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Blog do Rodrigo Mattos

Conflitos da Globo com Conmebol pesam na perda da Libertadores para o SBT

Manuel Velasquez/Getty Images
Imagem: Manuel Velasquez/Getty Images
Rodrigo Mattos

Nascido no Rio de Janeiro, em 1977, Rodrigo Mattos estudou jornalismo na UFRJ e Iniciou a carreira na sucursal carioca de ?O Estado de S. Paulo? em 1999, já como repórter de Esporte. De lá, foi em 2001 para o diário Lance!, onde atuou como repórter e editor da coluna De Prima. Mudou-se para São Paulo para trabalhar na Folha de S. Paulo, de 2005 a 2012, ano em que se transferiu para o UOL. Juntamente com equipe da Folha, ganhou o Grande Prêmio Esso de Jornalismo 2012 e o Prêmio Embratel de Reportagem Esportiva 2012. Cobriu quatro Copas do Mundo e duas Olimpíadas.

11/09/2020 04h00

Em 2016, a então nova gestão da Conmebol decide romper e rever os contratos de suas competições que tinham sido firmados por dirigentes que eram acusados de corrupção no caso Fifa. A entidade queria reajustes para acordos da Libertadores e da Copa América. A Globo foi à Justiça no Brasil para garantir que pagaria os preços baixos anteriores - e levou.

Em 2020, em meio à pandemia do coronavírus, a Globo procurou a Conmebol para renegociar o contrato da Libertadores: queria pagar menos. A confederação rejeitou. A Globo rompeu unilateralmente o seu acordo para a competição sul-americana para tentar forçar uma redução. A Conmebol fechou a venda dos direitos para o SBT.

Nesse meio tempo, houve uma relação conflituosa entre as duas partes por conta de disputas contratuais, por dinheiro e por respeito. O presidente da Conmebol, Alejandro Dominguez, entendeu ter sido desrespeitado em algumas situações pela emissora, segundo apurou o blog. Isso teve um peso no desfecho que levou os principais jogos da Libertadores para o SBT.

A história começa quando Dominguez assume uma Conmebol quebrada pelos casos de corrupção de seus antecessores, sendo que os três anteriores, Nicolas Leóz, Juan Angel Napout e Eugenio Figueredo, tinham mandados de prisão contra eles no caso Fifa. Entre outras acusações, eram apontadas propinas recebidas por contrato de direitos da Libertadores com T & T.

Com isso, a entidade rompeu esse acordo e começou a tentar renegociar os contratos da Libertadores e da Copa América diretamente com as televisões, em vez de com intermediação da T & T. No caso da competição de clubes, o acordo era com a Fox Sports que repassava parte dos direitos à Globo. A Conmebol queria rever esses valores.

A emissora carioca respondeu com um ação na Justiça do Rio contra a Fox e a Conmebol em que exigia o cumprimento do contrato. Detalhe: pagava US$ 12,8 milhões por ano pela Libertadores, menos da metade do Paulista. Conseguiu a vitória judicial.

No processo, a Globo diz que, se não pudesse transmitir a Libertadores, iria sofrer um "dano irreparável" e que a Conmebol não poderia romper o contrato só porque lhe era vantajoso. E completa: "A autora (Globo) corre o sério risco de ter seus direitos sobre as Copas Libertadores da América e Sul-Americana frustrados, com o que sofreria graves prejuízos em sua audiência, e de causar prejuízos às empresas a quem já vendeu as cotas de patrocínio."

Depois disso, Dominguez procurou executivos da Globo para tentar conversar e renegociar esse contrato e o da Copa América, que também tinham um valor baixo. Chegou a falar com Roberto Marinho Neto, então responsável pela área de direitos de esporte na empresa. Ele rechaçou e informou que aquelas eram as condições - Dominguez se sentiu esnobado. A Globo continuou a pagar menos pelas competições.

Posteriormente, houve a concorrência pelos direitos da Libertadores em 2018. A emissora levou o melhor pacote pagando US$ 60 milhões. Mas colocou exigências na negociação: não aceitava veicular patrocinadores da competição nas transmissões e pediu mais um jogo no meio de semana. As conversas daquela ocasião foram consideradas difíceis, porém profissionais. Os patrocinadores da Conmebol, no entanto, perdiam exibição.

Chega 2020 e a pandemia do coronavírus. A Globo pediu uma renegociação dos contratos da Libertadores. A Conmebol rejeitou diminuir o valor.

Sem avisar a Conmebol, a Globo manda uma carta avisando da rescisão unilateral do contrato pela Libertadores no início de agosto. A carta da Globo alega que a paralisação da competição permitia essa rescisão. Essa tese é discutível pois a cláusula se aplicaria a casos de força maior causados pela Conmebol, segundo uma fonte que teve acesso ao contrato.

Fato é que a Globo toma a mesma medida que criticara na confederação sul-americana em 2016: uma rescisão de contrato porque não entendia que o contrato era vantajoso. Alejandro Dominguez recebeu a informação com extrema irritação.

A confederação sul-americana vai para o mercado brasileiro oferecer a Libertadores para outras TVs Abertas, assim como para parceiros do Facebook. A ideia da Conmebol e dos executivos encarregados era abrir espaço para uma nova empresa. Outro fato importante era a exposição dos patrocinadores que seria garantida.

A Globo não desistiu da Libertadores e procurou a Conmebol para fazer uma oferta com valor reduzido em relação ao contrato inicial. Não é bem recebida. A negociação com o SBT avança com o mesmo pacote que era concedido à Globo, dois jogos por rodada, preferências nas escolhas e horários iguais.

Até a última hora a Globo tentou uma reviravolta. Foi a hora de a Conmebol dizer não.

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