PUBLICIDADE
Topo

Blog do Rodrigo Mattos


De olho em Yaya Touré, Botafogo prevê receitas improváveis e folha baixa

Rodrigo Mattos

Nascido no Rio de Janeiro, em 1977, Rodrigo Mattos estudou jornalismo na UFRJ e Iniciou a carreira na sucursal carioca de ?O Estado de S. Paulo? em 1999, já como repórter de Esporte. De lá, foi em 2001 para o diário Lance!, onde atuou como repórter e editor da coluna De Prima. Mudou-se para São Paulo para trabalhar na Folha de S. Paulo, de 2005 a 2012, ano em que se transferiu para o UOL. Juntamente com equipe da Folha, ganhou o Grande Prêmio Esso de Jornalismo 2012 e o Prêmio Embratel de Reportagem Esportiva 2012. Cobriu quatro Copas do Mundo e duas Olimpíadas.

21/02/2020 12h00

Com Bernardo Gentile

O início de ano do Botafogo foi agitado em termos de movimentações para contratações: acertou com o japonês Honda e agora negocia com Yaya Touré. O orçamento alvinegro, no entanto, mostra um cenário bem diferente: faz previsões de receitas bem difíceis de atingir pelo histórico do clube e estabelece uma folha salarial baixa de R$ 3,3 milhões. Isso tudo em um cenário de um clube que calculou ter R$ 1 bilhão de dívida em reunião do Conselho Deliberativo do ano passado para aprovar o clube-empresa.

Aprovado pelo Conselho Deliberativo, o orçamento do Botafogo tem como principal meta estabelecer uma sobra de caixa para pagamento de dívidas. Por isso, há uma previsão de receita de R$ 229 milhões, com despesas de R$ 126 milhões. Se confirmado, esse cenário seria suficiente para uma sobra de R$ 103 milhões que seriam usados para amortizar a dívida. Lembremos que há em andamento o projeto em andamento do clube-empresa que pretende sanar pelo menos em parte esses débitos.

A questão é o caminho difícil que o Botafogo tem para chegar a esses números. No campo das receitas, o clube estabelece como meta esportiva ficar em 6o no Brasileiro para atingir a cota de TV prevista, além das oitavas de final da Copa do Brasil. Nesta década, em nove campeonatos, o time só ficou de sexto para frente em dois anos, em 2013 (4o) e em 2016 (5o).

No texto do orçamento, está escrito: "As metas de receitas do Futebol Profissional supõem um melhor desempenho esportivo em relação a 2019, na expectativa de um novo perfil do elenco, com jogadores mais jovens de maior potencial e menor custo. Apesar de problemas estruturais ainda persistirem, tais metas são totalmente factíveis dentro da realidade do futebol brasileiro, conforme observa-se nos resultados alcançados por outros clubes da mesma grandeza do Botafogo."

Apesar de falar em perfil de jovens com potencial, o clube teve como principais focos na temporada veteranos internacionais sem nenhum potencial de venda. E a negociação de jogadores é outra questão: o Botafogo prevê obter R$ 62 milhões com transações. Pois bem, nos últimos dez anos, a agremiação alvinegra não conseguiu esse valor em nenhum ano. O montante mais alto obtido foi em 2013, com R$ 51,3 milhões. Ou seja, nas duas principais receitas, TV e transferências, há previsões de resultados que não condizem com o histórico do clube.

Há outra questão com a receita de televisão do Botafogo. Segundo o orçamento, serão descontados R$ 11 milhões da cota de tv por conta de uma antecipação feita pela Globo em 2015. Nesta ocasião, a emissora negociava a renovação do contrato do Brasileiro. Alguns clubes conseguiram luvas sem descontos, e outros, antecipações, como foi o caso do Botafogo e o Vasco. Esse valor representa metade da cota fixa do clube pelo Brasileiro. Ainda foram previstos R$ 18 milhões em receita de patrocínio, R$ 2 milhões acima do ano passado, quando não foi atingida a meta

Em termos de despesas, o Botafogo, embora esteja atrás de estrelas internacionais, prevê uma redução no gasto com a folha salarial em jogadores. Diz o texto do orçamento: "Ao se analisar as despesas no comparativo entre o realizado 2019 e o orçado 2020, a redução de 16% (18,6 MM), ocorre como resultado de cortes nas duas rubricas principais: despesas com pessoal e despesas gerais. Em 2020, com o intuito de reestruturar o futebol, o planejamento estabeleceu trabalhar com um plantel menor, objetivando reduzir-se as despesas com atletas profissionais de uma média mensal de 4,5 MM em 2019 para 2,8 MM em 2020."

Pelos números do orçamento, a folha salarial ficará em R$ 3,3 milhões, incluídos aí todos os encargos e direitos de imagem. Segundo apurou o blog, é esse o valor atual. Então, para entrarem jogadores como Yaya Touré, outros atletas têm que sair.

Questionado pelo blog no início da semana, o presidente do Botafogo, Nelseon Mufarrej, afirmou que seria feita uma "engenharia financeira": "Não gastamos, é tudo empréstimo. Não é compra. Salário nós temos condições de pagar. Não tem nada de grande salário. Tem uma parte que é o que ele pode trazer de patrocínio. Salário pequeno e vemos o que pode ajudar com patrocínio". O youtuber Felipe Neto e o comediante Marcelo Adnet vão ajudar com o pagamento de despesas da operação, como comissões e intermediação, que não estão incluídos na folha salarial.

Pelos números do ano passado, o Botafogo tinha a 14a folha salarial da Série A, considerados só folha salarial e encargos. Reduziu esse montante em R$ 200 mil e, mesmo assim, pretende ter jogadores de renome internacional.

O blog procurou o vice-presidente de Finanças do Botafogo, Luiz Felipe Novis, para falar sobre o orçamento, mas não obteve retorno.

Blog do Rodrigo Mattos