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Conta do Galo para contratar Sampaoli não fecha e ameaça futuro

Sampaoli durante jogo entre Santos e Flamengo no Maracanã - Sergio Moraes/Reuters
Sampaoli durante jogo entre Santos e Flamengo no Maracanã Imagem: Sergio Moraes/Reuters
Rodrigo Mattos

Nascido no Rio de Janeiro, em 1977, Rodrigo Mattos estudou jornalismo na UFRJ e Iniciou a carreira na sucursal carioca de ?O Estado de S. Paulo? em 1999, já como repórter de Esporte. De lá, foi em 2001 para o diário Lance!, onde atuou como repórter e editor da coluna De Prima. Mudou-se para São Paulo para trabalhar na Folha de S. Paulo, de 2005 a 2012, ano em que se transferiu para o UOL. Juntamente com equipe da Folha, ganhou o Grande Prêmio Esso de Jornalismo 2012 e o Prêmio Embratel de Reportagem Esportiva 2012. Cobriu quatro Copas do Mundo e duas Olimpíadas.

03/03/2020 12h00

Com Thiago Fernandes

Após demitir um técnico em dois meses, a diretoria do Atlético-MG voltou a procurar o argentino Jorge Sampaoli e fechou sua contratação por dois anos. O salário de sua comissão técnica acertado foi de R$ 1,2 milhão, segundo reporta o colega Thiago Fernandes, um valor que o coloca só abaixo de Jorge Jesus e nível similar ao de Renato Gaúcho, no Grêmio. Isso em um clube que tem uma das maiores dívidas entre times do país, uma receita comprometida por eliminações, e gastos acumulados com contratações. A conta fecha?

É preciso descrever os números financeiros do Galo. Primeiro, a situação prévia: a dívida líquida (passivo, menos os ativos a receber) do Atlético-MG ao final de 2018 era R$ 595 milhões. O clube pagou algumas dívidas na Fifa por compras de jogadores em torno de R$ 30 milhões, e diz seu presidente Sergio Sette Câmara que quitou R$ 100 milhões em toda gestão. Mas a situação não evoluiu muito como o próprio dirigente constatava em outubro de 2019: "É segredo para alguém que o Atlético-MG é um dos clubes que mais devem no Brasil? Acho que não, né? A dívida do Atlético-MG gira em torno de R$ 700 milhões, R$ 280 milhões tributários", contou ele. Com esse número, se referia a dívida bruta.

Não por acaso o Galo evitava prever investimentos vultosos em seu orçamento de 2020. Afinal, eram R$ 309 milhões de receita para o ano, um valor que já não será fácil de atingir. Primeiro, o clube estima vender R$ 100 milhões em jogadores. Segundo, projetava R$ 39,5 milhões em premiações, e já foi eliminado da Copa Sul-Americana e da Copa do Brasil, restando só prêmio pelo Brasileirão - detalhe, o campeão deve ganhar R$ 31 milhões.

Pois bem, as despesas do Galo previstas com o time eram contidas: ficavam R$ 120 milhões em folha salarial, incluídos direito de imagem e comissões nas operações. Seus jogadores mais caros têm salários em carteiras na casa de R$ 300 mil, aí tendo que se somar direitos de imagem. Era o que ganhava Dudamel também e o Galo já pode acrescentar aos seus gastos a multa que terá de pagar a ele. Os salários da comissão técnica de Sampaoli, com o 13o, representam R$ 15,6 milhões. Isso seria 13% de todo o gasto do Galo com futebol em folhas e pagamentos a agentes.

Em termos de contratações, o Galo já extrapolou os R$ 20 milhões que tinha previsto inicialmente ao levar Borrero e Allan. Ainda assim, chegou a negociar a pagar quantia alta por Soteldo. Mais, Sampaoli aceitou o novo contrato com a promessa de cinco reforços, exigência que já tinha feito no Santos e o no Palmeiras. Então, o limite orçamentário não vale mais mesmo?

Nada parece fazer muito sentido e, quanto isto acontece, o torcedor já tem na ponta da língua a resposta: "São os investidores", como se invocasse uma palavra mágica, o supertrunfo que explica e libera tudo.

Os dois empresários ligados ao Atlético-MG que supostamente estão ajudando o clube são RubensMenin, da MRV, e talvez Ricardo Guimarães, do BMG. Não há nenhuma informação do Galo sobre qual o modelo de negócios. Como são remuneradores? Qual a compensação? É uma doação, um empréstimo, um patrocínio? Há algum envolvimento do estádio nessas operações financeiras? O único ativo em que o clube poderia ganhar dinheiro extra agora seria venda de jogadores e a regra da Fifa impede vincular dinheiro cedido a futuras vendas. Perguntado, o clube não explicou até a publicação deste post, nem a parceria, nem como bancará Sampaoli.

Guimarães é um exemplo de onde o mecenato costuma levar. Quando presidente do Galo, emprestou dinheiro por meio de suas empresas ao clube e hoje a dívida é de mais de R$ 100 milhões com seus grupos.

Não é a única dívida privada do Atlético-MG. Ao final de 2018, eram R$ 86 milhões em dívidas com clubes. Desse valor, deve-se descontar R$ 13 milhões pagos em ação na Fifa por contratação de Tardelli. Mas há débitos em aberto na Fifa tanto que o próprio orçamento previa a quitação de outros R$ 13 milhões por ações da entidade neste ano de 2020.

Em resumo, nada no quadro de finanças do Atlético-MG indica que ele possa pagar por um técnico de R$ 1,2 milhão, o que só é feito por times com rendas maiores e dívidas equacionadas, casos de Flamengo e Grêmio. E repetir seguidamente a palavra "investidores" não vai mudar essa realidade.

Blog do Rodrigo Mattos