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Renato Maurício Prado

Rogério Ceni só tem uma saída. Usar muito mais a garotada

Rogério Ceni à frente do Flamengo contra o Racing, pela Libertadores - EFE/Bruna Prado POOL
Rogério Ceni à frente do Flamengo contra o Racing, pela Libertadores Imagem: EFE/Bruna Prado POOL
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

02/12/2020 23h32

Era o dia 27 de setembro e, estraçalhado por uma onda de contaminações pelo coronavírus, o Flamengo enfrentava o Palmeiras, no Allianz Parque, em jogo válido pela décima segunda rodada do Brasileirão. Após tentar, sem sucesso, o adiamento da partida, o time rubro-negro, então dirigido pelo catalão Domènec Torrent, foi a campo com Hugo Neneca, João Lucas (Yuri Oliveira), Otávio, Natan e Ramon; Thiago Maia, Gerson e Arrascaeta; Guilherme Bala (Richard Rios), Pedro e Lincoln (Lázaro). Nada menos que nove jogadores da base em ação (inclusive a defesa inteira, do goleiro ao lateral-esquerdo). Todos saíram-se muito bem, numa autêntica prova de fogo.

Terminado o confronto, com um empate em 1 a 1, a impressão reinante, e que só aumentaria nas rodadas subsequentes, quando a garotada da zaga ainda foi utilizada, era que o Flamengo se tornava ainda mais favorito em todas as competições que disputava: Brasileiro, Copa do Brasil e Libertadores. Afinal, se já possuía, na teoria, o elenco mais forte do país, ganhara, num piscar de olhos, um reforço considerável com a sua bem-sucedida divisão de base.

Pouco mais de dois meses se passaram e o rubro-negro carioca está eliminado da Copa do Brasil e da Libertadores (seu sonho dourado na temporada, com a final prevista para o Maracanã). E titubeia ainda no Brasileiro, colecionando oportunidades desperdiçadas para assumir a liderança. De lá pra cá, Domènec, inicialmente, e Rogério Ceni, agora, foram afastando um a um os garotos que entraram tão bem num momento crítico do campeonato.

Sabem quantos jogadores da base foram utilizados nos jogos decisivos, contra o São Paulo, na Copa do Brasil? Três. Matheusinho (o único a ser titular), Hugo Neneca (que entrou, uma vez, quando Diego Alves sentiu câimbras) e Lázaro (também uma vez, nos minutos finais). E contra o Racing? Um. João Gomes, entrando sempre depois do intervalo.

Em contrapartida, Rogério Ceni, tal qual Dome, fartou-se de usar, nos confrontos mais importantes, jogadores "cascudos" que só fazem falhar faz tempo: Gustavo Henrique (responsável direto pelo gol argentino, no Maracanã), Léo Pereira (um fiasco na partida da Argentina), Thuler (outro desastre em Avellaneda), Renê (até na lateral-direita!), Michael etc.

Atribuir os fracassos rubro-negros pós-pandemia apenas aos erros dos treinadores me parece raso e injusto. O departamento de futebol e, por que não dizer, o clube inteiro acumulam decisões desastrosas desde o início do ano. Da arrogância em recusar os R$ 18 milhões de cota da TV, no Estadual, que a torcida foi impedida de ver; à volta açodada do futebol; passando pela demissão do executivo Paulo Pelaipe, substituído por um parente de Bap que adora sair à noite com os jogadores; até a absurda candidatura do vice de futebol Marcos Braz a um cargo de vereador - que só conseguiu graças ao sucesso do time em 2019.

Nada disso, entretanto, exime Ceni e o departamento de futebol de suas equivocadas escolhas. Por que devolver à base jovens que poderiam estar reforçando o elenco profissional, alguns até como titulares ou, no mínimo, ótimas opções no banco? Qual a importância do Brasileiro sub-20? Nenhuma, rigorosamente, nenhuma. Sucesso da base se mede por jogadores revelados e aprovados nos profissionais, não por canecos que não têm relevância alguma.

Como admitir que os zagueiros de área Natan (que virou reserva dos morféticos Léo Pereira e Gustavo Henrique!), Noga e Otávio não estejam sendo utilizados num momento tão funesto da defesa? E Ramon, conhecido no clube como "Ramonstro", tamanho o seu talento? Todas as vezes que entrou, esbanjou categoria na marcação e no apoio! Se o deixarem jogar, não duvido que acabe colocando Filipe Luís, que já não vem bem, no banco. Mas Ceni opta por Renê! Como explicar?

Com apenas o Brasileiro para jogar até o final da temporada, Rogério precisa mudar radicalmente seus conceitos e olhar com carinho para a base, que pode ser a sua única ponte para a salvação. Se insistir com jogadores que acumulam lambanças, jogo após jogo, estará assinando a própria demissão no final do Brasileiro (senão antes!).

Suas escolhas na eliminação contra o Racing foram indefensáveis. Da péssima opção por Gustavo Henrique, a substituir, praticamente ao mesmo tempo, Arrascaeta e Everton Ribeiro, e, por fim, a demora inacreditável para colocar Pedro em campo - ao diabo a história de que só podia jogar 30 minutos! Era jogo de vida ou morte, na competição mais importante do ano. Era hora de atuar no sacrifício, na base do coração. Como Gabriel fez na Argentina.

Rogério foi para o Flamengo atrás de títulos. Já perdeu dois dos três possíveis, apostando nos "experientes" que não jogam bulhufas. Sua salvação está na garotada - como bem vem demonstrando Palmeiras, São Paulo, Grêmio e o Santos. O próprio Racing, algoz do Flamengo, utilizou, com sucesso, um menino de 18 anos (feitos no dia da partida). Bateu até pênalti, com categoria. Enquanto isso, do lado do Fla fiquei me perguntando quem seria o último batedor? Vitinho? Era só o que faltava...

Abre o olho, Rogério Ceni! Sua batata já está forno.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Renato Maurício Prado