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Rodrigo Mattos

Como Brasileiro com 30% de técnicos estrangeiros impacta futuro do futebol

Técnico Abel Ferreira comanda o Palmeiras em partida contra o Red Bull Bragantino pela Copa do Brasil 2020 - Marcello Zambrana/AGIF
Técnico Abel Ferreira comanda o Palmeiras em partida contra o Red Bull Bragantino pela Copa do Brasil 2020 Imagem: Marcello Zambrana/AGIF
Rodrigo Mattos

Nascido no Rio de Janeiro, em 1977, Rodrigo Mattos estudou jornalismo na UFRJ e Iniciou a carreira na sucursal carioca de ?O Estado de S. Paulo? em 1999, já como repórter de Esporte. De lá, foi em 2001 para o diário Lance!, onde atuou como repórter e editor da coluna De Prima. Mudou-se para São Paulo para trabalhar na Folha de S. Paulo, de 2005 a 2012, ano em que se transferiu para o UOL. Juntamente com equipe da Folha, ganhou o Grande Prêmio Esso de Jornalismo 2012 e o Prêmio Embratel de Reportagem Esportiva 2012. Cobriu quatro Copas do Mundo e duas Olimpíadas.

08/11/2020 04h00

Com as recentes trocas de técnicos, o Brasileiro já tem 30% de técnicos estrangeiros nos bancos de seus times, ou seis de um total de 20. É um claro reflexo dos sucessos de Jorge Jesus e Jorge Sampaoli no ano passado. A questão é como isso terá impacto na evolução do futebol jogado no país.

Primeiro, ressalte-se que os estrangeiros que chegaram ao Brasil têm perfis diferentes. As apostas de Flamengo e Atlético-MG foram por técnicos de futebol ofensivo com defesas atuando bem avançadas, casos de Domènec e e Sampaoli. O argentino Eduardo Coudet monta um Internacional mais equilibrado e com boa execução na pressão sobre a bola e marcação ofensiva.

Os trabalhos de Sá Pinto, Vasco; Abel Ferreira, Palmeiras; e Ramón Diaz, no Botafogo, estão no início ou nem começaram. O último é um treinador de estilo mais tradicional, com seu último trabalho em time grande no River Plate até 2014.

Dito isso, há como ponto central dessas contratações uma intenção de buscar uma forma nova de jogar, mais moderna, longe do futebol só de contra-ataque que predominou no Brasil por anos. Uns vão dar certo, outros serão apostas curtas. Mas, com os principais clubes do país nesta tendência, não parece que vá ser algo passageiro.

Os próprios técnicos brasileiros mais valorizados, caso de Rogério Ceni, têm perfil de praticar um futebol mais europeu, no sentido de antenado com a forma com que se joga na elite do futebol mundial atual. Um ponto é que faltam treinadores com essa qualidade com a nacionalidade brasileira.

E esse é um dos tópicos que precisamos discutir: não haverá dinheiro para todos os times da Série A contratarem estrangeiros de alto nível. O euro e o dólar estão nas alturas, é difícil atrair europeus para a América do Sul e mesmo argentinos têm dito não para potências como o Palmeiras.

Então, para que a onda estrangeira represente uma evolução na forma de se jogar, precisamos utiliza-la para forma técnicos ano Brasil. Há uma geração mais nova que tem trabalhado em times menores ou tem cargos de auxiliares com fome de conhecimento e ansiosa por mudanças. Não têm ainda meios de dirigir grandes times, mas certamente haverá nomes com potencial. E como forma-los?

Obviamente que a imposição de diferentes estilos e modelos já coloca desafio para os treinadores brasileiros, que tendem a crescer. Mas precisamos olhar para a formação: os clubes deveriam colocar em contrato que os técnicos de fora têm que passar conhecimento e métodos para seus correspondentes em divisões de base, ou auxiliares. Já seria uma melhoria na formação de técnicos.

De outro lado, a CBF poderia dar uma incrementada no seu curso de treinadores que ainda tem poucas vozes estrangeiras, centrada mais em profissionais daqui. Tanto Portugal quanto a Alemanha tiveram incrementos em suas escolas de treinadores seja por difusão de conhecimento sistemático, seja por montagem de escolas mais estruturadas. Pode ser feito o mesmo por aqui.

Não há nada de errado em copiar modelos que dão certo fora. A entrada de migrantes qualificados sempre representa um salto em determinada área em um país. A queda da reserva de mercado que existia no Brasil é bem positiva. Mas é preciso ter uma estratégia para aproveita-la.

Rodrigo Mattos