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Renato Maurício Prado

Novo técnico do Flamengo só não pode ser um inventor

Gabigol e Jorge Jesus se abraçam após título carioca do Flamengo; treinador deixou o clube - Alexandre Vidal/Flamengo
Gabigol e Jorge Jesus se abraçam após título carioca do Flamengo; treinador deixou o clube Imagem: Alexandre Vidal/Flamengo
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

20/07/2020 04h00

Chegou aos prantos, com grossas lágrimas rolando em cascata e encharcando a máscara imunda, que cheirava a cachaça da pior qualidade:

"Chefia, ai Jesus, ai Jesus...", repetia, desconsolado.

Apesar da quarentena, que desaconselha visitas, confesso, já esperava por ele. Quando se oficializou a saída de Jorge Jesus do Flamengo, Bagá passou a encher a cara sem parar e, claro, resolveu subir a serra para alugar os meus ouvidos com seu desesperado desabafo.

Desde a venda de Zico para a Udinese, em 1983, quando destruiu o bar inteiro da esquina da Praça General Osório com a Visconde de Pirajá, em Ipanema, só porque o dono do estabelecimento era um italiano, eu não via o ciclope rubro-negro tão alucinado. Com razão, admito:

"O que será do Mengão agora, sem o nosso doce portuga?"

Tentei acalmar a fera, relembrando que o Flamengo sobreviveu até à saída do Galinho de Quintino, perda infinitamente maior que a de Jesus. Mas o sacrossanto crioulo não se conformava:

"Passamos dois anos na seca, chefia! Esqueceu? Só voltamos a ganhar o Carioquinha e um Brasileiro quando o nosso Messias voltou da Itália. Lembra da cruzada insana que comandei até que isso acontecesse? E olha que quando o Zico se foi, repatriamos o Tita, do Grêmio, para jogar com a 10, e o restante do time era quase o mesmo".

Como esquecer? Ainda assim, não acho que a situação atual seja tão dramática. Com todo o respeito ao magnífico trabalho de Jorge Jesus, sua substituição é um milhão de vezes mais fácil do que foi aquela de Zico, maior ídolo e maior craque da história do Mais Querido.

Prefiro comparar a perda do vitorioso treinador português à demissão do igualmente revolucionário Cláudio Coutinho que, no tricampeonato estadual (78/79/79) e no Brasileiro de 1980 (o primeiro da história do clube), forjou a base da equipe que devolveu o famoso 6 a 0 ao Botafogo e foi campeão carioca, da Libertadores e do Mundo, em 1981, além de, no início do ano seguinte, ganhar também o Brasileiro.

"O capitão saiu porque perdeu o tetra estadual com aquele gol do Anapolina, do Serrano, né? E porque fez a tal lista de dispensas que, entre outros, tinha o Adílio, o Rondinelli e o Uri Geler. Tem razão, chefia. A saída do Coutinho também foi traumática. Primeiro, trouxeram o 'Dinossauro' [Dino Sani], mas não deu muito certo, e foi com o Carpegianni que a coisa voltou aos trilhos e deslanchou", recordou o gigante, um pouco mais conformado.

E por que deu certo? Porque se manteve o elenco, que era excepcional, como o de hoje. Este é o desafio do Flamengo após a saída de Jesus. Conservar o grupo e não cair no canto de sereia do Benfica, que quer Bruno Henrique, Gérson e William Arão - os dois primeiros, principalmente, peças chave do time campeão brasileiro e das Américas.

"Tô pensando em ir lá na Gávea dar uns sopapos nesse presidente safado do Benfica! Já não basta ter nos tirado o Jesus?", voltou a se enfurecer o colosso de ébano.

Acalmei a besta-fera, dizendo-lhe que as multas rescisórias são altas e que o vice-presidente de futebol Marcos Braz (o único que o Bagá gosta da atual diretoria) garantiu que não haverá nem um euro de abatimento caso o clube de Lisboa esteja mesmo disposto a levar algum craque rubro-negro.

"É o mínimo que se espera! O mínimo! E tratem de contratar logo o novo treinador, pois o Brasileirão está aí. E a Libertadores também!", empolgou-se o negão.

Ao que tudo indica, vem mais um estrangeiro, mas seja o substituto de que nacionalidade for, o fundamental é que tenha inteligência e humildade suficientes para preservar a base do time supercampeão sob o comando de Jesus, bem como sua forma encantadora de jogar. Qualquer mudança deve ser feita com extremo cuidado, muitos treinos e aos poucos.

"Tenho medo, chefia, imagina se o cara chega, querendo colocar mais um cabeça-de-área, prender os laterais na defesa e barrar o Arrascaeta? E se ele não se der bem com o Gabigol?"

Risco, é óbvio, sempre há. Por isso, tudo que o Flamengo precisa evitar neste momento é a contratação de um "inventor" - um daqueles treinadores que não se contenta em dar seguimento a um trabalho bem-sucedido e começa logo a querer mudar, por mudar, só para imprimir uma marca própria.

Se não trouxer um professor Pardal e mantiver seus principais jogadores, o atual campeão brasileiro, da Libertadores, da Recopa Sul-Americana, da Supercopa do Brasil e do Carioquinha seguirá favorito em todas as competições que disputar. Mesmo sem Jorge Jesus e sua comissão técnica.

Como dizia Evandro Carlos de Andrade, meu inesquecível diretor no jornal O Globo, "de insubstituíveis, o cemitério São João Baptista está cheio". Resta, então, a eterna gratidão ao português, expressa pelo Bagá, em seu melhor estilo de torcedor apaixonado e visceral.

"Muito obrigado, Mister! Você foi um gigante! Mas, a partir de agora, quero que o seu Benfica se dane! Vou torcer pro Porto e pro Sporting! Se um dia você voltar ao Mengão, quem sabe, fazemos as pazes!"

O medonho titã rubro-negro é passional! Queriam o que?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Renato Maurício Prado