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Rodrigo Mattos

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Futuro do direito de TV do Brasileiro divide-se entre revolução e incerteza

Flamengo levou o bi do Brasileirão - GettyImages
Flamengo levou o bi do Brasileirão Imagem: GettyImages
Rodrigo Mattos

Nascido no Rio de Janeiro, em 1977, Rodrigo Mattos estudou jornalismo na UFRJ e Iniciou a carreira na sucursal carioca de ?O Estado de S. Paulo? em 1999, já como repórter de Esporte. De lá, foi em 2001 para o diário Lance!, onde atuou como repórter e editor da coluna De Prima. Mudou-se para São Paulo para trabalhar na Folha de S. Paulo, de 2005 a 2012, ano em que se transferiu para o UOL. Juntamente com equipe da Folha, ganhou o Grande Prêmio Esso de Jornalismo 2012 e o Prêmio Embratel de Reportagem Esportiva 2012. Cobriu quatro Copas do Mundo e duas Olimpíadas.

28/05/2021 04h00

Há dez anos as negociações de contratos de direitos do Brasileiro eram monótonas: a Globo sempre levava tudo. Houve uma mudança com a entrada da Warnermedia em 2016. Mas o futuro da transmissão da Série A promete uma revolução maior ao mesmo tempo em que é uma incógnita em relação à valorização (ou não) do produto. O campeonato inicia mais uma edição neste sábado.

Os contratos atuais da Globo e da Warner pelo Brasileiro estendem-se até 2024. Uma repetição do cronograma dos últimos acordos implicaria em uma negociação para o próximo contrato no início de 2022, embora não exista uma certeza.

O blog ouviu sete pessoas do mercado de futebol, entre executivos de TV, dirigentes clubes e agentes do meio, para entender como será o cenário para estas tratativas. Nem todos quiserem falar oficialmente. Em comum, todos apontaram que há uma série de variáveis que vai influir na receita final dos clubes e no modelo final que os torcedores vão consumir os jogos.

Na realidade atual, o Brasileiro vale entre R$ 1,5 bilhão e R$ 2 bilhões por ano. É assistido em TV Aberta na Globo, na TV Fechada, na Sportv e TNT, e no premiere para todo o pacote de jogos.

O primeiro fator para determinar o valor dos direitos futuros será para quantas plataformas será interessar obter os direitos. Haverá investimento de empresas para incluir o Brasileiro em gigantes do streaming? As TVs pagas continuarão a gerar renda suficiente para pagar pelos direitos? E o modelo de publicidade de TV Aberta continuará a valer a pena no futebol?

"Não tem uma resposta hoje sobre os direitos do Brasileiro. Primeira vez vai ter ver como será a repartição dos direitos do Brasileiro. Ter uma única plataforma juntando TV, cabo e ppv foi uma herança deste último contrato. O quanto vai mudar depende do avanço de infraestrutura de internet em 2025", afirmou o presidente do Bahia. Guilherme Bellintani.

Esta primeira variável - das plataformas em que fará sentido assistir ao campeonato - reflete no segundo fator para o valor dos direitos que é a concorrência. Se houver um modelo consolidado de transmissão por streaming, rentável, empresas como a Warnermedia, Disney e Amazon serão candidatas a obter os direitos para turbinar seus pacotes. Se este cenário não estiver claro, o número de interessados cai e pode se restringir aos tradicionais.

A Globo baseia todo seu pacote de futebol no Brasileiro que se estende por sete meses. Mas seu investimento vai depender de manter seus modelos rentáveis - TV Aberta e ppv - e da concorrência. Há uma percepção na empresa de uma saturação dos preços por direitos. Já reduziu investimento em dólar, Libertadores e Copa do Mundo, e no Brasil, Paulista e Carioca.

Além disso, o Brasileiro será negociado em paralelo ou depois da Libertadores, cuja licitação do próximo contrato será feita no primeiro semestre de 2022. Na avaliação interna da Globo, quem comprar os primeiros direitos pode ficar com menos caixa para investir na Série A.

E aí entra um terceiro fator: como será vendido e empacotado o Brasileiro. Com sete meses, a competição vale menos do que se fosse estendida por dez meses como na Europa. A venda individual também dificulta que seja feito um fatiamento de jogos com negociação de pacotes de partidas para diferentes veículos.

Há um consenso entre executivos, portanto, de que a venda coletiva aumentaria o valor geral do Brasileiro.

"Se tiver um modelo mais organizado de negociação, tem potencial de receber mais do que hoje. Se tiver um modelo mais europeus. Poderia ir na contramão do mundo. Talvez com a Globo ficando com uma fatia, mas não como o todo", disse o especialista em finanças do futebol, César Grafietti, que fez um estudo sobre direitos na Europa e constatou estagnação ou queda em campeonatos como Bundesliga, Série A ou Premier League.

A percepção é similar da vista por executivo da Warnermedia que vê potencial de crescimento dos valores pagos pelo Brasileiro. Mas reconhece, no entanto, que a mudança de plataformas podem afetar o campeonato como ocorre em outros lugares.

"Potencial (do Brasileiro) é maior do que tem hoje. Os direitos têm volatilidade e vão continuar passando, como já passaram na história anterior, por isso. Mudanças de formato de transmissão causam essas volatilidades. O produto de futebol brasileiro tem potencial de ser maior, direitos, patrocinadores", afirmou Fábio Medeiros, Vice-presidente de Esportes da Warnermedia.

Não há atualmente um empacotamento do Brasileiro cujos direitos são vendidos de forma fragmentada. Há algumas conversas de parte dos clubes para conversa em conjunto. Mas ainda parece longínquo um cenário de negociação coletiva.

"Acho que há uma chance boa de venda em blocos (de clubes). Não tenho a ilusão da venda inteira, mas boa chance de venda em bloco. Acho que faz sentido mesmo sem lei de mandante. Warner demonstra isso ao ter comprado de oito clubes. Estão fazendo com blocos", disse Bellintani, do Bahia.

De outros dois dirigentes, o blog ouviu análise similar de que não parece fácil a negociação coletiva. Há times que têm interesse em conversa separada por entenderem que conseguem mais valores desta forma.

Mas, neste cenário, pesa um novo fator: qual será a lei vigente sobre direitos de TV no momento da negociação? O governo de Jair Bolsonaro já editou uma MP do Mandante que dava só direitos para os times donos da casa. E houve uma promessa para os clubes de novo texto, o que não aconteceu até agora porque Brasília ferve com outras crises como a relacionada à pandemia.

Com uma nova lei, haveria maior chance de formação de blocos de clubes, mas ao mesmo tempo times com maior torcida poderiam se isolar em suas negociações. Exemplos como as vendas de direitos do Carioca e Paulista são vistos também como microcosmo do que pode acontecer no futuro.

"Acho que o Brasil está mais para ficar parecido para manter os valores de direitos do que uma queda muito brusca. O problema de imaginar o Brasil é o modelo de negociação", completa Grafietti.

O torcedor terá de esperar pelo menos mais um ano (ou mais) para ter as respostas para saber como será seu relacionamento com a sua maior rotina no futebol: o jogo rodada a rodada do seu time no Brasileirão.

Rodrigo Mattos