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Renato Maurício Prado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Torcer, secar e esperar pelo VAR

Jogadores do Flamengo comemoram gol marcado por Willian Arão contra o Corinthians - Fernando Soutello/AGIF
Jogadores do Flamengo comemoram gol marcado por Willian Arão contra o Corinthians Imagem: Fernando Soutello/AGIF
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

14/02/2021 19h55

A algazarra da matilha, após o almoço, prenunciava a zorra. Sim, era ele que chegava, distribuindo linguiça (provavelmente surrupiada do armazém do português em Ipanema) e fazendo a alegria da cachorrada. Até o Rin Tin Tin, meu pastor alemão, guarda 01 de Ponderosa (onde moro, em Itaipava) já se derrete quando o vê! Claro, era o Bagá que aparecia, para assistir comigo à rodada de fogo do Brasileirão.

"Chefia, teremos que ver os dois jogos ao mesmo tempo. Nunca pensei que fosse chegar esse dia, mas precisamos torcer pelo Mengão e pelo Vascão! É dia pra ficar a uma vitória do octa!", disparou, empolgado.

A saída foi sintonizar a TV da sala no jogo entre Flamengo e Corinthians, no Maracanã, e o IPad, colocado numa mesinha diante do sofá, na partida entre Vasco e Internacional. Rolou a bola e começou a ladainha:

"O Pofexô dará um nó tático no Abelão? E o Ceni, não vai atrapalhar o Mengo, hoje?"

Preferi não dar corda no ciclope, mas ele estava impossível. Até porque o Inter começava pressionando e quase abria o placar, num chute forte de Yuri Alberto defendido com dificuldade por Fernando Miguel:

"Aí, não, aí, não Luxemburgo! Não entrega o ouro!", implorou o colosso de ébano, com um olho esbugalhado numa tela e o outro na outra.

Falta a favor do Flamengo, no Maracanã, Arrascaeta cobrou na cabeça de William Arão, que testou firme, abrindo o placar no Maracanã! A comemoração alucinada do Bagá, porém, acabou precocemente interrompida. Em São Januário, Rodrigo Dourado, também de cabeça, marcou para o Inter. E ambos os lances estavam sendo checados pelo VAR. O gol rubro-negro foi validado, e a dúvida seguiu no tento colorado:

"Foi banheira, foi banheira!", torcia o Bagá.

Torcida inútil. Confirmada a vantagem do Internacional, porque o VAR não funcionou em São Januário! Sem que a geringonça conseguisse sincronizar as linhas, prevaleceu a decisão do bandeira, em campo (como manda a regra).

Com as vitórias dos dois primeiros colocados, o time do Sul seguia com um ponto de vantagem na tabela. Pouco depois, uma cabeçada de Bruno Henrique explodia no travessão, e tudo parecia caminhar para uma vitória tranquila do Fla. Parecia. No primeiro ataque do Timão, Léo Natel recebeu nas costas de Arão e empatou a partida. O chorrilho de palavrões do Bagá foi impublicável. Sua observação final, entretanto, era prenhe de razão:

"É sempre assim! A gente perde uma boa chance e acaba tomando um gol. Essa do Arão na zaga e Diego de volante ainda não me convenceu!"

De fato, Diego e Arão foram mal no lance. Mas o Flamengo continuava melhor. Só novo gol rubro-negro, porém, seria capaz de acalmar a besta-fera. Que foi à loucura com uma saída de bola errada de Arão, quase possibilitando o segundo gol corintiano:

"Ele não é zagueiro, não é zagueiro!", desesperava-se o Bagá. "O Ceni inventou isso só pra arrumar uma vaga pro Diego!"

Nem adiantava contra-argumentar que, nos últimos jogos, a solução vinha dando certo e melhorara a saída de jogo e a criação no meio. O formidando crioulo é "resultadista". E, naquele momento o resultado era ruim. Especialmente combinado com a vitória do Inter, em São Januário. E assim terminou o primeiro tempo.

Reiniciadas as partidas, o Flamengo acabou desempatando em um lance curiosíssimo em que tanto Everton Ribeiro quanto Gabigol pareciam impedidos. O VAR, entretanto, assegurou que não (as linhas do software mostraram que, de fato, o gol foi legal), e o rubro-negro voltou à frente no placar, para euforia do gigante que, já com cinco cervejas na cuca, gargalhou, balouçando a pança:

"Chefia, tô ruim, mesmo. Pra mim era banheira dupla! Viva o VAR!"

Para que a alegria do Bagá fosse completa, contudo, faltava um golzinho do Vasco em São Januário. Mas estava difícil. Eis que: pênalti pro Vasco! VAR analisou. E confirmou. Mas o artilheiro Cano bateu para fora!

"Não é possível! O cara é um baita goleador, faz gol de tudo que é jeito e na hora de cobrar esse pênalti, bate pra fora! Tá de sacanagem", protestou, já enrolando a língua.

Claro que não. Até porque o empate seria fundamental para o Gigante da Colina, uma vez mais apequenado na luta feroz contra o rebaixamento. Mas quem sou eu para discordar do enfurecido Bagá? Ainda mais bêbado...

No fim das contas, a decisão deve ficar mesmo para as duas últimas rodadas, a menos que o Inter vença o Flamengo no Maracanã, garantindo o título com uma rodada de antecedência.

"Vira essa boca pra lá, chefia. O Mengão vai ganhar do time do Abelão e levantar a taça no Morumbi!"

Depois de torcer, secar e esperar pelo VAR, o colosso de ébano saiu de Ponderosa delirantemente otimista. Ao torcedor rubro-negro mais consciente, porém, recomendo manter os pés no chão.

O Flamengo continua a encontrar muitas dificuldades para transformar em gols seu domínio territorial, e a defesa ainda concede aos adversários mais oportunidades do que deveria.

O jogo do próximo domingo, no Maracanã, tem tudo para ser duríssimo e qualquer prognóstico é arriscado.

Enfim uma final?

Com as vitórias do Fla e do Inter, o Brasileirão da pandemia pode ser decidido no próximo domingo, em um confronto direto entre o primeiro e o segundo colocados. Graças à vantagem de um ponto, apenas o Colorado tem condições de deixar o Maracanã com a faixa de campeão no peito. Basta vencer.

Mas se o rubro-negro carioca ganhar o duelo, dará passo decisivo para levantar a taça, pois colocará dois pontos de vantagem sobre o atual líder faltando apenas a última rodada. Em resumo: o Flamengo também depende apenas de seus próprios resultados: basta vencer os dois jogos que lhe restam. Façam suas apostas!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Renato Maurício Prado