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Rodrigo Mattos

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Superliga é enterrada pela pressão, mas sua ideia continuará viva

Cartaz é colocado em frente ao estádio do Manchester City em protesto contra o projeto da Superliga da Europa - Charlotte Tattersall/Getty Images
Cartaz é colocado em frente ao estádio do Manchester City em protesto contra o projeto da Superliga da Europa Imagem: Charlotte Tattersall/Getty Images
Rodrigo Mattos

Nascido no Rio de Janeiro, em 1977, Rodrigo Mattos estudou jornalismo na UFRJ e Iniciou a carreira na sucursal carioca de ?O Estado de S. Paulo? em 1999, já como repórter de Esporte. De lá, foi em 2001 para o diário Lance!, onde atuou como repórter e editor da coluna De Prima. Mudou-se para São Paulo para trabalhar na Folha de S. Paulo, de 2005 a 2012, ano em que se transferiu para o UOL. Juntamente com equipe da Folha, ganhou o Grande Prêmio Esso de Jornalismo 2012 e o Prêmio Embratel de Reportagem Esportiva 2012. Cobriu quatro Copas do Mundo e duas Olimpíadas.

21/04/2021 04h00Atualizada em 21/04/2021 12h16

Após uma rejeição ampla do público e da mídia, a Superliga de clubes europeus foi enterrada. Os seis clubes ingleses debandaram ontem, foram seguidos por Atlético de Madri, Inter de Milão e Milan hoje (21) e isso levou à queda definitiva do campeonato. O projeto envolveu doze dos maiores times europeus, cifras milionárias, o fim do rebaixamento... e flopou. Mesmo com sua derrocada, a ideia por trás da Superliga não morrerá.

Desde o início da década de 90, com a fundação da Premier League, o esporte na Europa passa por um processo em que sua gestão foi tomada pela lógica capitalista. Foi uma consequência da chegada de empresários norte-americanos à Inglaterra que substituíram cartolas falastrões por executivos. Seu objetivo era o aumento da receita, sendo o Manchester United o maior exemplo.

Em uma segunda onda, bilionários russos e Estados árabes se apropriaram de nacos do futebol europeu injetando dinheiro nunca visto no negócio. O colunista Simon Kuper, do Financial Times, ressaltou que a maioria dos clubes não obtinha nem visava o lucro, e sim, aumentar sua receita e resultados esportivos. Mas a lógica era de quanto mais recursos dentro do negócio melhor.

Ninguém fechou as portas ao dinheiro independentemente da origem, nem na Inglaterra, nem na UEFA, nem na Fifa. Só a Alemanha foi mais restritiva nas regras para investimentos. Países e entidade que gritam agora contra a ganância foram céleres em aproveitar o efeito dos recursos sem limites em seu favor. Ou City e PSG não ajudaram a própria UEFA a ganhar mais dinheiro com seus elencos estelares na Champions League? Por que a UEFA foi tão tíbia nas punições aos times por seus gastos exorbitantes apesar da existência do Fair Play Financeiro?

A formação da Superliga vem sendo articulada há alguns anos com a ideia de ruptura para tomar todo o poder e o dinheiro para as mãos de poucos clubes. A Fifa flertou com participar do projeto e desistiu, a UEFA sempre foi contra porque era a excluída. No meio tempo, foi firmado um acordo entre a entidade e clubes para uma mudança na Champions League - que de fato foi feita - para evitar a debandada. Os 12 clubes fingiram que aceitaram e anunciaram a ruptura no domingo.

Esse rompimento ocorreu exatamente no momento em que as receitas do futebol caíram. Há a pandemia que afetou as rendas com bilheteria e matchday. Além disso, a venda de direitos de televisão parece estar perto do teto na Europa. Ou seja, não havia como aumentar receitas e obter lucros para clubes como Manchester United, Liverpool e Juventus, comandados por grandes empresas e voltados para gerar mais capital de seu investimento. Aumentar a receita é obrigação de qualquer empresa capitalista com acionista, a maioria deles tem ações em bolsa.

"Isso rompe com todas as tradições do futebol e a ligação dos torcedores com os clubes". É um fato, e não por acaso houve rejeição ampla das torcidas e da mídia. Mas times super turbinados por dinheiro de fora do futebol também não romperam com qualquer princípio de competição igual? Alguém imaginava que os maiores capitalistas do mundo iriam botar dinheiro em um investimento e não querer ganhar cada vez mais?

As entidades de futebol, os times, os jogadores, os técnicos e boa parte dos torcedores aceitaram a construção de um futebol em volta do dinheiro. Foi esse capital ilimitado que proporcionou espetáculos de jogos na Champions League e na Premier League. Foi esse capital que permitiu os pagamentos milionários dos jogadores, inclusive os que agora protestam contra a Superliga.

Ao mesmo tempo, perdeu-se uma ligação com o sentimento original do torcedor da cidade, de bairro, com seu clube. Os times se tornaram globais para proporcionar shows globais e receitas globais. O capitalismo constrói e destrói coisas belas, parafraseando Caetano Veloso.

É por isso que a Superliga pode morrer, mas a sua ideia não vai morrer. Por que o capital vai continuar a pressionar para gerar mais capital, essa é a sua lógica. E não há aqui nenhum julgamento de valor, é só uma constatação.

O movimento de clubes atual foi malsucedido porque foi mal planejado, com uma comunicação equivocada com torcedor. Mexeu em pontos que os torcedores e a mídia rejeitam - como acabar com a meritocracia do esporte. E foi visto como um projeto elitista e exclusivista - como se a Champions não fosse elitista. Por isso, em dois dias, os clubes perceberam que a briga em que entraram ameaçava seus próprios negócios, seu dinheiro. Assim, iniciam um recuo.

Mas, no futuro, devem surgir outros planos com a mesma lógica. Sua origem pode ser os clubes, a UEFA ou a Fifa. O objetivo será o mesmo: ganhar mais dinheiro e acumular poder. E talvez os futuros torcedores não estejam tão preocupados com mérito e rebaixamento como os atuais que cresceram com essa lógica e valores. É duvidoso se uma maioria de torcedores boicotaria os clubes se a Superliga fosse adiante. Certo é que, a não ser que o futebol abra mão do capitalismo desenfreado, com seus ônus e bônus, episódios como este vão se repetir. É inevitável.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Rodrigo Mattos