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Rodrigo Mattos

CBF já afeta valor de mercado da seleção ao torna-la 'inimiga' dos clubes

Tite, técnico da seleção brasileira, durante a partida contra a Bolívia - Buda Mendes/Getty Images
Tite, técnico da seleção brasileira, durante a partida contra a Bolívia Imagem: Buda Mendes/Getty Images
Rodrigo Mattos

Nascido no Rio de Janeiro, em 1977, Rodrigo Mattos estudou jornalismo na UFRJ e Iniciou a carreira na sucursal carioca de ?O Estado de S. Paulo? em 1999, já como repórter de Esporte. De lá, foi em 2001 para o diário Lance!, onde atuou como repórter e editor da coluna De Prima. Mudou-se para São Paulo para trabalhar na Folha de S. Paulo, de 2005 a 2012, ano em que se transferiu para o UOL. Juntamente com equipe da Folha, ganhou o Grande Prêmio Esso de Jornalismo 2012 e o Prêmio Embratel de Reportagem Esportiva 2012. Cobriu quatro Copas do Mundo e duas Olimpíadas.

13/10/2020 04h00

O Brasileiro deste final de semana viveu mais uma rodada de desfalques de alguns dos principais jogadores por conta de jogos das seleções pelas eliminatórias que se sobrepõem às partidas de clubes. Em paralelo, a seleção brasileira jogará nesta terça-feira contra o Peru sem transmissão em TV Aberta após longo tempo porque não foi fechada uma negociação de direitos - o jogo passará no pacote fechado da Turner, EI Plus. Embora pareçam desconectados, os dois fatos têm uma relação entre eles.

O calendário da CBF tem como premissa deixar os jogos de clubes em segundo plano em relação à seleção. Os jogos do Brasileiro e da Copa do Brasil não param, os times têm que ceder os atletas pela regra da Fifa e o time brasileiro fica, portanto, com o file mingon enquanto os times têm que roer o osso. Como exemplo, há uma partida da Série A, Flamengo x Goiás, mesmo dia do confronto da seleção que conta com jogadores rubro-negros.

A questão é que a maior conexão que os torcedores têm no futebol é com os clubes. Pois bem, qualquer medida que se coloca contra o "seu time" causa reação imediata, seja uma crítica de um jornalista, seja uma convocação que tira o craque daquela rodada decisiva.

E não tem sido poucos prejuízos às equipes. Em outubro, os clubes terão três jogos da Série A sem os atletas de seleção. No próximo ano, em 2021, serão 18 rodadas com perdas de titulares, quase metade do campeonato. Para piorar, ainda há convocações secundárias de sub-23 para jogos treinos.

É inevitável que isso cause uma inimizade do torcedor com Tite, o time nacional e a CBF. Ora, a seleção vive basicamente de imagem, com contratos de patrocínio e de televisão para transmissão de jogos. Um baque na sua imagem afeta a sua renda.

Não se trata de uma raciocínio longínquo: já está acontecendo. Como mostrado em post na sexta-feira, o valor do jogo da seleção para as TVs já foi afetado. A CBF tinha vendido partidas em casa das eliminatórias para a Globo por um valor entre US$ 2 milhões e US$ 3 milhões. A Mediapro, que tem os direitos sobre os jogos como visitantes, pediu o mesmo valor e ninguém quis pagar. Por isso, não haverá transmissão em TV Aberta do jogo com o Peru.

É certo que o fracasso dessa negociação tem relação com a pandemia que provocou uma revisão dos valores pagos por direitos de televisão. Mas, entre agentes do mercado, é clara a percepção de que a seleção perdeu valor como produto para transmissão. Lembremos que o jogo que não será transmitido pela TV Aberta é oficial, de eliminatórias, o caminho para a Copa do Mundo, não um amistoso qualquer.

Obviamente, o time brasileiro continua a ser um produto que interessa uma fatia da população, principalmente aquela que consome o futebol de forma menos frequente. É um público que identifica na seleção um evento de entretenimento como outro qualquer como se viu nos públicos dos jogos nas arquibancadas antes da pandemia da coronavírus. Mas, entre os mais aficionados e que mais consomem futebol, já não é mais atrativa como antes.

Uma imagem que ilustra bem a desconexão da maior parte da torcida com a seleção foi a partida diante da Bolívia. Com o estádio vazio, o movimento Verde e Amarelo colocou bandeiras com imagem de "ídolos" do time. Estava lá uma faixa com a imagem de Tite que ganhou uma Copa América. Por mais que se possa gostar do trabalho do treinador, fica meio difícil imaginar que Tite é um ídolo do público brasileiro. A bandeira soava fake.

A televisão é onde chega primeiro esse efeito da desconexão da seleção com a torcida. Depois, isso pode atingir aos patrocinadores.

Se quiser reverter essa tendência, a CBF tem que de alguma forma associar seu produto, a seleção, aos clubes para despertar de novo a paixão dos torcedores. Para isso, precisa transformar seu time em um reflexo do que é o futebol brasileiro, não em uma predadora que só cresce destruindo a sua raiz. Até porque nenhuma planta se sustenta sem raiz.

Errata: o texto foi atualizado
Ao contrário do que informado anteriormente, ano que vem é 2021 e não 2020. O erro foi corrigido.

Rodrigo Mattos