PUBLICIDADE
Topo

Renato Maurício Prado

Elenco de Domènec é muito superior ao de Jorge Jesus. Futebol ainda não

Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

26/10/2020 08h20

Alguém consegue imaginar o Flamengo de Jorge Jesus jogando em alto nível, em 2019, sem Rodrigo Caio, Arrascaeta, Gabigol, Diego e Bruno Henrique? Pois o de Domènec Torrent mostrou no Beira-Rio, contra o Internacional, ser capaz disso, naquele que talvez tenha sido o melhor jogo do Campeonato Brasileiro até o momento.

Não exatamente por méritos do técnico catalão (não que ele não os tenha), mas pelo simples fato de que o elenco rubro-negro atual é muito superior àquele que o português tinha em mãos e com o qual conseguiu ganhar, em sequência, o Campeonato Brasileiro, a Libertadores, a Supercopa do Brasil, a Recopa Sul-Americana e o Carioquinha.

Além dos cinco reforços contratados no início do ano (alguns até utilizados pelo português nos primeiros meses da temporada), o Flamengo, graças à epidemia de coronavírus que o acometeu no Equador, descobriu uma leva de jovens capazes de entrar no time principal e manter o alto nível dos antigos titulares absolutos. Exemplos mais evidentes são o goleiro Neneca e o zagueiro Natan. Mas há ainda outros, como Noga, Ramon, João Gomes, Pepê, Bala e Lázaro.

É justo dizer que o calendário deste ano é bem mais exigente que o da última temporada, e, aos poucos, o trabalho de Torrent evolui - até porque os jogadores começam a conhecê-lo melhor, e ele ao elenco. Mas a verdade é que o fator determinante para as boas campanhas rubro-negras no Brasileirão e na Libertadores continua a ser a grande qualidade de seus jogadores. E o futebol, independentemente dos resultados, ainda está bem aquém daquele que encantou o Brasil sob o comando do português.

Obcecado pelo jogo posicional (que, confessa, ser o único que utiliza há 13 anos), Dome tem feito algumas concessões, como, por exemplo, dar liberdade a Éverton Ribeiro, desde que Isla ocupe a sua faixa de campo no ataque - no início, ele disputava posição com Arrascaeta, ou jogava preso na ponta-direita. Mas apesar da elogiável evolução, o treinador ainda se atrapalha em determinadas escolhas, como a de Gerson, atarraxado na ponta-esquerda nos primeiros 45 minutos no Beira-Rio, quando o rubro-negro esteve bem perto de perder o duelo de forma irreversível.

No segundo tempo, devolvido à posição de origem, no meio-campo, o "Joker", como o chamava Jorge Jesus, foi o melhor jogador em campo - autor, inclusive, da jogada do gol de empate, além de ter conseguido bloquear, antes, um contra-ataque rápido, que poderia ter sido decisivo para o Internacional.

É verdade que Vitinho fizera as suas duas melhores partidas pelo Flamengo jogando pelo meio, na posição de Arrascaeta. É compreensível, portanto, que Dome tenha pensado em mantê-lo em tal posição. Mas precisava deslocar Gérson para a ponta - ainda mais em um meio-campo que já não contava com Arrascaeta e Diego?

É discutível também a insistência do catalão na saída de bola, com excesso de toques da defesa. Foi em falhas grotescas nessa estratégia que nasceram os dois gols do Internacional. Erros individuais de Isla e Gustavo Henrique, certo. Mas em um time que não tem tempo para treinar e conta com vários atletas que não estavam no ano passado e, portanto, carecem de entrosamento, faz sentido insistir tanto em recuar a bola para o goleiro e sair tocando desde a defesa? Os adversários já perceberam tal deficiência e a têm explorado, como fez o Internacional, no jogo de ontem.

Os resultados rubro-negros na duríssima sequência de quatro jogos em dez dias (10 pontos em 12 possíveis) foram excelentes, bem como o empate com o Inter, diante dos muitos desfalques e das circunstâncias do jogo. Palmas, então, para o treinador. Mas já está mais do que na hora de Dome buscar alternativas para momentos em que o seu estilo de jogo não flui, como no primeiro tempo no Beira-Rio.

Pedro e Gerson foram os dois grandes nomes do Flamengo no empate saudado por muitos como um jogo de nível europeu. De fato, a partida foi excelente, em termos técnicos e táticos. Mas, com um elenco bem menos expressivo, Eduardo Coudet esteve mais perto da vitória (apesar de dois lances para lá de duvidosos na área do Inter que o VAR preferiu ignorar).

Sigo muito curioso de ver como o Flamengo jogará quando tiver à disposição, juntos, Gabriel, Bruno Henrique, Arrascaeta e Rodrigo Caio. Nesta hora, e somente nela, será possível comparar o trabalho de Domènec Torrent com o de seu antecessor. E o sarrafo, sabemos, é bem alto.

Patrulha idiota

Acho engraçado que exista uma corrente de jornalistas e torcedores no Twitter que não aceita que nenhum tipo de crítica seja feita a Domènec Torrent, sem que cuspam vespas e marimbondos.

Da parte da torcida, a principal motivação é a tola tentativa de evitar que tais questionamentos possam atrapalhar o trabalho do treinador ou criar algum tipo de crise no clube - bobagens puras e rematadas.

Mas vindo de jornalistas? De profissionais? Li, após o jogo, gente falando em caráter e inépcia de quem critica o catalão! Por acaso são oráculos da imprensa esportiva? Donos da verdade? Ditadores da opinião alheia?

Eu, hein...

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Renato Maurício Prado