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Rodrigo Mattos

Palmeiras x Flamengo mostra que Covid acentua vale tudo no futebol

Rodolfo Landim, presidente do Flamengo - Reprodução/SporTV
Rodolfo Landim, presidente do Flamengo Imagem: Reprodução/SporTV
Rodrigo Mattos

Nascido no Rio de Janeiro, em 1977, Rodrigo Mattos estudou jornalismo na UFRJ e Iniciou a carreira na sucursal carioca de ?O Estado de S. Paulo? em 1999, já como repórter de Esporte. De lá, foi em 2001 para o diário Lance!, onde atuou como repórter e editor da coluna De Prima. Mudou-se para São Paulo para trabalhar na Folha de S. Paulo, de 2005 a 2012, ano em que se transferiu para o UOL. Juntamente com equipe da Folha, ganhou o Grande Prêmio Esso de Jornalismo 2012 e o Prêmio Embratel de Reportagem Esportiva 2012. Cobriu quatro Copas do Mundo e duas Olimpíadas.

26/09/2020 04h00

A volta do futebol em meio à pandemia do coronavírus foi uma concessão da sociedade. Não é uma atividade essencial, mas não era justo deixar que clubes e a indústria falissem enquanto o Brasil saía abrindo todos os setores da economia. Como troca, o futebol deveria manter o risco mais baixo. Mas o que se viu foi um vale tudo em que pouco importa a saúde das pessoas e, sim, a própria conveniência, como se vê na discussão que resultou na confirmação da realização do Palmeiras x Flamengo.

Um exemplo disso foi a decisão do presidente do STJD, Otávio Noronha, ao negar o pedido de adiamento da partida pelo Flamengo por conta do surto de seu time com 16 infectados. O documento tem 12 parágrafos sobre jurisprudência de casos similares, capacidade do Flamengo de ter time para atuar, alusões à riqueza do clube e defesa da continuidade da competição. Tem dois parágrafos sobre o risco à saúde de um time em surto jogar.

Nesses dois parágrafos, Noronha justifica que o protocolo da CBF foi aprovado por infectologistas renomados e não prevê suspensão de jogos por "contaminação em série em seu elenco". O protocolo da CBF, na realidade, não tem nenhuma regra ou previsão sobre surtos em times.

Contemos a história desde o início: a confederação criou um protocolo de segurança para evitar contaminações por coronavírus nos jogos. O documento, diga-se, foi feito com base em trabalho de infectologistas e é elogiado por especialistas externos. Jogadores têm sido testados e aqueles com positivos são afastados das partidas.

Só que havia uma lacuna grave. A CBF não tinha um procedimento definido do que aconteceria no caso de surtos de coronavírus em times de futebol. E esses surtos começaram logo na primeira rodada, no Goiás, no CSA, no Imperatriz. A confederação adiava uns jogos, e outros eram mantidos.

Questionada, inclusive por este blog, a CBF não definiu um número de atletas infectados que levariam ao adiamento de um jogo ou de jogadores disponíveis e saudáveis para jogar. Era caso a caso e de acordo com um critério subjetivo: se a equipe tinha jogadores suficientes para a partida. Quantos? Não se sabia. Contavam lesionados, sub-20? Nada no papel.

Em meio ao campeonato, a CBF foi usando o critério de que, se o time tivesse 13 jogadores saudáveis, poderia realizar o jogo. Não comunicou os clubes, mas se baseava nesse número - usado pela UEFA - para tomar decisões. Após 11 rodadas completas, nesta quinta-feira, a CBF enfim definiu esse padrão para os adiamentos. Por isso, rejeitou cancelar o Palmeiras x Flamengo. Ou seja, a regra só veio com o campeonato em andamento. Só levando em conta esse critério: a manutenção do jogo seria correta.

Mas aí surge outro problema no procedimento da CBF que é comum a todas as entidades esportivas. O protocolo ignora o aumento do risco de propagação de um time em surto. Engana-se quem olha só para a Série A e acha que só houve uma infecção em massa do Flamengo e do Goiás: ocorreu no CSA, no Imperatriz, na Caldense, no Sampaio Corrêa, no Guarany (CE) e no Palmas (TO). E levou a oito adiamentos.

Pois bem, em todos esses casos, a CBF nunca levou em conta o fato de que, quando há um surto, os jogadores que testam negativo hoje têm chances razoáveis de dar positivo durante um período. Assim, são ameaças para seus colegas com quem ficam concentrados, para adversários, para pessoas com quem interagem em viagens, etc. É o que todos os infectologistas dizem para esse tipo de episódio: tem que se isolar os que tiveram contatos com as pessoas infectadas em meio a surtos.

Como exemplo, o Flamengo começou com sete infectados antes da partida contra o Barcelona de Guayaquil, do Equador. A Conmebol forçou a realização do jogo, com procedimento similar ao da CBF, e o número subiu para 16 no elenco, e mais de 30 pessoas contando toda a delegação. Está claro o equívoco da Conmebol. E o jogo contra o Palmeiras está ainda no período de incerteza sobre esses jogadores que estavam no exterior, não se sabe ao certo o risco que representam para todos com quem fizeram contato.

Na França, por exemplo, um jogo do início da Ligue 1 foi adiado porque quatro jogadores do Marseille estavam infectados. Na Inglaterra, a partida da Copa foi cancelada porque o Leyton Orient tinha um surto no elenco.

Na discussão sobre a realização do jogo, no STJD, o Flamengo colocou isso em pauta com pareceres de de infectologistas. Sua posição era correta neste quesito, porém totalmente contraditória com a posição do clube de querer ter torcidas nos estádios. Ora, se há um aumento de risco com jogadores no meio de surto, há também uma ameaça grande com presença de 20 mil pessoas juntas. Imaginem quantos infectados podem estar aí? (Detalhe: todos os clubes aprovam a volta do público ao estádio)

E o Palmeiras é igualmente contraditório. Prega desde o início da pandemia que sejam seguidas as medidas de prevenção contra o coronavírus e chegou a cobrar testes do Corinthians na véspera da final do Paulista. No entanto, insistiu na realização de um jogo contra um time em surto que pode botar em risco seus atletas.

Todos os clubes que defendem a volta do público, a grande maioria da Série A, são contraditórios com as seguidas promessas de que o retorno do futebol seria feita de forma segura e minimizaria infecções. Ainda que autoridades municipais irresponsáveis liberem torcida agora -caso do prefeito do Rio, Marcelo Crivella -, está claro que um país onde ainda morrem em média 700 pessoas por dia não pode ter grandes eventos que são focos de propagação.

O futebol, portanto, recebeu um voto de confiança da sociedade desde que houvesse uma prioridade à questão de saúde. Os dirigentes fingem que esqueceram desse pacto e só agem de acordo com a própria conveniência.

Rodrigo Mattos