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Rodrigo Mattos

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Mundial de clubes não perde validade pela discrepância para times europeus

Elenco do Bayern de Munique comemorando o título Mundial - GettyImages
Elenco do Bayern de Munique comemorando o título Mundial Imagem: GettyImages
Rodrigo Mattos

Nascido no Rio de Janeiro, em 1977, Rodrigo Mattos estudou jornalismo na UFRJ e Iniciou a carreira na sucursal carioca de ?O Estado de S. Paulo? em 1999, já como repórter de Esporte. De lá, foi em 2001 para o diário Lance!, onde atuou como repórter e editor da coluna De Prima. Mudou-se para São Paulo para trabalhar na Folha de S. Paulo, de 2005 a 2012, ano em que se transferiu para o UOL. Juntamente com equipe da Folha, ganhou o Grande Prêmio Esso de Jornalismo 2012 e o Prêmio Embratel de Reportagem Esportiva 2012. Cobriu quatro Copas do Mundo e duas Olimpíadas.

14/02/2021 04h00

A campanha constrangedora do Palmeiras e o passeio do Bayern de Munique no Mundial de clubes geraram, de novo, discussões sobre se a competição tem razão de existir. Ora, se os europeus vencerão em 90% das edições, para que disputar o campeonato?

É fato que apenas o Corinthians quebrou a barreira europeia nesta década e levou o Mundial em 2012. É também fato que os times do velho continente não tratam o torneio como prioridade, embora sempre joguem com times titulares e para vencer. E é igualmente verdade que o torneio tem uma pitada de política da Fifa com suas confederações continentais menos ricas.

Dito isso, o Mundial continua a ser a única possibilidade em torneio oficial de times sul-americanos testarem sua força contra equipes de outros continentes, europeus ou não. Só com a competição que está podemos ter o contexto para enxergar a realidade em que estamos, óbvio, considerando vários anos e não só uma campanha. O Palmeiras, que foi o pior representante do continente, não é um parâmetro sozinho, é parte de um quadro.

Lembremos que a disparidade entre a América do Sul e a Europa é recente, coisa de 15 a 20 anos para cá. Tanto que, no histórico, o Brasil ainda aparece como o país com o segundo maior número de títulos em Mundiais de Clubes. São 10 contra 11 da Espanha.

Na sequência da lista, a Argentina empata com a Itália com nove. A Conmebol tem um total de 26 títulos, e a Europa, 34. Os números englobam campeonatos mundiais organizados pela própria Fifa, e o Intercontinental, disputado desde 1960. Esse é o critério da Fifa que reconheceu os campeonatos entre sul-americanos e europeus como Mundiais.

E a disparidade para a Europa tende a crescer nos próximos anos? Depende. Os times europeus tiveram um desenvolvimento fantástico, econômico e técnicos, nos últimos 15 a 20 anos. A Champions e as ligas nacionais organizadas profissionalmente lhes deram mais dinheiro, houve evolução na formação de jogadores e técnicos.

É um salto que o futebol sul-americano ainda pode dar se os seus dirigentes fizerem a lição de casa. A Libertadores melhorou, mas ainda não atingiu o seu pleno potencial. O Brasileiro é ainda mais subestimado em seu valor, assim como o Argentino. Nosso desenvolvimento técnico e tático ficou para trás.

Se simplesmente abrirmos mão de enfrentar os europeus, a tendência é a distância aumentar ainda mais porque não teremos parâmetro. Será como transformar, de vez, o futebol europeu na NBA. Lembre-se que, quando astros da NBA passaram a jogar Olimpíadas, a distância diminuiu entre países.

E, se tudo der errado e a discrepância continuar grande, os times brasileiros devem deixar de jogar uma competição porque dificilmente vão ganhar? Não faria nenhum sentido. Imagina times bolivianos ou venezuelanos abrindo mão da Libertadores porque não podem ganhar. Ou seleções da América Central ou da Oceania recusando vagas na Copa do Mundo por que são eternos azarões?

Isso vai contra a natureza do futebol, e do próprio esporte. O princípio esportivo é competir: ganhar é uma possível consequência. Como pudemos ver no ano passado, o Flamengo conseguiu competir. Por fim, será que somos tão mimados que não aguentamos tomar uma surra de realidade anual?

Rodrigo Mattos