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Renato Maurício Prado

Indefinição sobre substituto dá sobrevida a Dome e corona castiga Landim

Domenec Torrent - Alexandre Vidal / Flamengo
Domenec Torrent Imagem: Alexandre Vidal / Flamengo
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

21/09/2020 04h00

Apesar de o vice-presidente de futebol do Flamengo, Marcos Braz, ter afirmado, em entrevista coletiva confusa e titubeante, no Equador, que toda a diretoria está fechada em torno da manutenção do técnico Domènec Torrent, a verdade é que apenas dois fatores impediram que ele fosse sumariamente demitido, após a vergonhosa goleada sofrida diante do Independiente Del Vale. 1) Em plena viagem e às vésperas de um novo jogo pela Libertadores, quem dirigiria o time contra o Barcelona? 2) Ainda não há um consenso sobre quem deve substitui-lo.

Entre a maioria do chamado "conselhinho do futebol" já existe a certeza de que o projeto com o catalão deu com os burros n'água. E se tal opinião não é externada oficialmente é em respeito a Marcos Braz — ainda um ferrenho defensor do treinador. O próprio vice de futebol, entretanto, se traiu, na coletiva, no Equador, quando disse ter certeza de que, com o elenco que tem, mais cedo ou mais tarde, o Flamengo voltará a vencer:

"Tomara que seja com esse técnico. Eu acredito que seja com ele" foram literalmente as suas palavras.

Ato falho clássico que desmente, inclusive, a história de que ele se demitiria, caso a diretoria optasse pela saída do catalão.

Analisando a assustadora queda de rendimento do time, ninguém no clube acredita em má vontade do elenco com o novo comando. Mas, em conversas reservadas, se ouve que os jogadores têm confidenciado ainda não terem sido capazes de entender bem o tal esquema de posições que está sendo implantado, modificando radicalmente o estilo de jogo anterior, já bem absorvido pela equipe e responsável direto pelas conquistas do Brasileiro, da Libertadores, da Recopa Sul-Americana, da Supercopa do Brasil e do Carioquinha.

"Ele quer que os jogadores guardem posições pré-determinadas, mas não os orienta suficientemente para que o sistema funcione como um todo. Nos treinos, pede determinados posicionamentos e movimentos, mas quando questionado sobre quem deve cobrir os espaços que se abrem, responde genericamente com coisas do tipo 'isso vocês decidem, na hora, em campo'", revelou uma raposa felpuda do Ninho do Urubu.

"É uma diferença monstruosa em relação ao trabalho de Jorge Jesus, que explicava tintim por tintim o que queria que fosse feito e o que aconteceria se suas instruções fossem seguidas. Ele ensinava nos treinos e os jogadores viam o resultado nos jogos. Por isso, era adorado e tinha o respeito de todos. Com o Dome, a verdade é que o time inteiro está perdido. E entra em campo cada vez mais inseguro", completou.

Na diretoria rubro-negra há uma corrente (capitaneada pelo polêmico vice de relações externas Luiz Eduardo Baptista, o Bap) que defende uma investida feroz sobre Miguel Angel Ramirez, treinador do Del Valle. Outra, contudo, contra-argumenta, lembrando com boa dose de razão, que o esquema tático adotado no algoz do Flamengo na Libertadores é o mesmo que Torrent vem tentando implantar, sem sucesso, no rubro-negro. E, como acontece agora, não haverá tempo para treinamentos.

Quem apoia Miguel Angel, porém, acha que o problema não é tempo, nem o jogo de posições, em si, mas o próprio Dome, que tem se mostrado inábil para comandar sua aplicação no rubro-negro. Baseado no que têm ouvido do elenco, consideram o catalão um estudioso e teórico, mas não um líder com capacidade prática de fazer as coisas acontecerem nas quatro linhas. O argentino Marcelo Gallardo poderia ser uma solução mais simples e adequada — defende a outra corrente. Mas o técnico do River Plate já recusou uma sondagem, quando da saída de Jesus.

São dúvidas como essas que fazem até que já se pense na possibilidade de contratar um treinador brasileiro — algo que nem sequer entrou em pauta quando Jorge Jesus se mandou para o Benfica. Mas, novamente, não há um consenso sobre isso. Rogério Ceni, por exemplo, tem seus admiradores no clube, mas também fortes opositores, que lembram que ele fracassou no Cruzeiro e ainda não possui história suficiente para "segurar" um elenco de medalhões como o do Flamengo.

É essa incerteza — e somente ela — que pode dar a Domènec Torrent uma sobrevida. Mas será preciso, no mínimo, ganhar bem do Barcelona, na Libertadores, e não perder para o Palmeiras, pelo Brasileiro, a seguir. Se o time voltar a tropeçar feio, nem Braz conseguirá segurar o catalão.

Em tempo: com o calendário insano desta temporada, nenhum treinador será capaz de implantar, este ano, um novo esquema no Flamengo ou em qualquer outro clube que seja. Ainda mais algo culturalmente novo por aqui, como o jogo posicional.

Este foi o maior erro de Torrent, que, embora tenha prometido não fazer grandes mudanças imediatamente, respeitou o sistema de Jorge Jesus apenas 45 minutos (o primeiro tempo do jogo de estreia, contra o Atlético-MG). Depois, resolveu implantar a fórceps o seu jogo de totó. E tome de pontas atarraxados nas laterais, centroavante enfiado entre os zagueiros e, no desespero, cinco atacantes na frente, sem armadores para municiá-los.

Na escolha de seu substituto, uma condição "sine qua non" precisa ser recuperar a base dos fundamentos do jogo implantado por Jorge Jesus e mexer apenas o mínimo indispensável, quando isso se fizer necessário. Todos os jogadores conhecem de cor e salteado aquela forma de jogar. Qualquer dúvida, basta conversar com Filipe Luís, Diego Ribas e Diego Alves, líderes do grupo. Filipe já disse, inclusive, que tem anotados todos os treinamentos do "velhinho" (como se refere carinhosamente a Jesus).

Se isso for feito — e, importante, o time recuperar a forma física perdida na paralisação causada pela pandemia e pelas muitas folgas sem sentido, após a conquista do Carioquinha — pode ser um Zé Ricardo, um Barbieri, um Jaime de Almeida, um Andrade e quejandos.

Basta não atrapalhar e, com o elenco que tem, o Flamengo ainda pode ganhar esse Brasileiro com o pé nas costas. Até porque, até agora, não tem time algum jogando um futebol que meta medo.

Castigo dos céus?

Rodolfo Landim e seus pares forçaram a volta do futebol no Rio e, por causa disso, o time rubro-negro ficou um bom tempo parado, perdendo a forma, após o Estadual. Agora, com o Rio vivendo uma nova onda de contaminação, os dirigentes do Flamengo querem porque querem a abertura do Maracanã para o público.

Enquanto isso, o repórter Venê Casagrande, do Dia (um dos mais bem informados sobre as coisas do rubro-negro), informa que no Equador, Diego Ribas, Michael, Isla, Matheusinho, Filipe Luís e Bruno Henrique. E o protocolo seguro, que seria um exemplo para todo o Brasil, Landim? Papai do Céu castiga...

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Renato Maurício Prado