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Renato Maurício Prado

E se os "dinossauros" brasileiros ganharem os 3 títulos mais importantes?

Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

23/01/2021 04h00

Na onda do estrondoso sucesso de Jorge Jesus, no Flamengo, em 2019, o Brasileiro de 2020, que só terminará no final do mês que vem, já neste ano de 2021, teve sete treinadores estrangeiros: os argentinos Jorge Sampaoli, no Atlético Mineiro; Eduardo Coudet, no Internacional e Ramon Diaz, no Botafogo; o espanhol Domènec Torrent, no Flamengo; os portugueses Ricardo Sá Pinto, no Vasco e Abel Ferreira, no Palmeiras (houve ainda Jesualdo Ferreira, no Santos, no estadual e nos primeiros jogos da Libertadores, mas foi demitido antes da estreia no Brasileirão) e o recém chegado paraguaio Gustavo Morinigo, no Coritiba.

Modismo? Um pouco, mas também uma compreensível e elogiável busca por estratégias mais modernas no nosso futebol, uma vez que, à frente do Flamengo, Jesus escancarara o abismo tático entre o que praticava o seu time e o restante das equipes brasileiras. Ganhou praticamente tudo (só perdeu a Copa do Brasil, eliminado nos pênaltis) e encantou pela forma revolucionária (por aqui) na forma de atuar e administrar o seu elenco.

Dos sete "gringos" que disputaram o Brasileiro, restam apenas três: Jorge Sampaoli, no Atlético Mineiro, Abel Ferreira (que nem sequer começou o campeonato), no Palmeiras e o paraguaio Gustavo Morinigo, que mal chegou e pegou Covid, só tendo dirigido o Coritiba em uma partida (vitória sobre o Vasco, por 1 a 0) até agora.

Os dois primeiros, porém, ainda podem acabar o ano campeões: o argentino no Brasileiro e o português talvez até numa tríplice coroa (ainda que suas maiores chances, agora, sejam na Libertadores e na Copa do Brasil). Os demais foram demitidos; o único que saiu por vontade própria foi Eduardo Coudet, que fazia um bom trabalho no Colorado, chegando a liderar o Brasileiro por várias rodadas.

Se o Palmeiras de Abel Ferreira vencer Brasileiro, Copa do Brasil e Libertadores (que o credencia até ao título do Mundial Interclubes), naturalmente, o prestígio dos estrangeiros, notadamente dos portugueses, seguirá em alta. Caso ele conquiste dois dos três títulos, ou mesmo apenas um, desde que seja a Libertadores, tal status quo será mantido. O mesmo caso Sampaoli termine campeão brasileiro.

Mas o outro lado da moeda pode significar o contrário. Imaginemos, por exemplo, que o Santos de Cuca ganhe a Libertadores, o Grêmio de Renato Gaúcho, a Copa do Brasil e o Internacional de Abel Braga, o Brasileiro. Teríamos, então, três veteranos treinadores brasileiros (Cuca, com 57 anos; Renato, com 58 e Abel com 68) alcançando os principais títulos do país.

Os adeptos da teoria de que os "processos" são mais importantes que os resultados podem minimizar tal fato. Mas o torcedor, a voz da arquibancada e das redes sociais, certamente, não o fará. Estou longe de ser um "resultadista", mas admito, salvo raríssimas exceções (como a Holanda de 74 e a seleção brasileira de 82), não adianta jogar bonito e não vencer. O esporte é cruel nesse aspecto. O que todos querem é ganhar. Ponto final.

Mas, seja quais forem os resultados, a porta aberta para treinadores estrangeiros, insisto, é extremamente benéfica para o nosso esporte. Sampaoli e Abel Ferreira contribuem não somente para os clubes que dirigem, mas para o futebol brasileiro, como um todo. É preciso, contudo, que as escolhas dos técnicos que vêm de fora sejam feitas com mais estudo e critério e seus trabalhos, quando analisados corretamente e bem avaliados, mereçam mais paciência.

Imaginemos, por exemplo, que Abel Braga vença o Brasileiro, com o Internacional. O espanhol Miguel Angel Ramirez já está contratado para substitui-lo, tão logo termine o torneio. Seu estilo de jogo posicional, sabe-se de antemão, exigirá tempo para adaptação - nem com Coudet, nem com Abel, o time do Inter praticou nada parecido. Diante disso, os resultados dificilmente virão a curto prazo. O torcedor colorado (e os próprios dirigentes) estarão prontos para ter paciência, saindo de um título nacional com um treinador veterano que é praticamente um semideus no Beira-Rio? Acho pouco provável.

As principais ligas europeias estão cheias de treinadores de outros países, a Premier League, a mais forte delas, então, nem se fala. É uma verdadeira legião estrangeira. Seria ótimo que tal prática se estabelecesse por aqui. Sem que, necessariamente, isso significasse o fechamento de mercado para os melhores profissionais brasileiros - que só têm a evoluir com a concorrência saudável de companheiros competentes de outras praças.

Precisava?

No momento em que o time faz a sua melhor apresentação sob o comando de Rogério Ceni e se prepara para uma possível arrancada rumo ao octacampeonato brasileiro, qual o sentido de transformar o treinamento do Flamengo, em Brasília, num ato político, com o presidente da República? Com todo mundo sem máscaras, dando um péssimo exemplo, em meio a uma pandemia devastadora! É impressionante como Landim e seus pares não falham. Metem os pés pelas mãos, sempre.

Renato Maurício Prado