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Rodrigo Mattos

Imprensa tem que fazer autocrítica pela supervalorização de Rogério Ceni

Rogério Ceni orienta Gabriel Barbosa durante derrota diante do Ceará - Jorge Rodrigues/AGIF
Rogério Ceni orienta Gabriel Barbosa durante derrota diante do Ceará Imagem: Jorge Rodrigues/AGIF
Rodrigo Mattos

Nascido no Rio de Janeiro, em 1977, Rodrigo Mattos estudou jornalismo na UFRJ e Iniciou a carreira na sucursal carioca de ?O Estado de S. Paulo? em 1999, já como repórter de Esporte. De lá, foi em 2001 para o diário Lance!, onde atuou como repórter e editor da coluna De Prima. Mudou-se para São Paulo para trabalhar na Folha de S. Paulo, de 2005 a 2012, ano em que se transferiu para o UOL. Juntamente com equipe da Folha, ganhou o Grande Prêmio Esso de Jornalismo 2012 e o Prêmio Embratel de Reportagem Esportiva 2012. Cobriu quatro Copas do Mundo e duas Olimpíadas.

11/01/2021 04h00

Ao assumir o Flamengo, Rogério Ceni chegou ao seu terceiro clube grande do Sudeste. Fracassou no São Paulo, no Cruzeiro e faz um trabalho bem ruim no time rubro-negro. Ao ser contratado pela diretoria do time carioca, foi considerado pela maior parte da imprensa esportiva como uma escolha acertada pelo seu discurso moderno, por ser o mais promissor treinador brasileiro, por ser… Rogério Ceni.

Bem, há aí uma diferença brutal entre a realidade e uma percepção paralela construída no mundo do futebol em volta da imagem do treinador e ex-jogador. E como isso ocorreu?

Rogério Ceni se preparou mais do que a maioria dos ex-jogadores que se propõe a ser treinador. É um obsessivo, dedicado, consciente do que se passa no mundo do futebol. Parecia cru ao assumir o São Paulo onde enfileirava estatísticas para justificar derrotas e todos nós jornalistas o perdoamos.

Seu trabalho no Fortaleza foi de muito bom nível, por três anos, consistente. Foi também um treinamento voltado para um time que, no alto nível da Série A, tinha como principal objetivo se defender para atacar de forma reativa e assim assegurar os pontos para ficar na elite. Não há dúvidas que Rogério foi eficiente nesta fórmula.

E foi baseado nesses jogos contra times grandes do Sudeste, em que se defendia de forma eficiente, que Ceni foi julgado pela mídia do Sudeste. "Ah, mas ele buscava posse de bola quando jogava contra times iguais" O Fortaleza era bem ineficiente em fazer gols -os números mostram isso - inclusive contra times de mesmo investimento

Mas Ceni não era apenas um treinador que sabia se defender e contra-atacar. Tinha um discurso moderno, um auxiliar europeu e…era ídolo de um time grande do Sudeste.

O livro Soccernomics" defendeu por meio de levantamentos que a avaliação da mídia e do mundo do futebol na Inglaterra é influenciada por diversos fatores alheios ao campo, inclusive cor. Um centroavante grandão, loiro, de cabeleira, é melhor avaliado do que um negro de mesmo desempenho, segundo o livro. Óbvio que no caso de Rogério não há esse tipo de questão envolvida. Mas há o viés positivo em relação à figura.

O que exatamente Rogério Ceni fez de mais importante na carreira do que Guto Ferreira, que treinou o Ceará que o bateu no Maracanã? Guto treinou incontáveis times de forma eficiente para se defender muito bem e contra-atacar. Também treinou equipes que sabiam jogar bola. Nunca ninguém defendeu que Guto era a renovação do banco de treinadores no Brasil. É um treinador eficiente, porém não é ídolo de ninguém e está acima do peso (não descarte esse fator no viés de análise dos técnicos, somos preconceituosos, saibamos ou não).

E aí vem outra questão: o Brasil está extremamente carente de técnicos como mostra o sucesso de estrangeiros nos dois últimos anos. Os treinadores brasileiros antigos estão ultrapassados, os novatos são iniciantes. Por isso, tendemos a supervalorizar qualquer técnico nacional que pegou em um livro e se deu ao trabalho de entender o que ocorre no mundo moderno.

Fernando Diniz, no São Paulo, é um exemplo clássico. Obviamente tem qualidades de inovar e propõe algo diferente, ofensivo, com troca de passes, inovador para o cenário nacional. Mas tem falhas como dá para ver no seu trabalho no Morumbi. Está evoluindo aos poucos, com oscilações em sua carreira. De novo, não tem a blindagem de Rogério Ceni já que não é ídolo de nenhuma torcida.

Esse texto não tem como objetivo julgar o futuro da carreira do atual treinador do Flamengo. É possível que evolua, que se torne um bom técnico de fato para times de ponta de tabela. Mas o que mostrou até agora, no Flamengo, no São Paulo e no Cruzeiro, é uma absoluta falta de ideias novas e um monte de clichês sobre futebol moderno. Seu time fica girando a bola lentamente com poucas alternativas para fugir de defesas fechadas. Parece uma equipe que quer vencer o campeonato de estatística, de maior posse de bola, de maior número de conclusões.

Sua entrevista coletiva após perder para Guto Ferreira, o sem-mídia, foi para dizer como seus treinos são muitos bons e como o Flamengo perdia por erros de conclusões. É meio óbvio dizer que não existe treino bom se não tem efeito prático em competição. Parecia quase entediado de ter explicar isso para repórteres ignorantes. Depois dessa declaração já havia jornalistas na televisão que dissessem que ele precisa de mais tempo, que falta paciência. O tempo dos técnicos no Brasil depende do prestígio que eles têm com a mídia.

Rodrigo Mattos