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São Paulo volta futebol com epidemia pior do que Rio. É certo jogar?

Rodrigo Mattos

Nascido no Rio de Janeiro, em 1977, Rodrigo Mattos estudou jornalismo na UFRJ e Iniciou a carreira na sucursal carioca de ?O Estado de S. Paulo? em 1999, já como repórter de Esporte. De lá, foi em 2001 para o diário Lance!, onde atuou como repórter e editor da coluna De Prima. Mudou-se para São Paulo para trabalhar na Folha de S. Paulo, de 2005 a 2012, ano em que se transferiu para o UOL. Juntamente com equipe da Folha, ganhou o Grande Prêmio Esso de Jornalismo 2012 e o Prêmio Embratel de Reportagem Esportiva 2012. Cobriu quatro Copas do Mundo e duas Olimpíadas.

26/07/2020 04h00

O Campeonato Paulista reestreou em um momento em que a epidemia de coronavírus no Estado estava pior do que no Rio de Janeiro quando iniciou o Carioca. As capitais tinham já redução considerável da presença de infectados. Mas em nenhum dos dois casos o vírus estava sob controle.

Então, se impõem duas questões: 1) é possível formar uma bolha segura que impeça infecções em massa para voltar o futebol? 2) é correto jogar bola nestas condições?

Primeiro, vamos mostrar os dois cenários. No dia 18 de junho, reestreia do Carioca, o Estado do Rio tinha 150 mortes diárias em média naquela semana (melhor forma de calcular a evolução da epidemia). Era um número inferior a duas semanas antes quando havia 210 óbitos diários. Também se verificava uma tendência de queda nos novos casos de infectados, mas os números seguiam altos.

No dia 21 de junho, reestreia do Paulista, o Estado de São Paulo registrava 264 mortes em média naquela semana. Houve um crescimento em relação a duas semanas antes quando a média era de 244,6 óbitos no Estado. No quesito novos casos, havia queda naquele dia, mas não era uma tendência.

Em contrapartida, as duas capitais, Rio de Janeiro e São Paulo, já estavam de fato na descendentes da epidemia. Havia menor número de mortes em média em ambas e menor ocupação de leitos em relação a semanas anteriores. Explica-se: houve piora no interior dos dois Estados.

O Carioca foi disputado todo na capital, e o Paulista teve a maioria dos seus jogos também em São Paulo. Mas há times do interior que treinam em suas cidades, logo, a situação do Estado é mais relevante para entender o cenário.

Então, era seguro jogar? Para responder a isso, temos que olhar o que ocorreu no Carioca, único que já acabou. No total, houve 7.148 testes de Covid no Carioca, incluindo jogadores, árbitros, policiais, staff, etc. Desses, 4,2% deram positivo. Não estão incluídos números de Botafogo e Fluminense que não os forneceram à Ferj.

Esses números indicariam um índice de infecção alto. Mas, na realidade, houve muitos casos no início e depois eles foram rareando ou sumindo. Ao blog o médico do Vasco, Marcos Teixeira, contou que o último teste do elenco do clube deu zero infectados. Lembremos, a primeira bateria de exames do Vasco deu 16 jogadores com positivo para o vírus, sendo outros três com anticorpos.

Na conversa, Teixeira lembrou que o futebol é um dos poucos negócios que consegue pagar por testes constantes dos empregados, atletas, e monitora-los por médicos constantemente. De fato, como já publicado por aqui, jogadores farão mais de 60 testes durante a temporada porque todos os jogos terão exames.

Neste cenário, atletas se tornam exceções a pouco testada população e formam, de fato, uma bolha. Só assim para jogarem porque o futebol é, sim, uma atividade de alto risco de contaminação, como exposto em lista feita por médicos norte-americanos.

Fora do campo, estive em quatro jogos do Carioca a trabalho. Para entrar, era preciso teste de Covid negativo ou demonstrar ter anticorpo, havia espaço de dois a três metros entre quem trabalhava, era em um estádio aberto e todos de máscara. É portanto mais seguro do que quase todos os ambientes de trabalho que já voltaram à atividade como shoppings.

Não houve surtos no Carioca onde o controle de testes foi feito com vários exames - o caso mais grave foi de três jogadores do Volta Redonda infectados. O Paulista tem protocolo similares com testes para todos, algumas mudanças, concentrações impostas aos elencos e proibição de imprensa nos jogos a não ser a Globo. O risco não é zero, mas até agora se mostrou administrável.

Então, há uma outra questão: é moral jogar futebol quando o Brasil vive uma tragédia em que mais de 80 mil pessoas morreram? A bola na TV não vai incentivar mais as pessoas a achar que a vida está normal? Essa é uma discussão pertinente posta por vários colegas. Não há dúvidas que o clima para futebol é mais triste, melancólico, em um país sob uma tragédia, ainda mais sem torcedores. Foi assim no Carioca, e assim será no Paulista, e no Brasileiro.

Mas o futebol é, além de um lazer para torcedores, uma atividade econômica. Os clubes já quebrados estão se esfacelando. A outra questão que fica: devemos correr o risco de inviabilizar uma indústria que representa 0,7% do PIB Nacional se há um protocolo seguro para que ela esteja em funcionamento em parte? Não se trata de reabrir a economia a qualquer custo como foi pregado pelo governo federal desde o início, mas de tocar uma atividade com risco administrável e menor.

Essa resposta não é fácil e não por acaso ficou para o final do texto. Cada um terá uma posição diferente, todas válidas. O ideal é que só se pudesse jogar quando o país não tivesse mais tantas mortes diárias. Mas não entendo ser justo negar a sobrevivência ao futebol se ele conseguiu um meio seguro de ser jogado sem piorar a epidemia. Ainda mais em um contexto de um país que reabriu a economia em outras áreas com risco bem maior.

Blog do Rodrigo Mattos