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Renato Maurício Prado

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Ao menos na rodada, time de Renato Gaúcho jogou o melhor futebol do Brasil

Renato Gaúcho, técnico do Flamengo, durante duelo com o Bahia, pelo Brasileiro - Alexandre Vidal / Flamengo
Renato Gaúcho, técnico do Flamengo, durante duelo com o Bahia, pelo Brasileiro Imagem: Alexandre Vidal / Flamengo
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Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

19/07/2021 09h22

Houve um tempo em que Renato Gaúcho se gabava, dizendo que o Grêmio jogava o melhor futebol do Brasil. Essa época, que culminou com os títulos da Copa do Brasil, em 2016, da Libertadores, em 2017, e da Recopa Sul-Americana, em 2018, foi sepultada pela avalanche provocada pelo Flamengo de Jorge Jesus, na magnífica temporada de 2019.

Na noite desse último domingo, entretanto, com a exibição de gala do rubro-negro carioca, sob seu comando, goleando impiedosamente o Bahia, por 5 a 0, em Pituaçu, o técnico pode se orgulhar de que nenhuma outra equipe, na 12ª rodada do Brasileiro, jogou futebol tão vistoso e eficiente. Um desempenho à altura dos melhores momentos de Jorge Jesus.

É óbvio que apenas uma atuação espetacular é pouco para garantir que o Flamengo de Renato Gaúcho praticará o melhor futebol do Brasil daqui pra frente. Mas algumas de suas decisões - e a resposta dos jogadores a elas - dão direito à maior torcida do país sonhar com os títulos das competições que ainda disputa: Libertadores, Copa do Brasil e Brasileiro.

Para operar a metamorfose de lagarta (dos tempos sombrios de Rogério Ceni) para borboleta (em Pituaçu), nem foi preciso grandes mudanças. Bastou devolver Arão à posição na qual Jesus o consagrou, primeiro volante, escalando uma dupla de zagueiros de origem, que passou a atuar bem protegida. A volta de Diego, assumindo o lugar e a função que eram de Gerson, também contribuiu para a significativa mudança para melhor.

Some-se a isso a estreia extremamente tardia, mas avassaladora de Gabigol no Brasileirão e ótimas atuações de Isla, Arrascaeta e Éverton Ribeiro e o futebol rubro-negro floresceu naturalmente.

Esse time sabe jogar por música, desde que foi treinado pelo português. Basta não atrapalhar, como fizeram Domènec Torrent e Rogério Ceni. E Renato Gaúcho, que foi surrado impiedosamente por esses mesmos jogadores, tem plena consciência disso, pois sentiu na pele do que eles são capazes.

Na volta do primeiro para o segundo tempo, Renato e Filipe Luís conversavam com os semblantes concentrados, como devem ter conversado longamente durante os últimos dias. O lateral-esquerdo é o jogador com maior consciência tática do elenco e muito possivelmente um futuro técnico de sucesso - tem, como já disse, "todos os treinamentos de Jorge Jesus anotados" (bem como os de Simeone, com quem trabalhou anos a fio, no Atlético de Madri.

Essa capacidade de conversar e saber ouvir os jogadores que comanda é um dos maiores méritos de Renato. "Pra que complicar?", costuma dizer. E é exatamente disso que o Flamengo precisa agora. Um treinador capaz de unir o grupo, desanuviar o ambiente (extremamente pesado, com Ceni) e devolver a confiança a jogadores como Gustavo Henrique, Léo Pereira, Vitinho, Michael e até Bruno Henrique.

O Gaúcho é bom nisso. Que o digam, Jael, Cortez, Maicon, Diego Souza, Leonardo Moura e tantos outros, recuperados por ele, no Grêmio.

Havia, antes da partida contra o Bahia, o temor de que Renato, como costumava fazer em seus tempos de Grêmio, poupasse vários titulares, pensando no jogo da próxima quarta-feira, contra o Defensa y Justicia, pela Libertadores. Pois ele não poupou ninguém até o Flamengo fazer 3 a 0 e liquidar a fatura. Aí, sim, foram substituídos Filipe Luís, Diego, Gabigol, Isla e Michael. Perfeita decisão. Coroada com as ótimas entradas de Pedro e Vitinho, autores dos dois gols que fecharam o placar.

A recuperação rubro-negra será posta à prova nos dois próximos confrontos, contra o Defensa, na quarta, e o São Paulo (autêntica caveira de burro do Fla nos últimos anos). Se vencer estes dois adversários, até mesmo os mais críticos à contratação de Portaluppi serão obrigados a bater palmas pra ele.

Em tempo: após a vitória do Palmeiras sobre o Atlético Goianiense, muitos açodados chegaram a prenunciar, nas redes sociais, que a disputa pelo título brasileiro acabaria polarizada entre o time de Abel Ferreira e o Atlético Mineiro. Não me parece de bom tom descartar tão cedo o atual bicampeão brasileiro...

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Renato Maurício Prado