de R$ 10 milhões do clube com Fábio, que poderia ser herdada pela SAF. Não houve acordo.

Quando o clube era uma associação, a diretoria cruzeirense já entrava nas negociações pressionadas. Nenhum cartola queria ser visto como aquele que perdeu o ídolo. E nenhum deles também era responsável por pagar a dívida: se a conta não fecha, rola-se para a próxima diretoria.

Do outro lado, Fábio usava desta sua vantagem nas negociações. E, além dos salários altos, ainda havia comissões para o seu agente nas renovações. Valores entre R$ 750 mil e R$ 900 mil foram constatados em pagamentos ao empresário pelos novos contratos quando se abriram as contas cruzeirenses. Será que Fábio, que já estava a longo tempo no clube, precisava incluir pagamentos destes valores a empresário para negociar um novo contrato? Foi por conta deste tipo de exorbitância que o Cruzeiro foi para o buraco atual.

Quando o Cruzeiro virou SAF, sob o comando de Ronaldo, o clube tem como principal meta sobreviver. A associação tem uma dívida de quase R$ 1 bilhão, que levará 20% das receitas da nova empresa. Passados 10 anos, a SAF também será devedora solidária.

A equipe de Ronaldo sabe que é ele que vai ter que pagar a conta. Ao mesmo tempo, a SAF é menos predisposta à pressão da torcida. É compreensível que a torcida do Cruzeiro fique chateada com a saída do ídolo, mas um gestor tem que pensar no bem da empresa. Se não há dinheiro para paga-lo, e risco de dívida sobre a nova SAF, não há muita discussão sobre o acerto de encerrar o vínculo.

É certo que a gestão de um time de futebol não é como uma fábrica de automóveis. Os gestores terão de lidar com a paixão do torcedor que é seu principal ativo. Neste sentido, a saída de Fábio causou um reação dos torcedores que atrapalha a estabilidade da SAF, muito provocada pelo texto do jogador inconformado com a saída. Ronaldo terá, sim, de aprender a ser transparente na comunicação com seus torcedores. Agora, lembremos, os torcedores que estavam na porta do CT era da mesma organizada que recebia dinheiro do clube na gestão de Wagner Pires de Sá, que afundou o clube.

Dito isso, não dá para esperar que o Cruzeiro (ou qualquer outro time) mude seu rumo e se recupere agindo exatamente como antes.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL