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Renato Maurício Prado

Yaya Touré e os micos de Botafogo e Vasco

Visual China Group/Getty Images
Imagem: Visual China Group/Getty Images
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

28/05/2020 04h00

Em julho de 2004, com dois meses de salários dos jogadores em atraso, endividado na praça até a alma e último colocado no Campeonato Brasileiro, o Flamengo contratou o folclórico artilheiro Dimba, por R$ 1 milhão, provocando uma revolta no departamento de futebol - Júnior, então diretor executivo, pediu demissão e vários jogadores, entre eles o goleiro Júlio César, criticaram publicamente a negociação, argumentando, com razão, que tal dinheiro deveria ter sido utilizado para saldar as dívidas com o elenco. Até Zico, sem cargo no clube, se juntou às críticas.

Dimba foi um fiasco (entrou na lista de dispensas, em 2005) e, apesar do quase motim no elenco, o Flamengo escapou da degola, acabando em décimo sétimo lugar naquele Brasileiro (caíram Criciúma, Guarani, Vitória e Grêmio). Sua contratação, porém, se tornou símbolo de má gestão e é dela que me lembro enquanto assisto agora a essa novela farsesca envolvendo o interesse de Botafogo e Vasco pelo veteraníssimo marfinense Yaya Touré (37 anos), que não joga em alto nível faz muito tempo e se deu ao luxo de esnobar os dois.

O absurdo de dois clubes financeiramente quebrados acharem que a contratação de um velho (e caro) medalhão pode ser a saída para o profundo buraco em que se meteram é a maior prova de que tão cedo não sairão do profundo buraco em que se meteram.

Não custa lembrar, nos primeiros anos de seu bem-sucedido projeto de recuperação financeira, o Flamengo dispensou Vagner Love e o técnico Dorival Júnior, por causa de seus altos salários, e montou o time com "pérolas" como Val, Bruninho, Paulinho e quejandos, contratados a preço de banana. A primeira grande contratação rubro-negra, o peruano Paulo Guerrero, só aconteceu após dois anos e meio da administração Bandeira de Mello, em 2015 (ele assumira em 2013). E resultados esportivamente relevantes só vieram no ano passado, já sob a administração Landim.

Trazer veteranos com altos salários, enquanto o restante do elenco sequer recebe em dia, é uma conhecida receita para o fracasso. Nem Seedorf, que esportivamente até trouxe alguns bons resultados para o Botafogo, fugiu à regra. Foi campeão carioca uma vez e ajudou a classificar o Glorioso para a Libertadores, após quase duas décadas de ausência no torneio, mas nunca teve, de fato, um bom ambiente no elenco. Acabou saindo seis meses antes do final de seu contrato e processou o clube na Justiça, ganhando uma indenização de R$ 1 milhão.

Agora, o Botafogo chegou até a fazer um vídeo para anunciar a contratação de Touré, mas levou uma perna de anão de um candidato da próxima eleição do Vasco (o ex-advogado de Edmundo, Leven Siano), que também acabou esnobado pelo marfinense. Ambos deveriam levantar as mãos para o céu e agradecer. E tratar de pensar com os pés no chão, seja como S.A. ou clube social.

O Flamengo já mostrou o caminho e ele começa obrigatoriamente com um rigoroso saneamento financeiro e não aventuras sem sentido. Pagar os salários em dia é o primeiro e obrigatório passo. Nesse contexto, Yaya Touré não é solução, mas um baita problema.

Além de um tremendo mico.

Não pagou? Não compra mais

O Cruzeiro já perdeu seis pontos e pode perder mais seis - o que praticamente inviabilizaria sua volta à Série A no ano que vem. Fruto de uma das administrações mais criminosas da história do nosso futebol. Está mais do que na hora de a Fifa e a CBF proibirem transações de clubes que são assumidamente caloteiros, como o caso do mineiro. Comprou e não pagou? Não pode mais contratar ninguém até que a dívida seja quitada. Simples e eficiente. Seria até uma forma de evitar que cartolas inescrupulosos, como os que dirigiram o Cruzeiro, nos últimos anos, continuassem a afundar o clube que, posteriormente, abandonam livre, leve e soltos, como se nada tivesse com isso.

Exemplo desastroso

Na entrevista que deu ao Fox Sports Rádio, o presidente Rodolfo Landim reconheceu que a curva de contágio do novo coronavírus no Brasil (e, sobremaneira, no Rio) ainda é ascendente, mas mesmo assim acha que o futebol deve voltar logo e pode ser até um exemplo para o resto da sociedade - por, teoricamente, estar seguindo todos os cuidados e protocolos médicos exigidos pela Saúde.

Que piada! De mau gosto. Exemplo positivo seria exatamente o contrário: incentivar o cidadão a ficar em casa, como orienta a Organização Mundial da Saúde. Mas Landim, Bap e seus pares, como de hábito, dão mostras de que não estão nem aí para as mais de 25 mil vidas que já se perderam por aqui. Em breve, ultrapassaremos o número de mortes na Espanha e na França, que já estão em fase descendente no contágio (passaram pelo pior há cerca de um mês) e somente agora começam a discutir a volta do futebol.

O presidente diz que faz tudo o que for possível em prol do Flamengo. Diante disso, lhe proponho um simples exercício matemático. Levando-se em conta que 20% da população brasileira torcem pelo Flamengo (mais de 40 milhões, portanto), é factível imaginar que 20% dos mortos (mais de 25 mil) são também de torcedores do Flamengo, o que significa, por baixo, que 5 mil rubro-negros perderam a vida até o momento. Como Landim consegue achar que há clima para jogar bola e gritar gol?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Renato Maurício Prado