PUBLICIDADE
Topo

Rodrigo Mattos

CBV que repudia crítica a Bolsonaro tem 85% da receita atrelada ao governo

Talita e Carol Solberg - Divulgação
Talita e Carol Solberg Imagem: Divulgação
Rodrigo Mattos

Nascido no Rio de Janeiro, em 1977, Rodrigo Mattos estudou jornalismo na UFRJ e Iniciou a carreira na sucursal carioca de ?O Estado de S. Paulo? em 1999, já como repórter de Esporte. De lá, foi em 2001 para o diário Lance!, onde atuou como repórter e editor da coluna De Prima. Mudou-se para São Paulo para trabalhar na Folha de S. Paulo, de 2005 a 2012, ano em que se transferiu para o UOL. Juntamente com equipe da Folha, ganhou o Grande Prêmio Esso de Jornalismo 2012 e o Prêmio Embratel de Reportagem Esportiva 2012. Cobriu quatro Copas do Mundo e duas Olimpíadas.

22/09/2020 11h00

A CBV (Confederação Brasileira de Vôlei) soltou nota de repúdio à crítica da jogadora Carol Solberg ao presidente Jair Bolsonaro. A entidade tem 85% da sua receita atrelada ao governo federal, seja por investimento direto ou por meio do Banco do Brasil. Portanto, há uma dependência da confederação de decisões governamentais para sobreviver.

Em uma etapa do circuito de vôlei de praia, Carol soltou um "Fora Bolsonaro" ao ganhar a decisão de terceiro lugar. Em seguida, veio a nota da CBV:

"A Confederação Brasileira de Voleibol (CBV), vem, através desta, expressar de forma veemente o seu repúdio sobre a utilização dos eventos organizados pela entidade para realização de quaisquer manifestações de cunho político. O ato praticado neste domingo (20.09) pela atleta Carol Solberg durante a entrevista ocorrida ao fim da disputa de 3º e 4º lugar da primeira etapa do Circuito Brasileiro Open de Volei de Praia - Temporada 2020/2021, em nada condiz com a atitude ética que os atletas devem sempre zelar."

Pois bem, pelo balanço da CBV de 2019, a sua receita total foi de R$ 89,5 milhões. Desse total, são R$ 76,355 milhões de rendas atreladas ao governo federal ou 85% do total. Os valores são parecidos com os do ano anterior, isto é, de antes do governo Bolsonaro.

O maior montante da receita da confederação é de R$ 62,5 milhões de patrocínio, entre dinheiro para seleções e eventos. Embora a entidade até tenha outros patrocínios, o próprio balanço explicita que esse valor é do banco: "A receita de patrocínio está substancialmente representada pelo patrocinador oficial Banco do Brasil SA. A CBV renovou seus contratos para o próximo ciclo olímpico (2017-2020)", diz o texto.

O contrato entre CBV e o Banco do Brasil está justamente em negociação de renovação porque vai até abril de 2021. O banco é uma sociedade de economia mista, com capital privado e público. Na prática, a diretoria e as decisões do bancos são tomadas com influência decisiva do governo federal.

Além disso, a CBV recebeu outros R$ 13,8 milhões em convênios com o governo federal. É dinheiro que entra via lei de incentivo ou por meio de convênios do COB. Por isso, o Ministério da Cidadania consta como parceiro no site da confederação.

Foram sete projetos com subvenção listados em 2019, entre eles o circuito Brasileiro de Vôlei de Praia 2019/2020, justamente o evento onde Carol Solberg criticou o presidente. De novo, o dinheiro destinado pelo governo é similar ao que já era aplicado no ano anterior.

É preciso lembrar que a administração Bolsonaro cortou a verba para o esporte em diversas modalidades e fontes. No futebol, por exemplo, ele acabou com os patrocínios da Caixa Econômica Federal às camisas. Além disso, o esporte olímpico também sofreu cortes. O vôlei, no entanto, teve novo contrato.

Quando os jogadores Wallace e Maurício manifestaram apoio a Bolsonaro, durante a campanha, a CBV soltou uma nota dizendo que não compactuava com manifestação política, mas respeitava a liberdade de expressão. Em entrevista ao blog saída de Rede do UOL, posteriormente, Wallace disse que fora repreendido pelo técnico da seleção Renan: "Foi só pra não fazer essas coisas, por conta da questão do banco e tal."

O blog perguntou para a CBV se havia relação da nota com os patrocínios do Banco do Brasil, mas não recebeu resposta.

Rodrigo Mattos