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Renato Maurício Prado

Do videogame ao totó, a triste metamorfose do Flamengo

Domènec Torrent gesticula durante treino do Flamengo - Alexandre Vidal/Flamengo
Domènec Torrent gesticula durante treino do Flamengo Imagem: Alexandre Vidal/Flamengo
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

24/08/2020 04h00

O pai chegou em casa carregando uma baita bugiganga. Sentados no sofá, vendo televisão, o avô e o neto ficaram curiosos.

- Que novidade é essa? - quis saber também a mulher.

- Um jogo pra família toda! - foi a resposta, enquanto desembrulhava o trambolho, revelando uma mesa com um campinho de futebol e dois times de jogadores de madeira, presos por hastes transversais.

- Um totó! - reconheceu imediatamente o patriarca da família.

- Totó? O que é isso, vô? - perguntou o mais novo.

- Um jogo das antigas, pra nos divertirmos com a nossa maior paixão, o futebol - anunciou o pai, todo animado, enquanto desembrulhava a bolinha e a colocava em campo.

Avô de um lado, neto do outro e o pai como juiz, começou a peleja. Mais afeito à brincadeira, o decano da casa rapidamente fez 1 a 0.

- Pô, vovô, pega leve que ainda estou me acostumando com esse time de pernas de pau!

O pai deu uma gargalhada porque, de fato, em campo, todos os jogadores eram pernas de pau. Aos poucos, porém, o moleque foi pegando a manha e, numa manobra rápida, girando a linha de atacantes, de uma vez só, empatou a partida.

- Não vale, isso é pênalti! - queixou-se o avô. Não pode girar assim! Só chutar - protestou o ancião.

Investido na condição de árbitro de campo e de vídeo (já que o pequenino imediatamente convocou o VAR), o dono da casa reconheceu a razão do reclamante, mas, em prol da continuação do joguinho em paz, apelou para o bom senso de seu próprio pai:

- Como ele não sabia, vou validar o gol. Mas, advertiu, não pode mais dar "bicicleta" - que era como a jogada proibida sempre foi conhecida no totó.

Feito o alerta, a contenda seguiu animada e, com certa boa vontade do avô, bem mais afeito ao jogo, estava empatada em 5 a 5, quando a mãe apareceu, chamando a turma toda para jantar.

- Depois da sobremesa, somos eu e você, hein? - desafiou o pai.

Enquanto deglutia a deliciosa macarronada com salsichas que a mãe acabara de colocar na mesa, o moleque não se mostrou muito animado:

- Pai, joga com o vô! Não achei muita graça nisso, não. Prefiro o meu Fifa 20, no Xbox.

Encerrada a refeição, depois do cafezinho, o pai e o avô foram, então, disputar uma partida na mesa de totó. Entre um gol e outro, acabaram se lembrando do jogo do Flamengo com o Botafogo e sorriram amarelo. A família toda era de rubro-negros:

- Eu olho esses times de totó e me vêm à cabeça o tal jogo posicional do Domènec! - confessou o mais velho.

- Como esse catalão pode achar uma boa ideia atarraxar o Gabigol na ponta-direita e o Bruno Henrique, no comando do ataque? Não viu os teipes dos jogos do ano passado? A movimentação e os deslocamentos constantes da nossa dupla de ataque sempre foram o ponto alto do time - emendou o pai.

- E a barração do Gerson e do Arrascaeta? O Pedro Rocha até começou bem, mas o meio-campo, com Diego e Éverton Ribeiro por dentro, ficou sem criatividade alguma.

- Outra coisa que não entendo é a insistência dele com o Vitinho. É sempre o primeiro a entrar! O que esse Torrent vê nele?

- E a marcação alta, que dava tantos resultados? Sumiu...

O pingue-pongue de lamúrias levou à irritação e a uma triste constatação:

- Não fossem os dois pênaltis, marcados pelo VAR, na bacia das almas, nos dois últimos jogos, estaríamos amargando quatro derrotas em cinco jogos!

- Quem diria, de campeões brasileiros, da Libertadores, da Recopa Sul-Americana, da Supercopa do Brasil e do Carioquinha, desabamos, em cinco rodadas, para o time de pior campanha do Rio.

- Com 33,33% de aproveitamento, rendimento de rebaixado.

- E o cara chegou aqui, dizendo que não ia mudar nada rapidamente. A melhor atuação sob o comando dele foi na estreia, no primeiro tempo, contra o Atlético Mineiro, quando o time jogou exatamente como jogava nos tempos de Jesus.

- Pois é. Criou várias oportunidades. Só errou nas conclusões e fez um gol contra bobo. Aí, depois do intervalo, o cara começou a mexer e desandou geral.

Furiosos, decidiram, então, abandonar o totó e foram ver o menino jogar Fifa 20, no XBox, que nenhum dos dois dominava bem. Bastaram, porém, alguns minutos de observação para que concluíssem:

- O Flamengo de Jorge Jesus jogava como um time de videogame - reconheceu o pai.

- E o do Dome é uma equipe de totó... - emendou o avô.

Após um ano só de alegrias, a família já percebeu que o restante da temporada tende a ser tão dura e sem graça quanto uma bolinha de totó. Haja paciência...

Neymar está "off"

No primeiro tempo, o PSG teve as melhores oportunidades para marcar, mas não conseguiu balançar a rede de Neuer - um goleiraço, um monstro! Após o intervalo, o Bayern de Munique, muito mais time, em termos coletivos, tomou conta do gramado do Estádio da Luz e faturou a Orelhuda.

Neymar lutou muito, mas não brilhou como nos dois jogos anteriores. Terá que adiar, por pelo menos mais um ano, o sonho de conquistar a Liga dos Campeões, como protagonista máximo de seu time e, assim, lutar pelo posto de melhor jogador do mundo. Quem sabe na Copa de 2022, se mantiver daqui até lá a postura mais profissional que tem exibido?

Bingo!

Do radialista Washington Rodrigues, o Apolinho, na transmissão de Flamengo x Botafogo, pela rádio Tupi:

- Domènec está mais perdido que surdo em sala de bingo...

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Renato Maurício Prado