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Rodrigo Mattos

Só vendas de atletas fecham contas debilitadas do São Paulo, diz estudo

Rodrigo Mattos

Nascido no Rio de Janeiro, em 1977, Rodrigo Mattos estudou jornalismo na UFRJ e Iniciou a carreira na sucursal carioca de ?O Estado de S. Paulo? em 1999, já como repórter de Esporte. De lá, foi em 2001 para o diário Lance!, onde atuou como repórter e editor da coluna De Prima. Mudou-se para São Paulo para trabalhar na Folha de S. Paulo, de 2005 a 2012, ano em que se transferiu para o UOL. Juntamente com equipe da Folha, ganhou o Grande Prêmio Esso de Jornalismo 2012 e o Prêmio Embratel de Reportagem Esportiva 2012. Cobriu quatro Copas do Mundo e duas Olimpíadas.

31/07/2020 04h00

O São Paulo teve que usar a venda do atacante Anthony para pagar pelas contratações caras feitas no ano passado para não prejudicar ainda mais as debilitadas contas do clube. É a conclusão do estudo do Itaú/BBA. A avaliação da consultoria, no entanto, é que o clube feche com geração de caixa positivo em 2020, embora insuficiente para recuperar suas finanças.

No caso do Palmeiras, a redução de custos iniciada no ano passado será suficiente para manter as contas equilibradas, na visão do Itaú/BBA. Assim, o desafio alviverde é se tornar mais eficiente nos seus gastos no futebol dentro de novas limitações financeiras. Afinal, o clube foi o que mais gastou em contratações nos últimos cinco anos.

Por último, as contas do Santos e do Vasco seguem dependentes de vendas de atletas para fechar. A consultoria prevê que a agremiação cruzmaltina deve conseguir atingir valores altos de negociações, enquanto os santistas devem penar.

Esta é o terceiro e o último post sobre as contas dos clubes de 2020 com as estimativas feitas pelo Itaú/BBA. Os impactos da epidemia do coronavírus são analisados pela consultoria neste estudo, além dos balanços do ano passado.

Internacional

O Internacional está longe do equilíbrio de contas visto em seu rival Grêmio: ainda capenga para buscar uma fórmula para reduzir suas dívidas. Esse cenário se agrava em um ano de epidemia que torna a agremiação mais dependente da venda de atletas. Mas não é um clube em situação desesperadora.

Para a temporada 2020, o estudo do Itaú/BBA estima uma receita de R$ 298 milhões, cerca de de R$ 80 milhões a menos do que no ano passado. A questão é que a despesa deve aumentar para R$ 314 milhões, o que significa R$ 34 milhões a menos do que o ano passado. Com isso, é provável um novo aumento da dívida do clube como em 2019. "Ainda assim o resultado tende a ser de geração de caixa (EBITDA) negativo, o que deve pressionar ainda mais as finanças desequilibradas do clube", conclui o estudo do banco.

"Depois de um início de recuperação em 2018 o clube patinou em 2019. Depende da venda de atletas para fechar as contas e da premiação da Copa do Brasil. Ainda assim investiu e aumentou as dívidas. No lugar de seguir adiante o Colorado parou no acostamento. Talvez esperando alguém que indique o caminho correto."

Palmeiras

Clube que mais investiu em elenco nos últimos três anos no Brasil, o Palmeiras pôs o pé no freio para a temporada 2020 diante do aumento da dívida, principalmente a com a Crefisa. O valor total de débito efetivo é de R$ 530 milhões, segundo o estudo do Itaú/BBA. A redução de gastos, no entanto, deve ser suficiente para manter o clube equilibrado financeiramente mesmo com a epidemia do coronavírus.

Por conta da paralisação do futebol, a receita líquida estimada do Palmeiras deve cair para R$ 503 milhões, o que representa R$ 103 milhões a menos do que o ano passado. Os custos também devem ter uma queda chegando a R$ 420 milhões.

"Ao mesmo tempo acreditamos em ajustes nos custos, o que faz com que o nível de geração de caixa seja metade de 2019 mas ainda assim positivo", conclui o estudo. A geração de caixa é estimada em R$ 83 milhões. É possível que negociação de Dudu melhore esse resultado. E, com o equilíbrio, o desafio é mais esportivo.

