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Renato Mauricio Prado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Fla trata orçamento como cassino e tem que vender Natan por bagatela

Natan, zagueiro do Flamengo - Jorge Rodrigues/AGIF
Natan, zagueiro do Flamengo Imagem: Jorge Rodrigues/AGIF
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Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

13/03/2021 04h00

A negociação do jovem e promissor zagueiro Natan, com o Red Bull Bragantino, pode se justificar pela necessidade de o Flamengo cumprir uma meta extremamente ousada do seu orçamento: faturar R$ 168 milhões no ano, com venda de jogadores. Aposta altíssima, típica do cassino que parece orientar a feitura dos orçamentos na gestão de Rodolfo Landim.

Em janeiro, Lincoln foi para o Vissel Kobe, do Japão, por 3 milhões de euros, cerca de R$ 15,6 milhões e Yuri César se transferiu para o Shabab Al Ahli, dos Emirados Árabes, por 6 milhões de dólares, cerca de R$ 32 milhões. Ainda falta, portanto, a bagatela de R$ 120,4 milhões para chegar à meta! Por isso, se fala tanto na venda de um titular importante, na janela do meio do ano (Éverton Ribeiro, Gérson?).

Fato é que, independentemente das pules altíssimas do orçamento, os valores envolvidos agora, na transação de Natan soam incompatíveis com o potencial do jogador e as próprias transações feitas pelo rubro-negro de outros atletas das divisões de base.

O zagueiro Léo Duarte, por exemplo, foi negociado com o Milan por 10 milhões de euros (em um par ou ímpar de pelada, você escolheria Léo ou Natan? Eu fico com o mais jovem, sem hesitar). Já o lateral-esquerdo Jorge saiu para o Mônaco, por 8,5 milhões de euros e o volante Jean Lucas rendeu 8 milhões de euros, ao se transferir para o Lyon.

Diante desses números, como não achar que Natan está subavaliado na atual negociação, pela qual o Flamengo deverá receber, ao todo, 4 milhões de euros: 700 mil pelo empréstimo até o final do ano e 3,3 milhões, pela contratação definitiva (ficará ainda com um percentual entre 10 e 15% de uma futura venda)? Não faz sentido, a não ser por uma necessidade desesperada de fazer caixa.

Algo que, no entanto, o vice-presidente de finanças rubro-negro, Rodrigo Tostes, nega, ao garantir, em longa entrevista ao repórter Fred Huber, do ge.com, que o clube começou 2021 com R$ 70 milhões na conta e um Ebitida (geração de caixa) positivo, apesar do prejuízo operacional de R$ 100 milhões, em 2020.

Defensores da negociação (que ainda não está sacramentada, mas caminha para ser) alegam que o Flamengo acaba de renovar com muitos de seus jogadores da base (Matheusinho, Ramon, João Gomes, Hugo, Daniel Cabral, Noga, Lázaro e o próprio Natan) e não tem condições de ficar com todos. Quando as renovações foram feitas, já se sabia que alguns sairiam.

A filosofia reinante nas administrações da turma que compunha a chapa azul original (Bandeira de Mello e Landim) é bem clara: vender as melhores crias da casa e contratar jogadores veteranos, como Diego, Paolo Guerrero, Éverton Ribeiro, Diego Alves, Filipe Luís e Rafinha.

A administração Landim/Marcos Braz até deu um passo adiante, ao buscar atletas mais jovens que estavam sem espaço na Europa: Gerson, Gabigol, Pedro e Thiago Maia. Mas a prata da casa seguiu sendo apenas fornecedora de dinheiro para a formação do supertime campeão da Libertadores e do Brasileiro, sem um titular sequer das divisões de base: Diego Alves, Rafinha, Rodrigo Caio, Pablo Mari e Filipe Luís; William Arão, Gerson e Arrascaeta; Éverton Ribeiro, Gabigol e Bruno Henrique.

Justiça seja feita, as muitas conquistas comprovam que a estratégia é vitoriosa. Mas o preocupante é que os orçamentos do Fla a cada ano mais se parecem apostas de um cassino: no ano passado, orçou que a equipe ficaria, pelo menos, em segundo lugar no Brasileiro (bateu a meta, ao ser bicampeão), chegaria à final da Copa do Brasil (quebrou a cara) e à semifinal da Libertadores (idem, idem).

Este ano, volta a orçar semifinal da Libertadores, fases finais da Copa do Brasil e, no mínimo, vice-campeonato brasileiro. Apostas altas. Como a de ter público nos estádios a partir de abril (mês que vem!), para gerar R$ 100 milhões de bilheteria. Nessa, já deu com os burros n'água.

O orçamento rubro-negro aprovado para 2021 prevê um faturamento de quase R$ 1 bilhão! Haja, garotos como Natan para vender. Ainda mais cobrando tão barato...

Fila na Fla-TV

Que as tevês dos clubes e seus streamings devem ser, no futuro, grandes fontes de receitas, não me parece haver dúvida. Mas, apostando nisso, o Flamengo comprou com a TV Globo uma briga para a qual não estava preparado e, desde o ano passado, só faz jogar dinheiro fora.

A experiência com o MyCujoo foi um fracasso retumbante. E a Fla TV+ segue o caminho. Assinantes caem em exasperantes listas de espera (alguns só conseguiram acessar os jogos no segundo tempo e outros, nem isso), a imagem trava, não pode ser exibida nas Smart TVs e por aí vai.

Não fossem Landim, Bap e seus pares tão arrogantes, teriam mantido o contrato com a Globo, ao menos até o final dessa pandemia, enquanto preparavam decentemente a Fla-TV para oferecer um serviço aceitável aos seus assinantes. Não fosse também tão insensíveis, teriam dado descontos aos sócios torcedores que se mantiveram fiéis ao clube, mesmo não obtendo vantagem alguma desde que as arquibancadas foram fechadas.

Sensibilidade, porém, passa longe dessa turma. Como já se sabe desde a tragédia dos meninos do Ninho, passando pelo corte nas gratificações dos funcionários mais humildes, luta pela volta dos torcedores aos estádios, em meio a milhares de mortos por dia e por aí vai...

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL