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Renato Maurício Prado

Abel Braga revive com Angel Ramírez o trauma de Jorge Jesus

Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

19/12/2020 04h00

Em plena reta final do Brasileirão 2020, Abel Braga revive no Internacional situação idêntica à que o incomodou no Flamengo, em 2019, levando-o a pedir demissão do cargo. No ano passado, agiu assim tão logo soube das sondagens dos dirigentes rubro-negros ao português Jorge Jesus. E agora, o que fará diante das notícias de que a nova diretoria do colorado está se acertando com o espanhol Miguel Angel Ramirez e pretende que este assuma o time já em janeiro?

O movimento do Inter é interessante, em termos de trazer um estrangeiro mais atualizado com o futebol moderno do que seu atual treinador. Mas o momento de tal definição embute riscos para a próxima temporada. Ainda no G-6, o que lhe garantiria uma vaga na Libertadores de 2021, o Internacional conseguirá se manter na zona de classificação sob o comando de um novo técnico, ou mesmo na sequência do atual, desmotivado e de certa forma desmoralizado pela certeza da demissão a curto prazo?

Miguel Angel Ramírez, como se sabe, é um dos apóstolos do jogo posicional, que Pep Guardiola consagrou no Barcelona, no Bayern de Munique e no Manchester City. Estilo que Domènec Torrent, auxiliar de Pep durante 13 anos, tentou implantar na marra, no Flamengo, ao substituir Jesus, e deu com os burros n'água - demitido após três goleadas desmoralizantes: 5 a 0 para o Independiente Del Valle; 4 a 1 para o São Paulo e 4 a 0 para o Atlético Mineiro.

É um sistema de jogo bem diferente daqueles aos quais nossos jogadores estão acostumados por aqui e que, por isso mesmo, exige muito tempo e treinamento intensivo para que se adequem. Na reta final deste Brasileirão em curso, é praticamente impossível se imaginar que vá dar certo.

O panorama ideal para que a transição acontecesse da melhor forma seria Abel seguir dirigindo a equipe, até o final do atual campeonato, já convivendo com Ramírez, que tomaria o comando a partir daí. Mas, em sã consciência, alguém acredita que os dois treinadores aceitariam trabalhar assim, em conjunto? Bem pouco provável.

A rápida evolução obtida com Eduardo Coudet, no próprio Inter, só foi possível porque o argentino tem um estilo de jogo com conceitos bem mais parecidos com o do futebol que se joga por aqui. O mesmo pode-se dizer do português Abel Ferreira, que assumiu o Palmeiras e conseguiu fazê-lo evoluir rapidamente, sem alterações táticas mirabolantes. Bastaram pequenos ajustes, apoio aos jogadores que antes entravam e saíam se parar, e orientações claras que inexistiam nos confusos tempos de Luxemburgo.

Miguel Angel Ramírez não é assim. O Inter precisará ter paciência com ele. E Abel idem, em mais uma situação de menosprezo ao seu trabalho, que já foi ótimo, mas nos últimos anos parece ter parado no tempo e no espaço.

A bolha de Neymar

Pode-se desgostar dos prêmios da Fifa, mas ficou claro, nessa última edição, que a comunidade internacional do futebol não enxerga Neymar da mesma forma que nós, brasileiros, que neste caso parecemos viver numa apaixonada bolha de admiração e devoção ao camisa dez do PSG e da seleção brasileira.

No pleito, com jogadores, treinadores e jornalistas do mundo inteiro, ele só foi votado como número 1 por Messi (seu amigo e ex-companheiro no Barcelona), Thiago Silva (outro amigo e ex-parceiro, no PSG), Tite (por motivos óbvios), Gustavo Gomez (zagueiro capitão da seleção do Paraguai e jogador do Palmeiras), Charles Akunnor (técnico de Gana) e Márcio Barcellos (técnico da Guiana).

Muito pouco para quem se acha no direito de ironizar os resultados, dizendo que, na visão dos votantes, no PSG não deve praticar futebol, mas outro esporte. A verdade é que o campeonato francês é um dos mais fracos e desequilibrados entre as principais ligas da Europa e, por isso, seus feitos são devidamente relativizados. Ou ele ganha a Liga dos Campeões ou a Copa, como protagonista, ou pode esquecer o sonho de ser o maior do mundo.

Registre-se: Neymar não ficou nem sequer na seleção do ano, eleita também pelo mesmo colégio. E, individualmente, acabou atrás do brasileiro, naturalizado espanhol, Thiago Alcântara - um dos filhos de Mazinho. É essa a visão que se tem dele, lá fora. Por mais que isso possa desgostar os nossos corações "pachecos".

Renato Maurício Prado