"O desafio agora é retomar a eficiência esportiva, uma vez que a situação financeira estrutural é equilibrada, o clube possui elenco qualificado e precisa se colocar mais próximo dos títulos em relação a 2019, quando o Flamengo descolou nesse sentido. Não será todos os anos que os títulos chegarão, mas é necessário estar mais próximo deles, especialmente pela capacidade financeira."

Santos

A histórica dependência do Santos da venda de jogador torna-se mais grave em 2020 com verbas reduzidas no mercado de transferências pela crise do coronavírus. Não será possível reproduzir o cenário do ano passado quando a negociação de Rodrygo salvou a temporada, embora sem evitar o crescimento da dívida.

Para se ter ideia do efeito sobre as contas, o estudo do Itaú/BBA estima uma receita líquida de R$ 171 milhões para o Santos na qual temporada. Isso é menos da metade dos R$ 378 milhões obtidos no ano passado. A redução de custos, no entanto, não acompanhou o mesmo ritmo. "A expectativa para 2020 é de deterioração, natural para o período. O grande impacto está claramente no menor volume de Vendas de Atletas. Claramente este é um item sensível em vários clubes, mas no caso do Santos é fundamental, já que as receitas recorrentes vêm estáveis há um bom tempo", diz o estudo.

"O Santos precisa entender que há limites de gastos e investimentos, e que a venda de atletas não pode ser o pilar. E então vem o desafio de fazer mais receitas recorrentes, seja em patrocínio, seja em relacionamento direito com os torcedores. A TV já garante uma boa receita, então a dificuldade está justamente em lidar com as demais receitas a partir da força da marca."

São Paulo

A gastança com o futebol em 2019 tirou o São Paulo do rumo da recuperação financeira que se ensaiava: o clube tinha uma das menores dívidas entre os grandes. A venda de Anthony ajudou a amenizar a situação para a atual temporada. Mas terá de haver um novo esforço para redução de passivos em um ano complicado de epidemia de coronavírus.

De acordo com o estudo do Itaú/BBA, a receita deve ter uma leve queda ficando em R$ 368 milhões. No caso dos custos, também devem se manter em patamar similar ao ano passado, com R$ 345 milhões. Ou seja, a projeção é de uma geração de caixa positiva, mas incapaz de reduzir a dívida que saltou além de R$ 500 milhões no ano passado. "No mais, a tendência é de custos maiores ao longo do ano, pois parte importante dos vencimentos dos atletas contratados em 2019 ficou para 2020, e mesmo com alguma redução a tendência é de números que pressionarão mais o caixa do clube", diz o estudo.

"A pandemia de 2020 apenas reforçou a necessidade de vender atletas da base para fechar as contas já debilitadas. O problema é que se antes as vendas serviriam para ajudar a colocar as dívidas em ordem, agora elas mais que nunca ajudam a diminuir os problemas de caixa da operação. Fruto de uma gestão que em 2019 incorreu em todos aqueles erros citados acima: contratar demais e caro, com critérios técnicos questionáveis, aumentando a dívida mas sem trabalhar o aumento das receitas de forma eficiente - a velha máxima do "vamos trazer patrocinadores" que nunca acontece mas as gestões do futebol sempre repetem - tudo porque a glória é hoje."

Vasco

Desde a saída de Eurico Miranda, o Vasco vive uma situação de estagnação: a dívida acima de R$ 500 milhões estrangula receitas e impede o clube de tocar seu dia a dia. E a gestão de Alexandre Campello não equacionou esses débitos para mudar o rumo do clube. Em 2020, uma nova venda de jogadores pode gerar uma nova chance de recuperação.

Pelo estudo do Itaú/BBA, a receita estimada para o Vasco é de R$ 262 milhões para 2020 mesmo com a crise do coronavírus. Motivo: há uma expectativa de negociação de atletas em alto volume para aumentar a receita em mais de R$ 70 milhões. Isso iria gerar um caixa de R$ 100 milhões, suficiente para estruturar uma recuperação. "O cenário para o Vasco só será bom se houver venda de atletas relevante. No nosso modelo fomos agressivos no valor porque há atletas que despertam interesse e tiveram propostas", conclui o estudo.

"Está na hora de uma transformação mais profunda das estruturas do Vasco. E 2020 pode até ajudar nesse sentido, se conseguir vender atletas, cortar custos aproveitando o tema da pandemia e se reorganizar. Precisa também trabalhar de forma mais eficiente na gestão do dinheiro relacionado ao futebol, gastando melhor o que tem, e pensar em venda de ativos para ajustar as dívidas ao tamanho possível."

Rodrigo Mattos