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Rodrigo Mattos

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Mattos: Venda do Newcastle a ditadura acusada de assassinato gera dilema

Novo milionário: Fundo saudita compra Newcastle por R$ 2,2 bilhões - Reprodução/Twitter Newcastle United FC
Novo milionário: Fundo saudita compra Newcastle por R$ 2,2 bilhões Imagem: Reprodução/Twitter Newcastle United FC
Rodrigo Mattos

Nascido no Rio de Janeiro, em 1977, Rodrigo Mattos estudou jornalismo na UFRJ e Iniciou a carreira na sucursal carioca de ?O Estado de S. Paulo? em 1999, já como repórter de Esporte. De lá, foi em 2001 para o diário Lance!, onde atuou como repórter e editor da coluna De Prima. Mudou-se para São Paulo para trabalhar na Folha de S. Paulo, de 2005 a 2012, ano em que se transferiu para o UOL. Juntamente com equipe da Folha, ganhou o Grande Prêmio Esso de Jornalismo 2012 e o Prêmio Embratel de Reportagem Esportiva 2012. Cobriu quatro Copas do Mundo e duas Olimpíadas.

09/10/2021 04h00

A Premier League aprovou nesta semana a venda do Newcastle United para o fundo soberano da Arábia Saudita. Na prática, o clube inglês será comandado pelos membros de um governo que oprime mulheres, silencia opositores e é acusado de assassinar um jornalista. O negócio gerou uma discussão entre os ingleses sobre a moralidade do investimento no futebol de governantes com tais credencias.

A negociação entre o antigo dono Mike Ashley e os sauditas já se desenrola há mais de um ano. A Premier League só deu o aval agora porque havia uma disputa comercial por pirataria entre a Arábia Saudita e a BeIN Sports, emissora do Qatar parceira da Liga. Foi resolvido com o pagamento de uma indenização e acordo pelo fim da pirataria.

Assim, foi autorizada a venda do Newcastle por 300 milhões de libras (R$ 2,2 bilhões) ao Fundo Público de Investimento, um fundo soberano pertencente ao governo saudita - ficou com 80% do time. A Premier League diz só ter aprovado a transação porque a Arábia Saudita não participará da gestão do clube. Trata-se de um argumento para inglês ver literalmente: o príncipe herdeiro do país Mohammed Bin Salman é o chairman do conselho do fundo público.

E quem é Bin Salman? A CIA constatou que ele foi o mandante do assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, que fazia oposição ao regime saudita. Ele foi desmembrado após morto. O saudita nega o crime.

A Arábia Saudita é também o país com a lei mais dura em relação a direitos das mulheres e homossexuais. As mulheres têm de pedir aval a seus pais, maridos ou irmãos para estudar. Não podiam ir a estádios de futebol até 2018, só recentemente foram autorizadas a trabalhar sem permissão de homens. Uma ativista pelos direitos das mulheres foi condenada a prisão por dirigir.

Não existiam só mocinhos no futebol antes dos sauditas. O Qatar, país cujo fundo é dono do PSG, promoveu trabalho quase servil para construir seus estádios da Copa. Os Emirados Árabes Unidos, onde está Abu Dhabi, também são uma monarquia sem democracia para eleição de governantes. E foram aceitos como donos do Manchester City.

O caso da Arábia Saudita é mais grave por ser um regime mais opressor e envolvido até em acusação de assassinato. Isso nunca foi uma discussão na Premier League. E nem entre os torcedores do Newcastle que, em pesquisa, aprovaram com 97% a aquisição do clube pelo fundo saudita. Até roupas típicas foram usadas na comemoração no estádio do clube. Pesa neste resultado a a antipatia pelo dono anterior.

O clube se torna potencialmente o mais rico do mundo visto que porque a Arábia Saudita tem mais dinheiro do que o Qatar ou Abu Dhabi. E é legítimo moralmente receber esse tipo de dinheiro ganho com sofrimento alheio?

É preciso lembrar de cara que o dinheiro do fundo saudita está por todo mundo em diversos tipos de negócios. Uber, vai uma corridinha? Hotéis Accor, recorde-se do Íbis que você se hospedou? O Softbank, que tem dinheiro saudita, tem parcelas em empresas brasileiras como o Quinto Andar ou o Banco Inter.

Governos fecham negócios com o fundo saudita sem problemas morais. O Brasil espera US$ 10 bilhões em investimentos, acertados pelo governo Bolsonaro. Mas há financiamentos na França, no Reino Unido e nos EUA.

Então por que o Newscastle seria o único a, por motivos morais, recusar o dinheiro? A natureza do futebol é bem diferente da de outros negócios. Trata-se de uma plataforma com visibilidade global especialmente na Premier League. O objetivo do governo saudita, além de investir em entretenimento, é relações públicas.

No futuro, a Arábia Saudita pode ser conhecida como o país ligado aquele time bilionário e vencedor do Norte da Inglaterra, e não como o acusado de assassinar um jornalista. Aos poucos, isso pode normalizar a ditadura comandada por Bin Salman.

Neste sentido, a Premier League (e outras ligas) abre uma porta para ditadores que queiram investir alto para melhorar sua imagem. O dilema moral atual sobre o dinheiro vai existir nas páginas dos jornais por algum tempo até que se esconda atrás dos novos troféus do Newcastle, que, diga-se, não ganha o campeonato inglês há quase um século.

Para além disso, há outra discussão econômica que é: queremos um futebol em que o dinheiro investido não foi gerado pela própria atividade? A introdução dos times-Estado não vai acabar com qualquer chance de equilíbrio de competições? O dinheiro deve ser um valor absoluto no futebol?

O dilema do Newscastle e os sauditas, portanto, é sobre o futuro do futebol. Vale para a Premier League, para o Brasil ou para qualquer outro lugar. Se não houver sequer a discussão, o dinheiro prevalecerá sobre todos os outros valores.

Rodrigo Mattos