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O "Me engana que eu gosto" voltou

Thiago Ribeiro/AGIF
Imagem: Thiago Ribeiro/AGIF
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

29/06/2020 04h00

Goleada acachapante do Botafogo, vitória indiscutível do Vasco, derrota inesperada e doída do Fluminense. Em meio à pandemia mais mortal da história, com recorde de mortos e de novos casos, notadamente no Rio de Janeiro, o "Me engana que eu gosto" está de volta, agora a todo vapor, com a inacreditável e irresponsável promessa do prefeito de permitir a presença da torcedores, a partir de 10 de julho, algo que ainda não acontece em nenhum dos principais campeonatos europeus, disputados em países onde a pandemia do coronavírus está muito mais controlada.

Se há anos o Carioquinha já não serve de parâmetro para coisa alguma, na atual temporada, por conta da epidemia, a disparidade entre grandes e pequenos se tornou ainda maior e sua inutilidade mais evidente. Praticamente todos os times de menor investimento perderam jogadores durante a paralisação de mais de 100 dias. Alguns, com o Madureira, que vinha até bem na primeira parte do campeonato, simplesmente se desmantelaram e não contam mais nem com 22 profissionais no elenco. Seus confrontos contra os quatro grandes valem menos que coletivos entre reservas e titulares.

Sim, os três gols do cruz-maltino Cano, os dois do alvinegro Pedro Raul e as atuações do jovem vascaíno Vinícius e dos botafoguenses Luís Henrique e Caio Alexandre foram destaques de seus jogos e podem até ter empolgado os torcedores menos exigentes. Mas, vamos falar sério? Nesse torneio morfético, não há motivo algum para euforia.

Esta lamentável edição do Estadual do Rio só vale alguma coisa para Fluminense, Vasco e Botafogo porque nela está o Flamengo, atual campeão brasileiro e da Libertadores e até prova em contrário a melhor equipe em atividade no país no momento. Em possíveis confrontos com o rubro-negro, aí sim, se pode fazer alguma avaliação um pouco mais séria — embora qualquer análise baseada num jogo só não seja definitiva.

Nos confrontos realizados até agora, o Flu foi o único a obter uma vitória contra o Flamengo, mas diante de um time sub-20. Enfrentando os titulares rubro-negros, vascaínos, botafoguenses e tricolores acabaram derrotados. Podem ter novas chances agora, na fase final da Taça Rio e numa eventual e cada vez mais difícil decisão extra. Pelo andar da carruagem, é pouco provável que o carioqueta do Rubinho tenha mais que três rodadas.

O Eurico da Gávea

Luiz Eduardo Baptista, o Bap, vice-presidente de relações externas do Flamengo e alter ego do presidente Rodolfo Landim, é bem mais do que um personagem polêmico. Ex-companheiros na Sky (que presidiu até outubro de 2018) e sócios, membros da diretoria e dos conselhos do Flamengo costumam defini-lo como uma pessoa egocêntrica, insensível, irascível e de dificílimo trato. A torcida, em sua maioria, não gosta dele — e os muros da Gávea já foram até pichados pedindo sua saída.

É sobejamente conhecida sua disputa de poder com o vice-presidente de futebol, Marcos Braz, o maior responsável pela contratação de Jorge Jesus e pelo excelente trabalho desenvolvido com o elenco do Fla. Se dependesse apenas da vontade de Bap, a despeito de todos os títulos conquistados, Braz já teria sido defenestrado, como foi Paulo Pelaipe.

Sabidamente avesso aos jornalistas, Bap, nos últimos dias, resolveu dar entrevistas. E foi falando a youtubers rubro-negros (sua plateia cativa e predileta) que resolveu se soltar. Primeiro, disse que chegou a pensar seriamente em contratar um pistoleiro para matar Lucas Pratto (confessou que desistiu da ideia por medo de ser preso); depois, contou que ele e seus pares achavam que Abel, quando dirigia o Flamengo, estava "de sacanagem", "ou bêbado, ou drogado".

Falou esses absurdos, sem pensar? Não creio! Pode-se acusar o controverso cartola de muitas coisas, menos de ser burro. O que ele visava era agradar aos torcedores mais fanáticos (aqueles que acham que vale até cometer crimes para vencer) e aos muitos que nunca morreram de amores pelo treinador — que, é importante que se lembre, ele próprio fez questão de contratar, no início do ano passado. Bap não admitirá agora, mas é candidatíssimo a suceder Landim e sabe que seu maior adversário é o simpático e popular Marcos Braz.

É duro constatar, mas, quem diria, o Flamengo tem agora um "eurico miranda" pra chamar de seu. Que tristeza! Justamente num dos momentos mais gloriosos de sua história.

Renato Maurício Prado