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Renato Maurício Prado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ceni cria mais uma saia justa com Gabigol. Pra quê? Por quê?

Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

05/02/2021 08h48

Com os resultados da 34ª rodada, o Flamengo volta a depender apenas de si para ser octacampeão. Se ganhar os quatros jogos que lhe restam, levantará a taça independentemente de quaisquer outros resultados. Privilégio que, entretanto, não é somente do atual campeão brasileiro, mas também do Internacional, atual líder da classificação, com dois pontos a mais que o rubro-negro - eles se enfrentam na penúltima rodada.

Mas na justa vitória de 2 a 0 sobre o Vasco, resultado que deveria trazer tranquilidade e motivação para os flamenguistas, o técnico Rogério Ceni conseguiu a proeza de criar um tremendo mal-estar com o ídolo maior da torcida. Pela enésima vez, trocou Gabigol por Pedro, substituição que irritou claramente o artilheiro dos dois últimos campeonatos brasileiros.

Ao ver que sairia, o camisa nove fechou a cara, cumprimentou apenas o goleador que entrava e ignorou o treinador, chutando com raiva um copinho de água ao deixar o gramado rumo ao banco de reservas. Ceni lhe disse alguma coisa e recebeu uma resposta no ato - os repórteres de campo não captaram o áspero diálogo, mas evidentemente o clima não ficou bom.

Após um início muito ruim, é justo dizer que o ex-goleiro são-paulino, agora técnico, conseguiu encontrar um time e um jeito de jogar. Bem diferente do que queria ao chegar e muito mais parecido com o que o Flamengo praticava sob o comando de Jorge Jesus.

Com Bruno Henrique e Gabigol reeditando a dupla mortal de atacantes e alta rotatividade do meio-campo para frente, como o próprio artilheiro ressaltou em entrevista no intervalo, logo após marcar de pênalti o gol que dava vantagem ao rubro-negro após os 45 minutos iniciais.

O mérito de Ceni foi se render a isso (e abrir mão dos pontas atarraxados nas extremas), além de criar uma novidade ao recuar William Arão para zaga, fazendo entrar Diego, que passou a fazer dupla com Gerson nas funções de volantes e armadores. Que o meio-campo melhorou não há dúvida. Se a zaga seguirá confiável, só o tempo dirá. Nos três últimos jogos, coisa rara, o Flamengo não sofreu gols.

Diante disso tudo e da boa fase (cinco vitórias nos últimos seis jogos) é inacreditável que o treinador crie problemas com o seu principal atacante. Depois da vitória sobre o Vasco, ele se justificou dizendo que tirou Gabigol para evitar que ele tomasse o cartão amarelo que poderia tirá-lo do próximo jogo, contra o Red Bull Bragantino.

Justificativa que seria até razoável, não fosse o seu histórico de substituições. Desde que assumiu, Gabigol foi substituído em todas as vezes em que começou como titular (e ele chegou a ser colocado no banco). Sempre por Pedro, que, pelo visto, o treinador não admite escalar ao seu lado, embora haja um clamor da torcida e até de parte da imprensa por isso.

Todos que conhecem Rogério Ceni sabem que ele foi para o Flamengo fascinado pela possibilidade de ser campeão da Libertadores, da Copa do Brasil e do Campeonato Brasileiro. Já fracassou nas duas primeiras competições, mas ainda tem chances na última. Se, entretanto, continuar a se mostrar arrogante e teimoso, como age em relação a Gabigol, corre o sério risco de ser campeão e mesmo assim levar um pé na bunda.

Ou alguém acha que, nesta dividida, o Flamengo ficará com o técnico?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Renato Maurício Prado