PUBLICIDADE
Topo

Landim desrespeita a torcida do Flamengo e joga dinheiro fora

Rodolfo Landim, presidente do Flamengo - Reprodução / Fla TV
Rodolfo Landim, presidente do Flamengo Imagem: Reprodução / Fla TV
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

06/07/2020 04h00

Se o presidente do Flamengo tivesse um pingo de humildade e, principalmente, respeito aos mais de 40 milhões de torcedores do clube que dirige, teria ajoelhado no milho e pedido desculpas, admitindo o erro grosseiro de sua gananciosa decisão de cobrar R$ 10 pelo ingresso virtual e transmitir a partida semifinal da Taça Rio por um aplicativo péssimo, que transformou em um inferno a vida dos rubro-negros que tentavam assistir ao jogo contra o Volta Redonda.

Rodolfo Landim, porém, não é humilde nem tampouco se mostra minimamente preocupado em respeitar a maior torcida do país - sobremaneira a sua majoritária parcela mais pobre. Eis o que disse, pouco depois do final da vitória sobre o Volta Redonda, em entrevista à Fla TV que, naturalmente, não o contradisse:

"O sucesso foi tão grande que acabou criando um gargalo no processo de pagamento da plataforma. Mesmo assim, tivemos em torno de 5 mil pessoas no exterior. Aqui no Brasil, como houve muita gente comprando perto da hora do jogo, deu esse problema. No total, foram 100 mil pessoas que acabaram podendo assistir ao jogo na plataforma (Mycujoo), mas devido às centenas de milhares que acabaram não conseguindo ter acesso, decidimos liberar o sinal para todo mundo" (através da Fla TV).

O tal "sucesso" a que o presidente se refere, na verdade, foi um fracasso. Gigantesco. Retumbante. Que obrigou os dirigentes a fazerem exatamente o que não queriam: liberar o acesso gratuito à transmissão pela Fla TV, que teve, no pico, pouco mais de 1,8 milhões de espectadores simultâneos (contra o Boavista, chegaram a ser 2,2 milhões). Em sua arrogância, entretanto, o cartola rubro-negro preferiu distorcer a realidade, insistindo que sua estratégia estava certa e o desastre, que não admite, serviu de aprendizado.

Antes servisse, mas a esperança de que essa diretoria tenha aprendido algo, diante do que se tem visto desde que assumiu, é remota. Landim, Bap e cia, executivos bem-sucedidos no meio empresarial, acham que sabem tudo de tudo. Mas das particularidades do mundo da bola, é público e notório, não sabem quase nada. Não fosse a experiência e a malandragem boleira de Marcos Braz no futebol, não haveria Jorge Jesus, nem o excelente ambiente no elenco, nem tampouco o timaço montado para e pelo português.

No início do ano, o Flamengo jogou R$ 18 milhões pela janela, ao considerar "merreca" o valor que a Rede Globo lhe pagaria pelo Estadual. E nem mesmo a crise causada pela pandemia foi capaz de fazer sua direção entender que, na retomada do campeonato, a cota de cerca de R$ 1 milhão por partida, que lhe foi oferecida, era um grande negócio para os cofres do clube e um enorme presente para seus torcedores. Seriam no mínimo R$ 5 milhões (podendo se transformar em R$ 7 milhões, caso o Fluminense vença a Taça Rio), além de algo de valor inestimável: a alegria de sua torcida, Brasil afora, podendo se deleitar em ver o time de Jesus na TV.

Da atrapalhada maneira que o rubro-negro está operando, não embolsará nem perto disso. Contra o Boavista, faturou pouco mais de R$ 800 mil brutos e contra o Volta Redonda, nem tanto deverá conseguir - pois teve que abrir a transmissão e agora será obrigado a ressarcir quem pagou pela exclusividade no Mycujoo.

Resta saber o que fará na final da Taça Rio, se o sorteio lhe der o mando de campo. Caso a bolinha aponte o Fluminense, a Ferj já anunciou que exigirá judicialmente que a Globo transmita a partida - algo que, certamente, a televisão não contestará. Neste caso, o Flamengo ficará a ver navios...

Em tempo: assumindo que em média o rubro-negro teve, no streaming, cerca de 2 milhões de telespectadores em cada partida pós-pandemia, não custa lembrar que Flu x Botafogo atingiu 17 pontos de média de audiência, no Rio. Cada ponto, no mercado carioca, equivale a cerca de 200 mil pessoas. Ou seja, a outra semifinal foi assistida por muito mais gente, aproximadamente 3,4 milhões de espectadores.

Os jogos do Flamengo, notadamente em fase decisivas, costumam alcançar números superiores a 30 pontos no ibope: são mais de 6 milhões diante da telinha, somente no Rio. Os patrocinadores da camisa rubro-negra estarão satisfeitos com essa exposição bem menor? Afinal, pagam para ser vistos, idealmente, na TV aberta, não em serviços de streaming. que podem ser o futuro, mas ainda travam, dificultam o acesso, o pagamento e por aí vai...

Com a mão na taça

Se a diretoria rubro-negra anda distribuindo caneladas no mundo dos negócios - é bom lembrar, nos próximos cinco anos, a tão festejada MP não serve para nada, a não ser os Estaduais -, o time de Jorge Jesus segue de vento em popa, firme rumo a mais dois títulos: o da Taça Rio e o do próprio Estadual. Diante do Volta Redonda, esbanjou a tradicional categoria e só não disparou uma goleada, porque o goleiro Douglas, do Voltaço, teve grande atuação, impedindo pelo menos quatro gols, com grandes defesas.

Gabigol e Bruno Henrique voltaram a brilhar, com dois passes de Gabriel para Bruno balançar as redes. Que dupla sensacional! Gerson também jogou uma barbaridade e, na verdade, todos os rubro-negros estiveram muito bem. Michael, Vitinho, Diego, Thiago Maia e Pedro entraram no segundo tempo e mantiveram o alto nível.

O Flamengo é favoritíssimo contra um Fluminense, que ainda não balançou as redes desde que o campeonato foi retomado. Mas é bom que os flamenguistas se lembrem: decisão é sempre um jogo à parte e sendo Fla-Flu, então, qualquer prognóstico mais açodado é desaconselhável.

A palavra de Deus

Perguntado sobre toda essa confusão em torno dos R$ 10 cobrados pela diretoria do Flamengo, na plataforma Mycujoo, Zico foi categórico:

- Não era hora disso.

Renato Maurício Prado