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Rodrigo Mattos

Em Brasileiro aleatório, Inter pragmático salta na frente de rivais no divã

Abel Braga durante partida entre São Paulo e Internacional, no Morumbi - Marcello Zambrana/AGIF
Abel Braga durante partida entre São Paulo e Internacional, no Morumbi Imagem: Marcello Zambrana/AGIF
Rodrigo Mattos

Nascido no Rio de Janeiro, em 1977, Rodrigo Mattos estudou jornalismo na UFRJ e Iniciou a carreira na sucursal carioca de ?O Estado de S. Paulo? em 1999, já como repórter de Esporte. De lá, foi em 2001 para o diário Lance!, onde atuou como repórter e editor da coluna De Prima. Mudou-se para São Paulo para trabalhar na Folha de S. Paulo, de 2005 a 2012, ano em que se transferiu para o UOL. Juntamente com equipe da Folha, ganhou o Grande Prêmio Esso de Jornalismo 2012 e o Prêmio Embratel de Reportagem Esportiva 2012. Cobriu quatro Copas do Mundo e duas Olimpíadas.

25/01/2021 04h04

No início do Brasileiro, o Internacional não era uma zebra, mas não era um favorito. Com o trabalho de Coudet, postava-se ali atrás de Flamengo, Palmeiras e Atlético-MG como um possível candidato ao título. Estava na segunda turma, próximo da primeira. A saída do argentino parecia tornar bem improvável um título colorado.

E o que aconteceu com Abel Braga que o time arrancou a uma liderança do Brasileiro com quatro pontos sobre o vice-líder? Qual a explicação para a goleada sobre o então líder São Paulo e o fim do jejum sobre o rival Grêmio? Por que ganhou oito jogos seguidos? Esse final de semana mostrou o universo conspirando a favor do Inter, com uma rodada de tropeços de adversários e uma virada nos acréscimos.

O trabalho de Abel é construído em uma ideia básica de futebol. Competir ao máximo sem a bola, com marcação recuada e em determinados momentos na pressão. Nenhuma prioridade para ter a bola, nem complexidades na criação de jogadas. Joga o mais direto possível.

Essa é a mesma ideia de Abel que fracassou de forma retumbante no Flamengo, no Cruzeiro e no Vasco. Não, o técnico não fez bom trabalho no rubro-negro ao contrário do que ele diz. Seu time era medíocre e equivocado para as peças disponíveis. A gestão Jorge Jesus só expôs essa fragilidade.

Mas vivemos um contexto diferente. Houve uma pandemia de coronavírus que claramente afetou o futebol. Veja por exemplo o Campeonato Inglês com o Manchester United, desacreditado no início da temporada, como líder. E goleadas improváveis como a sofrida pelo Liverpool para o Aston Villa. No geral, um maior equilíbrio, um perde e ganha entre os times fortes.

Neste contexto, Abel apresentou um time com uma ideia clara - básica, mas clara - e jogadores dispostos a comprar o projeto de serem competitivos. O trabalho prévio de Coudet ajudou bastante principalmente na troca de passes e na marcação pressão.

Enquanto isso, o Flamengo de melhor elenco do campeonato tem um técnico Rogério Ceni que prega um futebol ofensivo, mas é incapaz de escalar juntos os dois atacantes mais caros do país, Pedro e Gabigol. Alegou que nenhum dos dois recompõe a defesa após a derrota para o Athletico. Aliás, as entrevistas de Ceni se centram em erros defensivos e pouco explicam as faltas de ideias ofensivas.

O Flamengo é um time no divã após a saída de Jorge Jesus. Foi ultraofensivo com Domènec e se viu frágil. Com Ceni, é um time de posse de bola estéril, substituições indecifráveis e leitura de jogo equivocada - Diego achou que o time dominou o Athletico. Sério?

O Atlético-MG investiu o que tinha e o que não tinha para brigar no Brasileiro. Mas o seu técnico ultraofensivo - Sampaoli de fato é ousado além do discurso e tem um sistema - não buscou um homem capaz de fazer os gols que lhe faltam. Jogando com sua linha de defesa avançada, empilha zagueiros lentos como Rever e Igor Rabelo.

Não por acaso o Galo entrega um jogo atrás do outro em contra-ataques ou falhas defensivas óbvias como fez com o Vasco.

Já o São Paulo é o time ainda mais necessitado de terapia entre todos os que estão na frente. Sua liderança de sete pontos se transformou em quatro pontos de desvantagem desde a eliminação da Copa do Brasil. O lateral Juanfran admite que a cabeça não está boa, uma parte da torcida apedreja o time (em atitude criminosa) e o técnico Fernando Diniz se exibe aos gritos descontrolados em volta do campo.

O clube também passa por uma transição de poder no meio do campeonato em que houve trocas no futebol, com a chegada de Muricy e saída de Alessandro Pássaro.

Todos esses três times têm um potencial maior do que o Internacional. Mas, quando você não tem uma ideia precisa do que quer no futebol, ou não sabe como executá-la, é provável que sua equipe não funcione. Às vezes, é simples assim. É óbvio que esse não é um diagnóstico definitivo ainda mais se considerando a aleatoriedade do campeonato. O Inter não é um time brilhante e pode vacilar, muito improvável que ganhe todos os jogos até o final. Seus rivais, no entanto, terão de sair do divã para virarem o cenário atual ou o Inter irá com suas certezas para a taça.

Rodrigo Mattos