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Contas 2020: recuperação do Corinthians vai se arrastar, Galo gasta demais

Rodrigo Mattos

Nascido no Rio de Janeiro, em 1977, Rodrigo Mattos estudou jornalismo na UFRJ e Iniciou a carreira na sucursal carioca de ?O Estado de S. Paulo? em 1999, já como repórter de Esporte. De lá, foi em 2001 para o diário Lance!, onde atuou como repórter e editor da coluna De Prima. Mudou-se para São Paulo para trabalhar na Folha de S. Paulo, de 2005 a 2012, ano em que se transferiu para o UOL. Juntamente com equipe da Folha, ganhou o Grande Prêmio Esso de Jornalismo 2012 e o Prêmio Embratel de Reportagem Esportiva 2012. Cobriu quatro Copas do Mundo e duas Olimpíadas.

29/07/2020 04h00

Os clubes brasileiros terão uma perda de R$ 1,49 bilhão no ano de 2020 por conta da crise resultante da epidemia da coronavírus, segundo estudo do Itaú/BBA. A consultoria mostra, no entanto, que o impacto será diverso em cada clube. Neste post, são mostradas as análise para cinco clubes neste ano: Atlético-MG, Athletico-PR, Bahia, Botafogo e Corinthians. Na sequência, outros dois textos com mais cinco times cada.

Entre eles, o time paulista tem previsão de um ano financeiramente um pouco melhor do que em 2019 pela venda de Pedrinho. Mas o fato de gerar caixa não resolve a situação do clube pela dívida acumulada nos últimos anos: eram R$ 652 milhões de débitos efetivos, isto é, aqueles que vão pesar nas contas.

"O Corinthians vai para a terceira maior dívida, clube que já está no limite. Já dobrou receita de publicidade, a TV é a TV (não vai crescer muito)…. Exceto se vender jogador, ou ser campeão da Copa do Brasil, não tem como gerar receita nova", contou o economista César Grafietti, que elaborou o estudo em parceria com o Itaú/BBA.

Em relação aos outros clubes analisados, o Atlético-MG já tinha uma situação mais complicada do que a corintiana e decidiu acelerar investimentos com contratações na era Jorge Sampaoli. Tudo bancado pela família Menin, dona da MRV.

"Tinha R$ 700 milhões como lastro para pegar a dívida do shopping. Agora, que vendeu metade, tem R$ 350 milhões para pegar a dívida, garantia de participação no shopping. A medida que aumenta demais, perde o ativo porque a dívida cresce mais. Vai perder o lastro em algum momento. O caminho ideal era vender o shopping e pagar a dívida, e tocar o negócio. (Rubens) Menin botando dinheiro vai ter quantos anos de publicidade em troca?"

Veja a previsão do estudo do Itaú/BBA para os cinco clubes:

Atlético-MG

Pelo estudo do Itaú/BBA, o Atlético-MG acumula a maior dívida efetiva entre os grandes, isto é, a que pesa de fato no caixa do clube. Somava um total de R$ 746 milhões ao final de 2019, ou seja, antes de novos empréstimos feitos pelo empresário Rubens Menin. É nessa situação que o clube enfrenta a pandemia acelerando em gastos em contratações.

A avaliação é que a receita do Galo caia para R$ 191 milhões líquidos, com custos estimados de R$ 234 milhões, superiores aos do ano passado. Ou seja, haveria uma falta de R$ 43 milhões no caixa para quitar os compromissos. Por isso, é este o resumo da consultoria sobre as contas do time mineiro para 2020:

"No início de 2020 se viu envolvido no risco de perder pontos por atraso de pagamentos a outros clubes, mas optou por seguir uma prática antiquada e comum ao futebol associativo brasileiro, que é utilizar fundos de um empresário/associado para cobrir não apenas exigências urgentes, mas também para bancar contratações e remunerações que reforçam o elenco. O resultado dessas ações costuma ser ruim, porque há atletas que recebem e outros que não recebem." E completa: "Há caminhos mais seguros para o futuro. O Atlético Mineiro parece ter escolhido um cheio de riscos, guiando olhando o retrovisor."

Athletico-PR

Equilibrado em suas contas na maior parte dos anos, o Athletico teve um 2019 com sobra de caixa no ano passado por conta das vendas de atletas e da premiação do título da Copa da Copa Brasil. Aliado a isso, o clube ainda continuou a negociar atletas no início do ano, como Léo Pereira, o que deu alívio para enfrentar a crise da paralisação do futebol.

