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Rodrigo Mattos

Por que Fábio não se indignou quando tinha salário exorbitante no Cruzeiro?

Fábio em ação pelo Cruzeiro contra o Sampaio Corrêa - Marcelo Alvarenga/Foto FC/UOL
Fábio em ação pelo Cruzeiro contra o Sampaio Corrêa Imagem: Marcelo Alvarenga/Foto FC/UOL
Rodrigo Mattos

Nascido no Rio de Janeiro, em 1977, Rodrigo Mattos estudou jornalismo na UFRJ e Iniciou a carreira na sucursal carioca de ?O Estado de S. Paulo? em 1999, já como repórter de Esporte. De lá, foi em 2001 para o diário Lance!, onde atuou como repórter e editor da coluna De Prima. Mudou-se para São Paulo para trabalhar na Folha de S. Paulo, de 2005 a 2012, ano em que se transferiu para o UOL. Juntamente com equipe da Folha, ganhou o Grande Prêmio Esso de Jornalismo 2012 e o Prêmio Embratel de Reportagem Esportiva 2012. Cobriu quatro Copas do Mundo e duas Olimpíadas.

10/10/2020 04h00Atualizada em 10/10/2020 11h28

Após a derrota para o Sampaio Correia, o Cruzeiro entrou na zona de rebaixamento da Série B. No mesmo dia, o clube era excluído do Profut e passava a ter sobre sua cabeça R$ 303 milhões. A situação do time mineiro levou a um desabafo do seu principal jogador Fábio, indignado com ex-dirigentes responsáveis pelo caos atual:

"A responsabilidade agora é nossa. Ninguém está se escondendo. Todo mundo está colocando a cara e eu estou aqui, de peito aberto. Se a gente não se unir, vai ser pior para o Cruzeiro. Não adianta quebrar portão, quebrar a Toca... A situação está aí. Quem não pagou a Fifa? Quem perdeu 6 pontos? Agora, a gente está se matando aqui. Chega um, chega outro (jogador) e não pode ser inscrito?", disse o goleiro, após admitir que os títulos esconderam muita coisa.

Pois bem, a derrocada do Cruzeiro até o porão da Série B não aconteceu do dia para a noite. Foi um processo iniciado na gestão de Gilvan Pinho Tavares que gastou mais do que podia e deixou dívidas principalmente de contratações ao final de 2017. Depois, entrou em um processo de descontrole total sob o comando da dupla Wagner Pires de Sá e Itair Machado.

Logo de cara, contrataram o atacante Fred por um valor de R$ 45 milhões por três anos. Era uma medida que não fazia sentido sob ponto de vista de uma gestão equilibrada, e era também só começo. Atrás de títulos, o Cruzeiro começou a ter um dos maiores gastos com futebol do país comparado ao Flamengo. Não faltaram alertas feitos pela meia dúvida de jornalistas de sempre, enquanto outros elogiavam a ousadia do clube.

Para se ter ideia, em maio 2019, o UOL teve acesso aos 10 jogadores com maiores salários registrados no futebol brasileiro. Havia dois atletas do Cruzeiro, Fred, na segunda posição, e Fábio, na quarta. Era portanto o goleiro mais bem pago do país e acima de estrelas como Everton Ribeiro ou Arrascaeta, do abastado Flamengo.

Uma análise da lista mostra que o salário de Fábio estava acima do mercado para sua posição (óbvio que há alguma subjetividade nesta opinião). Seus vencimentos altos eram frutos das seguidas renovações com aumentos após negociações duras com o Cruzeiro. Mais importante, o clube mineiro não tinha condições de paga-lo independentemente se o seu futebol valia aquele montante ou não.

Naquele período de 2019, já estavam claros os problemas financeiros graves do Cruzeiro com atrasos de salários. Em seguida, veio a parte policial com revelações dos gastos suspeitos com comissões, com salários de diretores e até acusações de desvios de recursos, parte deles revelados antes pelo "Globo Esporte".

O goleiro Fábio, que tem 16 anos de Cruzeiro, mostrou-se indignado ou chamou a atenção para o descalabro administrativo em nenhum momento daquele período. E é difícil crer que não soubesse de nada sendo o jogador experiente e conhecedor do clube. Preferiu continuar a receber calado o quarto maior salário de atleta do país com o seu time a caminho da falência.

É óbvio que Fábio não impôs seu salário a ninguém e não é culpado pelo caos cruzeirense que está na conta dos antigos gestores. E, sim, ele revelou algum altruísmo ao se manter no Cruzeiro mesmo após o rebaixamento - inegável sua identificação com os cruzeirenses.

Justamente por isso, como ídolo do clube, tinha uma voz que podia ser ouvida em um momento crítico do clube em 2019 quando serviria como alerta de que era hora de começar a tapar imediatamente os buracos do barco. Agora, com o barco já afundado, o seu desabafo não serve para muita coisa além de receber elogios de jornalistas.

Rodrigo Mattos