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Renato Mauricio Prado

Desfalques atenuam, mas não eximem Dome em derrota humilhante para Diniz

Domènec Torrent à beira do campo durante o duelo entre Flamengo e São Paulo pelo Brasileirão 2020 - Jorge Rodrigues/AGIF
Domènec Torrent à beira do campo durante o duelo entre Flamengo e São Paulo pelo Brasileirão 2020 Imagem: Jorge Rodrigues/AGIF

02/11/2020 04h00

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É verdade que o Flamengo jogou sem Gabigol, Arrascaeta, Rodrigo Caio, Thiago Maia, William Arão e Diego. Desfalques pesadíssimos para qualquer time do Brasil (notadamente os quatro primeiros). Mas o time que Domènec Torrent mandou a campo para enfrentar o São Paulo e foi goleado impiedosamente por 4 a 1, em pleno Maracanã, é quase o mesmo que goleou o Corinthians por 5 a 1, na Neo Química Arena, há duas semanas - a única diferença foi o jovem volante João Gomes, escalado no lugar do suspenso Thiago Maia. O que houve?

Falhas individuais, alegou o treinador catalão, na entrevista pós jogo, ressaltando que em sua opinião, de um modo geral, o Flamengo jogou bem! Não jogou, não. Muito pelo contrário. A atuação de Gustavo Henrique foi, de fato, desastrosa, bem como os pênaltis desperdiçados por Bruno Henrique e Pedro foram muito mal batidos. Mas, independentemente disso, o São Paulo se mostrou bem superior o jogo inteiro e o rubro-negro carioca teve atuações coletivas e individuais para esquecer.

Qualquer análise isenta é obrigada a reconhecer que, desde o primeiro minuto, Fernando Diniz, técnico do São Paulo, engoliu o seu par do Flamengo. Marcando por pressão a saída de bola dos cariocas (algo que os adversários já perceberam ser um dos pontos fracos do campeão brasileiro e da Libertadores), dominou por completo os primeiros 20 minutos da partida e o golaço de Pedro, abrindo o placar, foi na verdade o primeiro e único ataque objetivo do Fla nesse periodo.

Só depois de sofrer o empate, a equipe de Dome começou a tentar controlar as ações. Mas jogava muito espaçada, mostrava-se vulnerável nos contra-ataques e se via em dificuldades para criar no meio-campo e no ataque. Teve até um pênalti a favor, para se colocar em vantagem, mas o desperdiçou bisonhamente e o castigo veio no último minuto da primeira etapa. Resultado justo pelo que os times apresentaram em 45 minutos. Bem ao contrário do que viu o treinador catalão.

Que foi novamente surpreendido por Diniz, na volta do intervalo, com o São Paulo, ignorando a vantagem, e lançando-se ferozmente ao ataque, sem deixar o Flamengo respirar. Antes mesmo de marcar pela terceira vez (em pênalti cometido por Gustavo Henrique), criou várias boas oportunidades e obrigou Hugo a fazer defesas difíceis.

Se Pedro tivesse convertido o segundo pênalti que o Flamengo teve a favor, sim, talvez o resultado fosse outro. Mas somente na base da empolgação e da luta, como passou a jogar o rubro-negro ao se ver em desvantagem de 3 a 1. O artilheiro, porém, cobrou tão mal quanto Bruno Henrique e Volpi defendeu de novo.

O quarto gol foi apenas a cereja de um bolo solado para os cariocas e extremamente saboroso para os paulistas, que saem do Rio certos de que podem, sim, brigar pelo título brasileiro deste ano. Afinal de contas, fizeram uma belíssima partida e golearam, com inteira justiça e até certa facilidade, o time que todos consideram o grande favorito do campeonato.

Para os rubro-negros restam algumas perguntas que não querem calar:

- Quando Domènec Torrent reconhecerá que nem Gustavo Henrique, nem Léo Pereira têm condições de jogar na zaga do Fla? Os meninos Noga, Natan e Otávio são muito melhores que eles.

- A "carruagem" de Vitinho no lugar de Arrascaeta já virou abóbora podre. Aquela excelente atuação contra o Corinthians foi a exceção que confirma a regra. Ele não tem condições de jogar ali. Errou praticamente tudo o que tentou contra o São Paulo. Até quando Dome insistirá com isso?

- Entende-se que o acúmulo de jogos causado pela pandemia esteja dificultando o trabalho, mas por que o departamento médico do clube (tão elogiado por sua eficiência, na temporada passada) agora demora tanto a recuperar os jogadores? Arrascaeta e Rodrigo Caio só serão liberados para jogar pelas eliminatórias pelo Brasil e pelo Uruguai? Faz algum sentido? E Pedro Rocha, o que há com ele? Parece até fazer vestibular para ser o novo Ederson...

- O Flamengo abandonou a marcação pressão na saída de bola do adversário e passou a marcar mais atrás. Curiosamente, porém, o time tem se mostrado mais espaçado que antes! Contra o São Paulo, Gérson esteve isolado na intermediária rubro-negra. Éverton Ribeiro voltou a ficar praticamente fixo na direita e Vitinho atuou mais como segundo atacante do que como meio-campista. O treinador não está vendo isso?

- Apesar dos bons resultados na sequência insana de 10 jogos (até a goleada sofrida ontem), por que a defesa levou gols em praticamente todos eles? É das mais vazadas do campeonato, com 25 gols sofridos, que poderiam ser bem mais não fossem as excelentes defesas de Hugo, desde a partida contra o Palmeiras. Trocar constantemente a dupla de zaga não prejudica o entrosamento e compromete o rendimento de toda a defesa?

- O Flamengo não faz um gol de falta há um tempo inacreditável. Agora vai sofrer também com os pênaltis? Será preciso Gabriel voltar, para ter um batedor minimamente bem treinado e eficiente? Quem cuida disso, na comissão técnica?

- Por que Dome custa tanto a fazer substituições, mesmo quando fica evidente que o time não está conseguindo desenvolver bom futebol? Contra o São Paulo, uma vez mais, demorou demais a mexer e, quando o fez, o jogo já estava perdido. É verdade que, nesse jogo específico, as opções do banco não eram animadoras. Mas esse tem sido um problema recorrente.

Para finalizar, dois registros:

Com a goleada sofrida diante do São Paulo, o Flamengo chegou, em um turno, à quarta derrota no campeonato. Exatamente o número que teve no torneio inteiro de 2019.

O Flamengo não sofria uma goleada, levando quatro gols de um time de fora do Rio, no Maracanã, desde 1996, quando foi derrotado pelo Paraná, por 4 a 1.

Conclusão: apesar de tudo, o Flamengo ainda é fortíssimo candidato ao título nas três competições que disputa: Brasileiro, Copa do Brasil e Libertadores. Mas precisa recuperar, urgentemente, seus titulares contundidos. Porque ainda é na base do talento individual que consegue seus melhores resultados. Coletivamente, apesar de possuir um elenco bem superior, o Flamengo de Domènec ainda está a anos-luz do que jogou o time dirigido por Jorge Jesus.