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Renato Maurício Prado

No adeus a Maradona, a inevitável lembrança de Mané Garrincha

Caixão de Maradona tem bandeira da Argentina e camisas da seleção argentina e do Boca - Handout / Argentinian Presidency / AFP
Caixão de Maradona tem bandeira da Argentina e camisas da seleção argentina e do Boca Imagem: Handout / Argentinian Presidency / AFP
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

26/11/2020 11h22

Uma guarda alada o esperava nas nuvens, para escoltá-lo ao céu. À frente dos arcanjos, serafins e querubins, o Anjo Torto o recebeu com os braços abertos e um sorriso largo no rosto mulato.

- Bem-vindo, pibe! Já separamos a 10 pra você!

Apesar do encantamento com a recepção divina, o que chegava mostrou-se preocupado:

- Será que o "chefe" me receberá bem? Afinal, "roubei" a mão dele naquele jogo da Copa de 86...

Ambos deram uma gargalhada e, abraçados, começaram a subir a longa escadaria que levava a um ponto iluminado por um fulgurante raio de sol.

- Podiam ter colocado uma escada rolante aqui, hein? Nossos joelhos já sofreram muito lá embaixo... - brincou o novato. Mas até que estou me sentido mais leve - admitiu.

- Tudo aqui é mais leve. Fique tranquilo.

Um querubim mais ousado não resistiu à emoção de vê-los juntos, abandonou a guarda e pediu uma selfie à dupla. A repreensão de São Pedro veio lá de cima, como um trovão, mas o anjinho se justificou:

- Meus ídolos! Os únicos que ganharam uma Copa praticamente sozinhos... - explicou-se, antes de se meter entre ambos e fazer a tão sonhada foto.

- Tem um baixinho brasileiro que não vai gostar dessa história de "os únicos que ganharam a Copa sozinhos" - comentou, rindo, o mais velho.

- Quando ele vier pra cá que cobre a "paridade" - divertiu-se o outro.

Chegaram, enfim, ao topo da escadaria e à porta do Céu. Zombeteiro, Pedro já surgiu comemorando:

- Que honra, receber "El Diez"! Agora é que o time lá debaixo vai se ver em maus lençóis, enfrentando os dois maiores dribladores do futebol mundial! Fiquem à vontade e esperem só um pouco que ELE já está vindo.

Enquanto aguardavam a chegada do "chefe", aproveitaram para trocar confidências:

- Me fala de 62, que não vi porque não tinha nascido...

- Me conta de 86, que não acompanhei bem porque já tinha morrido...

Era evidente a admiração de um pelo outro. Dois gênios da bola, semideuses nas quatro linhas, mas tão humanos fora delas.

- Bebe-se algo por aqui? - quis saber o mais jovem.

- Tinha a mesma dúvida, quando cheguei - riu o mais velho. Mas fica de boa. Quando você provar o néctar dos deuses com ambrosia, nunca mais pensará em nada daquilo que consumia na terra...

Apareceu, então, o Senhor. Com um sorriso celestial, quis saber se a "viagem" tinha sido tranquila e se o novo habitante do pedaço estava bem.

- Dá pra jogar no domingo? É mata-mata contra o Purgatório... - perguntou o Pai de todos.

- Ao lado dele? Com certeza, será como num sonho - foi a resposta entusiasmada do que chegava.

Seguiu-se um silêncio e o mais velho sussurrou baixinho.

- Pergunta logo, pra depois não dar zebra...

O outro coçou a cabeça, torceu os lábios e criou coragem:

- Pai, gol de mão, aqui, não pode???

O Senhor fez que não ouviu, deu apenas um sorriso e se despediu, prometendo uma vista ao vestiário, momentos antes do clássico contra o Purgatório. Quando ELE se foi, Pedro se aproximou e, piscando o olho, cochichou:

- Se for no último minuto da final, contra o time do Capeta, ELE vira a cara pro lado e eu desligo o VAR celestial...

A turma do Capiroto que se cuide. Manoel dos Santos e Diego Armando agora estão juntos e têm tudo para fazer uma dupla infernal! Ops, quero dizer, celestial...

Quantas semelhanças nas glórias e nas tragédias de Garrincha e Maradona! Dois dos maiores jogadores de todos os tempos. Dois fora-de-série, supercampeões por seus clubes e seleções. Dois reis dos dribles, a magia maior no trato com a bola. Dois "anjos tortos", incapazes de driblar os vícios que os levaram à morte. Que descansem em paz. São eternos nas lembranças de tantos lances geniais e inesquecíveis e nas alegrias que proporcionaram aos amantes do futebol pelos gramados do mundo afora.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Renato Maurício Prado