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Renato Maurício Prado

Corinthians venceu jogando como time pequeno

Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

23/07/2020 09h20

É um dia muito triste pra mim. Mas preciso escrever sobre futebol. Porque a bola voltou a rolar no Campeonato Paulista (apesar dos recordes de casos e mortes por lá e por todo o país) e o Corinthians derrotou o Palmeiras, por 1 a 0, graças a pelo menos cinco grandes defesas de Cássio e um frango colossal de Weverton.

Digo que meu dia é especialmente amargo porque, pela primeira vez, fui obrigado a sacrificar um dos meus cães, o simpaticíssimo vira-latas Banzé, que nos adotou, ao entrar aqui em casa durante uma obra, há cerca de quatro anos, e nunca mais saiu. Dos nossos corações.

Mas preciso escrever sobre futebol e elogiar a excelente atuação do goleiro corintiano. Ainda que suas grandes defesas me remetam, dolorosamente, à agilidade do meu Banzé, que se escafedia de casa pelos caminhos mais improváveis, cavando buracos na terra ou escalando, como gato, as grades que delimitam o terreno.

Detalhe: às vezes fugia e levava junto com ele um autêntico "bonde", formado por alguns de meus outros cães, que o seguiam, como líder, invadindo os terrenos dos vizinhos e chegando, certa vez, a quase matar do coração uma pobre senhora de idade, surpreendida em sua própria sala pela turma de peraltas, entre eles a minha gigantesca dogue alemã, a Jujuba...

Mas preciso escrever sofre futebol e o triunfo tão comemorado por Tiago Nunes, ao final de seu duelo com Vanderlei Luxemburgo. Vitória importante, mas obtida de forma que pouco tem a ver com o Corinthians. Jogando o segundo tempo inteiro como time pequeno, encolhido em seu próprio campo. Nem contra-ataques armou. Essa faceta covarde do ex-técnico do Athletico Paranaense é pra mim, uma novidade. Ruim.

Covardia, porém, nunca foi característica do Banzé. Malandragem, sim. Adorava arrumar confusão com outros vira-latas, quando passeávamos pelas estradas de terra dos arredores de nossa casa, em Itaipava.

Solto (nunca se acostumou a usar coleira), disparava na frente e provocava a cachorrada que encontrava pelo caminho. Perseguido, voltava correndo e se escondia atrás da nossa tropa de choque, formada pelo casal de pastores alemães, Rin Tin Tin e Jade, pela dogue Jujuba e pelo golden Cazuza, um cão valente como ele só. Banzé era um "estrategista" na arte da guerra...

Estrategista que Vanderlei Luxemburgo sempre se orgulhou de ser, mas ao menos nos últimos tempos e até agora não conseguiu demonstrar em termos de excelência no Palmeiras. Apesar do desconto que deve ser dado pelo longo tempo parado, seu time ainda parece longe do "encaixe" ideal. Bem ao contrário das virtudes que o treinador exaltou na entrevista, quando disse ver sinais promissores de evolução na equipe, que continua a carecer de criatividade no meio-campo e de objetividade no ataque - Luís Adriano e Roni, registre-se, foram muito mal no derby. E a defesa falhou rotundamente na marcação de Gil, no gol corintiano.

Mas Banzé, preciso confessar, de vez em quando também mandava mal. Eu e meu caseiro Antônio buscávamos fechar todos os buracos pelos quais escapava para seus passeios nas vizinhanças. Mas quando achávamos que tínhamos resolvido os problemas de suas fugas, me chegava pelo WhatsApp uma foto do sem-vergonha refestelado à beira de uma piscina de outra casa e a pergunta fatal:

- Esse não é o seu vira-latas?

E lá íamos nós, envergonhados, recolher o safado. Mas, como disse, preciso escrever sobre futebol. E no clássico paulista, o Palmeiras pode lamentar a contusão do ótimo lateral uruguaio Matias Viña, após um choque de cabeça com seu companheiro Patrick de Paula (bom jogador, hein?). Contusão que me fez lembrar quando Banzé, na volta de uma de suas muitas andanças, estatelou-se ao cair de uma marquise e espatifou o fêmur da perna traseira direita, em zilhões de pedacinhos.

Viña, do Palmeiras, graças a Deus, não parece ter sofrido nada grave. Mas o pobre Banzé teve que ser operado três vezes e mesmo assim ficou manquitola. Passou a andar em três patas, o que impossibilitou definitivamente as escapadas que tanto adorava.

Preciso escrever sobre futebol, mas o derby, sinceramente, não merece maiores considerações. Banzé, sim. Ele sofreu ainda outro grande baque quando seu amigo inseparável, o golden Cazuza, morreu de infarto, há cerca de um ano e meio. Quem disse que cães não sofrem de depressão? Banzé sofreu.

Estou convencido de que o maldito osteossarcoma que o acometeu, na base da mandíbula, veio muito por conta dessa tristeza. Fizemos tudo para combatê-lo, durante seis meses. Sem sucesso. Melhorava durante um tempinho, mas o tumor voltava, com a recidiva. Na última quarta-feira, prostrado, Banzé entrou em agonia e, diante da enorme dificuldade que tinha para respirar e de seu evidente sofrimento, decidimos pela eutanásia. Ele descansou, em casa, deitado no meu colo, enquanto lhe fazia o cafuné que tanto gostava.

Eu precisava escrever sobre o futebol. Me desculpem, mas o máximo que consegui foi isso. Era impossível não chorar a perda desse amigo e companheiro tão querido e especial. Na próxima segunda-feira, estarei de volta. Para escrever somente sobre futebol. Prometo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Renato Maurício Prado