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Blog do Rodrigo Mattos


Ódio ao Bahia na eliminação vem da rejeição à defesa dos direitos humanos

Rodrigo Mattos

Nascido no Rio de Janeiro, em 1977, Rodrigo Mattos estudou jornalismo na UFRJ e Iniciou a carreira na sucursal carioca de ?O Estado de S. Paulo? em 1999, já como repórter de Esporte. De lá, foi em 2001 para o diário Lance!, onde atuou como repórter e editor da coluna De Prima. Mudou-se para São Paulo para trabalhar na Folha de S. Paulo, de 2005 a 2012, ano em que se transferiu para o UOL. Juntamente com equipe da Folha, ganhou o Grande Prêmio Esso de Jornalismo 2012 e o Prêmio Embratel de Reportagem Esportiva 2012. Cobriu quatro Copas do Mundo e duas Olimpíadas.

06/02/2020 17h12

"Faltou usar a camisa 24", "Bem-feito, time da lacração e do treinador que posa de vítima da sociedade se f...", "Muita lacração pouco futebol" Essas foram algumas das reações de torcedores de outros times e até do próprio Bahia no twitter à queda do time na primeira fase da Copa do Brasil, diante do River, do Piauí. Todas referências ao engajamento recente do clube em políticas afirmativas.

É absolutamente natural a zoação de torcedores a um time grande que cai precocemente em uma competição relevante contra um rival de menor expressão. Os memes, as piadas e as ironias dominam a internet nas horas e dias seguintes ao fiasco. E havia várias brincadeiras relacionadas ao time baiano que tinham o teor de sempre ligado ao campo.

Mas a reação de boa parte dos torcedores à queda do Bahia não tem nada a ver com isso: são pessoas que odeiam as pautas defendidas pelo clube e transferem isso para a agremiação. E quais são as ideias defendidas pelo Bahia?

O Bahia posicionou-se na luta contra o racismo em campanha que punha os nomes de homens e mulheres negros nos uniformes durante o mês da consciência negra. Manifestou-se contra o assédio a mulheres inclusive para facilitar o acesso de torcedoras ao estádio. Fez ações contra a homofobia, sendo a última delas instituindo o uso da camisa 24, número ligado do veado no jogo do bicho e por isso atribuído pejorativamente a homossexuais. E também se disse a favor da democracia no aniversário do golpe militar de 1964.

O treinador do time, Roger, que é negro, deu entrevistas falando sobre o racismo no futebol e na sociedade, revelando uma consciência rara no meio.

Ora, essas pautas são todas ligadas à defesa dos direitos humanos. É certo que, no Brasil, identifica-se mais essas bandeiras com correntes à esquerda. Mas, na realidade, nenhuma dessas manifestações têm ideologia: são defesas do ser-humano, de que todos sejam tratados iguais, de que tenham liberdade.

Será que pedir que um homossexual seja respeitado como qualquer um deveria ser visto como ideológico? Ou a luta contra o racismo deveria ser chamada de vitimização? E qual o problema com a defesa da democracia?

A conclusão óbvia é de que quem se incomoda com esse tipo de pauta quer o oposto: pancada em homossexuais, que o negro aceite um lugar inferior na sociedade sem se manifestar, que seja instalada uma ditadura, que mulheres possam ser assediadas sem punições. Ou então não teriam motivos para ironizar as campanhas do Bahia.

O ataque ao Bahia em seu momento ruim é uma forma de alvejar a luta por direitos humanos sem assumir essa posição em público porque pega mal dizer que "tem que bater em gay mesmo". Pega mal não, é crime. Não deixa de ser notável que seja necessário esse tipo de covardia para atingir um clube que se mostrou tão corajoso nos últimos tempos. E isso não tem nada a ver com seu mau início de temporada.

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