PUBLICIDADE
Topo

Com coronavírus, futebol perderá R$ 1,3 bi e aumentará abismo entre clubes

Rodrigo Mattos

Nascido no Rio de Janeiro, em 1977, Rodrigo Mattos estudou jornalismo na UFRJ e Iniciou a carreira na sucursal carioca de ?O Estado de S. Paulo? em 1999, já como repórter de Esporte. De lá, foi em 2001 para o diário Lance!, onde atuou como repórter e editor da coluna De Prima. Mudou-se para São Paulo para trabalhar na Folha de S. Paulo, de 2005 a 2012, ano em que se transferiu para o UOL. Juntamente com equipe da Folha, ganhou o Grande Prêmio Esso de Jornalismo 2012 e o Prêmio Embratel de Reportagem Esportiva 2012. Cobriu quatro Copas do Mundo e duas Olimpíadas.

14/06/2020 04h00

Os grandes clubes brasileiros devem perder pelo menos R$ 1,3 bilhão por conta da crise do coronavírus. É o que aponta um estudo da EY sobre os impactos da epidemia do futebol. E essa crise deve acentuar o abismo entre clubes organizados como Flamengo e Palmeiras e outros com as finanças problemáticas, segundo aponta a consultoria.

O estudo da EY de impactos do coronavírus do futebol faz parte do trabalho sobre os balanços dos 20 principais clubes em 2019. O estudo aponta que a paralisação do futebol e a falta de público devem gerar uma queda de receita entre R$ 1,34 bilhão e R$ 1,92 bilhão. Isso representaria uma redução entre 22% e 32% em relação à renda do ano passado.

O consultor da EY Alexandre Rangel, que participou da elaboração do estudo, entende que o resultado deve ficar mais próximo da estimativa mais otimista, isto é, em torno de um quarto de perda de receita. Entende que o cenário se mostrou um pouco mais positivo do que se esperava inicialmente. Mas ressalta que essa projeção vale desde que o futebol volte em julho como tem sido planejado em alguns Estados.

"Parece que não vai ser o pior cenário", analisou Alexandre Rangel. "Em receitas de transferências, tínhamos estimado uma perda entre 25% a 40%. O Marcos Motta, que é um advogado por dentro do mercado, estimou que ficará em 28%. Então, é mais perto do melhor cenário."

A transferência de jogadores é uma fonte que responde por cerca de um quarto do total arrecadado pelos clubes brasileiros. É a salvação para clubes com o caixa empobrecido. Ora, o estudo da EY projetou que a receita com vendas de atletas de R$ 1,6 bilhão obtida pelos clubes brasileiros em 2019 cairá para um valor entre R$ 973 milhões e R$ 1,216 bilhão.

Outra receita fortemente afetada foi a de match day, ou seja, renda com jogos. Incluindo bilheteria e sócio-torcedor, essa fonte de renda gerou R$ 952 milhões para os clubes brasileiros em 2019. Sem público na maior parte dos jogos no ano, cairia para R$ 415 milhões no cenário mais otimista e R$ 347 milhões na pior estimativa. Ou seja, uma redução de mais de 50%.

Há previsão também de quedas em receitas comerciais (patrocínios e licenciamento). A salvação é a televisão que tem queda apenas no pay-per-view. Isso, obviamente, se os campeonatos de fato forem realizados. Em caso de cancelamentos ou redução, aí as perdas financeiras seriam muito maiores.

A questão é que o impacto não será igual. Alexandre Rangel aponta que clubes como Flamengo, Palmeiras e Grêmio, mais organizados financeiramente, vão suportar a crise melhor. De outro lado, clubes com receita em patamar médio, como Inter, Vasco, Botafogo, Fluminense, Santos são apontados como candidatos a cenários desastrosos.

"Quem não se preparou quebrou", resumiu Rangel. "A crise vai acelerar o que ocorreria em três anos. Não é uma queda igual. É desigual. A diferença entre quem se organizou e quem não se organizou antes vai só aumentar."

Para Rangel, o maior problema é que esses clubes citados têm dívidas de curto prazo altas e dependem de o futebol estar ativo para sobreviverem. Ele entende que times como São Paulo, Corinthians e Bahia, embora com uma situação complicada, têm mais chance de sobreviverem seja pelo tamanho da torcida seja por já estarem organizados, caso do Bahia. O cenário do Atlético-MG é visto como uma incógnita porque está em situação ruim, mas tem injeção de dinheiro externo.

"A gente acha que diversos não vão resistir. Os clubes vão entrar em falência desportiva. Primeiro vem a penhora, depois o desmanche do elenco, depois o rebaixamento", disse ele, lembrando a trajetória do Cruzeiro no ano de 2019. Já há seguidas notícias de atrasos salariais entre os grandes clubes. "A faixa média (de receita) será dizimada."

Na visão de Rangel, clubes com dívidas menores como Fortaleza e Ceará têm mais capacidade de enfrentar a turbulência mesmo com receita mais baixa. Isso porque seus custos são reduzidos. Exceção entre os clubes do Nordeste na Série A é o Sport, com dívida alta para seu patamar de receita e portanto em situação complicada.

No geral, a epidemia do coronavírus deve fazer o futebol regredir à receita da época de 2016. Só vai atingir o patamar de renda do ano passado a partir de 2022 ou 2023, na visão de Alexandre Rangel. De novo, ele entende que clubes organizados como Flamengo, Palmeiras, Grêmio e Athletico-PR podem conseguir se recuperar mais rápido.

Assim, além da regressão financeira, a epidemia também deve traçar um novo cenário do futebol brasileiro com um abismo ainda maior entre clubes bem geridos e aqueles que não se organizaram.

Blog do Rodrigo Mattos