As receitas previstas para o clube paranaense nesta temporada pelo estudo do Itaú/BBA são de R$ 311 milhões, inferiores ao recorde obtido no ano passado de R$ 343 milhões. Mas houve redução de custos. Com isso, o clube deve gerar um caixa de R$ 128 milhões, isto é, sobra recursos para pagamento de dívidas e investimento. "Tendência ao equilíbrio em 2020: sem premiação pela Copa do Brasil o valor de TV cai, mas é compensando pelo aumento na receita com Venda de Atletas, já ocorridas", avaliou o estudo.

"De qualquer forma falamos de um clube que passa pelo ano de 2020 com baixo risco de problemas, seja porque entrou com boa posição de caixa, seja porque já realizou boas receitas com venda de atletas no 1o semestre. Certamente isso lhe dá capacidade de sair na frente da maioria dos clubes quando a situação retornar ao equilíbrio", concluiu o estudo.

Bahia

Maior receita do Nordeste, o clube tem uma gestão que gera aumento de receita depois de reduzir bastante a dívida em gestões anteriores. Nesta temporada, houve aumento do investimento no elenco justamente no período anterior à crise do coronavírus.

O estudo do Itaú/BBA estima uma receita de R$ 100 milhões para 2020, portanto com queda de R$ 60 milhões em relação ao ano passado. O custo projetado pela avaliação é de R$ 121 milhões. "Cenário final é de geração de caixa negativa de R$ 21 milhões, o que significa necessidade real de aumento de dívidas para fazer frente a este cenário", contou a análise. E aponta que o Bahia pode estar acelerando demais seu avanço:

"Alguns processos requerem paciência e tempo. Num clube de futebol este conceito contrasta com a necessidade - ou o desejo - de ser relevante. O Bahia faz a lição de casa, cria governança, desenvolve transparência, mas corre riscos que podem fazer o clube andar duas casas para trás. A pergunta que fica é se é necessário agir assim ou se é possível aguardar um pouco, consolidar as estruturas e depois iniciar um processo mais firme de crescimento e competitividade."

Botafogo

Clube com a pior situação financeira do futebol brasileiro, o Botafogo já tinha reduzido seus custos, mas isso foi insuficiente para fechar a conta. Com a epidemia, a situação se tornou mais grave.

Pelo estudo do Itaú/BBA, o clube tem uma receita estimada de R$ 103,9 milhões para 2020. Os gastos devem ficar em R$ 121 milhões, segundo a avaliação. A questão é que, com o caixa negativo, não dá para pagar os compromissos. "Há pouco a fazer num ambiente com restrições de patrocínios, sem bilheteria e com elenco fragilizado. Situação difícil a do Botafogo", analisa o estudo.

"Se a situação já era difícil em condições normais de temperatura e pressão, afetado pela pandemia o clube terá pouco mais que as receitas de TV para atravessar este ano. Considerando os adiantamentos e dívidas que consomem as receitas, dá para perceber que sobra pouco para realizar algo minimamente competitivo. Em seguida, o estudo critica as contratações feitas em meio à crise e conclui: "chegou a hora de esperar pelo milagre."

Corinthians

O Corinthians teve o maior aumento de dívida de 2019, acima até do Cruzeiro, por conta do excesso de gastos. Assim, o cenário será melhor na atual temporada mesmo com a epidemia de coronavírus - ainda assim houve atrasos de salários durante a paralisação. Explicação: a venda de Pedrinho para o Benfica. O clube já teve superávit no primeiro semestre de 2020, embora com aumento de dívida.

A receita estimada é de R$ 354 milhões, levemente superior ao ano passado. Como houve uma redução de custos, que devem cair para R$ 323 milhões, haverá uma geração de caixa positiva. "A expectativa é de que o cenário final seja levemente melhor que o observado em 2019, mesmo com a pandemia. O que causa isso é o aumento na venda de atletas, como o caso de Pedrinho", analisou a consultoria.

Mas, como o aumento da dívida considerável nos anos anteriores a elevando a R$ 652 milhões, não será suficiente para recuperar o clube e a situação segue complicada. "Por mais que reduza custos e consiga fazer venda de atletas, a situação ao final do ano será complicada, pois o ano iniciou com dívidas elevadas, e o esforço necessário para o reequilíbrio será brutal, e acabará se arrastando por alguns anos", conclui o estudo.

Blog do Rodrigo Mattos