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Renato Maurício Prado

Carrossel do Flamengo volta a girar e sonhar. Só precisa de liberdade, Ceni

Bruno Henrique comemora o segundo gol do Flamengo - Rafael Vieira/Rafael Vieira/AGIF
Bruno Henrique comemora o segundo gol do Flamengo Imagem: Rafael Vieira/Rafael Vieira/AGIF
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

02/02/2021 04h00

Quem sente saudades do Flamengo dos cinco títulos e apenas quatro derrotas, sob o comando de Jorge Jesus, pode reencontrá-lo em pelo menos dois tempos dos últimos jogos: o segundo, contra o Grêmio, e o primeiro, contra o Sport. Nessas duas etapas, nas quais se fartou de criar boas oportunidades para marcar, ora com jogadas preciosas, de pé em pé, ora com arrancadas irresistíveis de sua dupla de atacantes, ficou evidente que a gênese daquele supertime não está morta. Basta respeitá-la.

Essa equipe rubro-negra, que tem como força motriz ofensiva um quinteto de jogadores especialmente talentosos (Gerson, Arrascaeta, Everton Ribeiro, Gabigol e Bruno Henrique) não pode ser manietada em camisas de força de esquemas rígidos e posicionais - e o rotundo fracasso do catalão Domènec Torrent e os muitos tropeços inadmissíveis de Rogério Ceni são provas cabais disso. Sempre foi o óbvio. Mas, por mais incrível que possa parecer, poucos o enxergavam.

Recordando: até o intervalo da partida na arena gremista, o técnico do Flamengo insistia em manter Bruno Henrique atarraxado na ponta esquerda e Éverton Ribeiro (que tecnicamente atravessa má fase, desde que voltou da seleção) bem aberto na direita. E o futebol encantador dos tempos de Jesus (que muitos, apressadamente, consideravam acabado) não aparecia. Nem mesmo quando o time vencia.

Bastou o técnico permitir que Bruno voltasse a atuar solto, mais próximo a Gabigol (que, por conta própria, já se deslocava por todos os setores do ataque), para que o ataque florescesse. Arrascaeta, teoricamente, deslocado para a esquerda, atendeu apenas parcialmente aos pedidos de Ceni e, juntando-se à dupla de atacantes e a Gerson, ajudou a reviver o melhor futebol do Fla campeão de tudo com Jesus.

Milagre? Não. O que esse timaço de 2019 precisa é de liberdade para criar do meio-campo pra frente. Não à toa, Jorge Jesus sempre se preocupou muito mais com a armação defensiva do que com o ataque. Porque, inteligente que é, logo percebeu que seus armadores e atacantes tinham talento suficiente para resolver no ataque.

Dome e Ceni foram um atraso de vida exatamente por não enxergar o que sempre esteve bem diante de seus olhos. O último, ao menos, tem a chance de se redimir, dando alforria aos seus "avançados" das táticas posicionais que, tal qual o catalão, tanto admira. Bom treinador, insistirei até à morte, não é aquele que faz os seus comandados se adaptarem ao seu esquema preferido, mas aquele que percebe qual o sistema ideal para os jogadores que têm nas mãos. É disso que o Flamengo precisa, para continuar sonhando com o octacampeonato brasileiro e salvar a temporada, ainda inacabada de 2020.

Se Rogério Ceni entender que a sua adorada "recomposição" é menos importante do que a inspiração do seu quinteto ofensivo, talvez consiga evitar a tríplice coroa de espinhos que está prestes a merecer, ao perder a Copa do Brasil, a Libertadores e o Brasileiro.

Mas, se continuar a demonstrar a teimosia arrogante, que o faz sempre substituir Gabigol por Pedro, para demonstrar que é ele quem manda e que faz o que quer, muito provavelmente, não chegará ao título, embora tenha sob seu comando aquele que ainda é, de longe, o melhor e mais talentoso elenco do país.

Está em suas mãos ser crucificado ou glorificado por levantar uma taça na qual o seu maior mérito, na verdade, será não atrapalhar.

Renato Maurício Prado