PUBLICIDADE
Topo

O que o livro sobre Guardiola revela sobre o novo técnico do Flamengo

Rodrigo Mattos

Nascido no Rio de Janeiro, em 1977, Rodrigo Mattos estudou jornalismo na UFRJ e Iniciou a carreira na sucursal carioca de ?O Estado de S. Paulo? em 1999, já como repórter de Esporte. De lá, foi em 2001 para o diário Lance!, onde atuou como repórter e editor da coluna De Prima. Mudou-se para São Paulo para trabalhar na Folha de S. Paulo, de 2005 a 2012, ano em que se transferiu para o UOL. Juntamente com equipe da Folha, ganhou o Grande Prêmio Esso de Jornalismo 2012 e o Prêmio Embratel de Reportagem Esportiva 2012. Cobriu quatro Copas do Mundo e duas Olimpíadas.

31/07/2020 14h04

Contratado pelo Flamengo em um processo seletivo, o técnico Domènec Torrent tem uma carreira curta como responsável principal por uma equipe, sendo a passagem mais marcante pelo New York City em 2019. Dentro deste contexto, sua atuação como auxiliar de Pep Guardiola é mais reveladora sobre suas características por ser mais longa.

E é no livro "Guardiola Confidencial", escrito por Martí Perarnau, que pode se entender qual o seu papel ao lado de Guardiola quando este era do Bayern Munique. É uma função que exerceu por mais de 10 anos ao lado do atual treinador do City. A diferença do livro para outros relatos foi seu acesso ao ambiente de Guardiola para entender como são geridos seus times.

Torrent atuava como um dos auxiliares técnicos ao lado de um alemão que já estava no Bayern. Pelo livro, era o principal interlocutor de Guardiola quando se tratava de questões táticas do Bayern, embora Manel Estiarte fosse o braço-direito do técnico. Veja algumas das características que indicam o seu perfil e modo de atuar.

Sem pressa para impor seu estilo e flexível ao time

Quando Guardiola chega ao Bayern, há um imediato questionamento sobre como será a adaptação já que seu estilo de jogo era diferente do time alemão. O técnico prefere o jogo de posse de bola e com os jogadores posicionados em zonas de campo determinadas para atacar e defender. O Bayern era mais impetuoso para concluir rápidos os ataques e às vezes aceitava jogar em contra-ataque.

Ao chegar ao Flamengo, também haverá diferenças. Na defesa, o time rubro-negro já marcava por zona com Jorge Jesus. Mas, ofensivamente, seus jogadores se deslocam bastante, trocam de posições e tentam se juntar próximos à zona da bola.

No Bayern, Guardiola decidiu ensinar seu método aos poucos e respeitar as características que já existiam no time. Fica claro que é a mesma posição defendia por Torrent, seu principal auxiliar. Torrent diz no livro:

"Estamos ensinando a eles um idioma novo e é preciso ir devagar, como se estivéssemos ensinando os números, depois os dias da semana, depois os verbos etc.... É uma nova realidade e temos que ser flexíveis e cautelosos. Antes, por exemplo, eles faziam a marcação homem a homem; agora passamos a marcar por zona. Não queremos que abandonem a posição que devem guardar para marcar um adversário porque, nesse caso, basta um passe longo do rival e nossa organização vai por água abaixo. Mas é questão de tempo e eles estão aprendendo muito bem."

Interlocutor para tática com Guardiola

Uma das mudanças mais importantes do Bayern foi o deslocamento de Lahm da lateral-direita para o meio-campo. Essa alteração foi fruto de diálogos e trocas de ideias desde a chegada ao time alemão entre Guardiola e Torrent. Ainda na pre-temporada, ambos falavam bastante do assunto e começavam a testar a troca de posição.

Mais tarde, em um jogo da Supercopa europeia diante do Chelsea, Kroos tinha dificuldade na função de primeiro volante. Foi então que Torrent sugeriu a Guardiola colocar Lahm nesta função. Mas não foi um insight no momento, os dois já tinham discutido e treinado essa opção.

"As palavras de Dome (Torrent) foram chaves. Se ganharmos alguma coisa nesta temporada, será em razão daquele dia. Ouça bem o que digo: se ganharmos alguma coisa nesta tmeporada, será por causa do Lahm. Porque posiciona-lo como volante foi o que reordenou todas as peças", disse Guardiola no livro.

Obsessivo por análises de adversários

Uma das funções de Torrent como auxiliar era a análise de adversários e de treinos do próprio Bayern para identificar erros e defeitos a serem corrigidos. Um exemplo citado no livro é que o auxiliar chegava a pegar os replays dos últimos 50 lances de bola parada do time rival para saber como marca-lo ou ataca-lo.

Outra passagem cita que Guardiola e Torrent assistiam aos treinos do Bayern em vídeo posteriormente, de forma separada, além de rever os jogos. Assim, os dois analisavam o que tinha sido executado e tinham impressões diferentes para serem confrontadas. Era comum também que jantassem após as partidas juntamente com Estiarte para trocar impressões.

Pelo livro, fica claro como Guardiola incentiva a participação de toda sua comissão técnica em conselhos e tomadas de decisões. O auxiliar dava boa parte dos treinos, embora esses fossem preparados em conversas com Guardiola.

Relacionamento com os atletas

Ao final do livro, o autor Perarnau ouviu atletas do Bayern para saber suas impressões a respeito da chegada de Guardiola e da adaptação que tiveram ao seu trabalho. Pelo menos dois deles citam passagens com Torrent nas quais demonstram ter bom relacionamento com ele.

O holandês Robben respondia sobre uma suposta dificuldade que poderia ter para se ajustar ao modelo de jogo de Guardiola porque era mais driblador e individualista, ao contrário do privilégio ao toque de bola dado pelo jogador.

"Olha, eu tinha muita confiança em Pep desde que anunciaram sua contratação. Tive boa impressão quando o conheci e também quando conheci Dome (Torrent) e Loren (Buenaventura). Eu também queria participar da maneira deles de ver o futebol", disse o ponta holandês.

Em outro trecho, o lateral Rafinha, que vai reencontrar Torrent no Flamengo, fala sobre a final da Copa da Alemanha, vencida diante do Borussia Dortmund. "Antes do jogo, eu disse a Dome (Torrent) que íamos juntos até a morte. Estávamos com meio time quebrado e demos tudo no campo", disse ele.

Blog do Rodrigo Mattos