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Renato Maurício Prado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A volta dos que não foram ou o desejo coletivo por algo que nunca existiu

Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

07/06/2021 21h06Atualizada em 07/06/2021 21h06

Toca o celular e, do outro lado, reconheço a voz de uma das minhas mais bem-informadas raposas felpudas. Bem-humorado, ele já começa disparando a ironia certeira:

- Vocês acharam mesmo que o Neymar, que promoveu uma festa de réveillon para 500 pessoas, que sempre se mostrou alinhadíssimo com o presidente Jair Bolsonaro e nunca deu a menor bola pra a pandemia, aqui ou lá fora, iria liderar um movimento de boicote à Copa América, por preocupação com a saúde dos brasileiros? O "menino" Ney? (gargalha) Quem acreditou nisso é de uma ingenuidade comovente.

Difícil discordar de sua lógica. E pergunto:

- O movimento era somente contra o Caboclo?

E os risos voltam a ecoar no meu ouvido.

- O Caboclo era só a desculpa. Todos ficaram "p..." porque não foram avisados e consultados. Queriam barganhar férias, prêmios etc. Sempre foi isso. Zero preocupação com a saúde do país ou a política. Na Copa América de 2004, no Peru, discretamente Parreira abriu mão de Ronaldo, Roberto Carlos e Cafu que queriam férias. A desculpa foi, então, testar novos valores. Na de 2007, na Venezuela, os "dispensados" foram Ronaldinho Gaúcho e Kaká. Com o Dunga de técnico, hein? Até ele teve jogo de cintura. Era isso que eles queriam. Nada a ver com pandemia ou solidariedade à pobre moça assediada pelo presidente da CBF.

Tal argumentação ganha força quando Tite, na patética entrevista dada na véspera do jogo contra o Paraguai, alegou não ser de sua alçada discutir o afastamento do presidente. Ora bolas, no início do suposto movimento era e agora, que ele foi afastado, deixou de ser? Com seu linguajar naturalmente empolado e sua típica característica de fugir sempre aos assuntos mais polêmicos, o treinador repetiu que sua única função é dentro de campo e fazer o melhor possível nele, sua única preocupação.

O que o levou, então, a fazer todo aquele suspense, na entrevista anterior, quando, com ares de canastrão de novela mexicana, disse que a comissão técnica e os jogadores já tinham uma decisão tomada e estavam todos juntos e irredutíveis com ela? Baita patacoada. Como deverá ser também o tal "manifesto" que o grupo promete divulgar após o jogo contra o Paraguai. Alguém ainda o levará à sério?

Em tempo: achar que o Coronel Nunes será mesmo quem tomará as decisões na CBF nos próximo dias é também de uma ingenuidade ímpar...

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Renato Maurício Prado