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A nova versão do "Caixão-98"

Marcelo Crivella, prefeito do Rio, com Rubens Lopes, presidente da Ferj - Ferj
Marcelo Crivella, prefeito do Rio, com Rubens Lopes, presidente da Ferj Imagem: Ferj
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

25/05/2020 04h00

Após reunião com o prefeito Marcelo Crivella, na Federação do Rubinho (que consegue a proeza de me faz sentir saudades do Caixa D'Água!), os clubes do Rio foram autorizados a retomar os treinamentos a partir de terça-feira, dia 26, e o campeonato estadual "em meados de junho", possivelmente no dia 14 - período previsto pelos especialistas para o pico da pandemia no estado. Seria cômico, não fosse trágico.

O Rio de Janeiro já conta quase 4 mil mortos e o número de óbitos nos últimos dias têm superado até os de São Paulo, que já contabiliza 6 mil vítimas da Covid-19 - no Brasil são mais de 22 mil. Voltar a jogar futebol no meio dessa inigualável mortandade, além de aumentar desnecessariamente o risco de contágio, é um absurdo desrespeito às famílias enlutadas e àqueles que ainda batalham pela vida, nas gigantescas filas de espera de atendimento dos hospitais.

Pior ainda foi ouvir as estapafúrdias justificativas do presidente do Vasco, o médico ortopedista Alexandre Campello - aquele que só chegou ao cargo após trair seu vitorioso companheiro de chapa, aliando-se a Eurico Miranda, na eleição do Conselho Deliberativo.

"A questão passa a ser mais política, do sinal que estamos dando. Estamos mostrando que o futebol está na vanguarda, criou protocolos, está dando exemplo", disparou, sem o menor constrangimento.

Nesse festival de sandices, ninguém se deu ao trabalho de abordar a posição antagônica de Fluminense e Botafogo, que nem sequer foram ao encontro com Crivella e são ferrenhamente contrários à volta do Estadual e até dos treinos, em meio à pior tragédia sanitária do país, em geral, e do Rio, em particular.

De reunião de domingo à tarde, na Ferj, participaram apenas Flamengo, Vasco, Cabofriense e Boavista. Os demais pequenos, certamente, obedecerão ao Rubinho, que os tem no cabresto. Mas se Fluminense e Botafogo se mantiverem firmes, que campeonato será esse?

Uma nova versão do "Caixão 1998"? Aquele campeonato marcado pela total esculhambação promovida pelo presidente da Federação do Rio, Eduardo Vianna, o Caixa D´Água, em conluio com o seu inseparável parceiro Eurico Miranda?

Um torneio feito sob medida para o Vasco, em seu centenário, chegando ao absurdo de ter três clássicos decididos por W.O, por causa de adiamentos de datas que só interessavam ao time de São Januário. Recordando: o Botafogo perdeu assim para os cruz-maltinos, Flamengo e Fluminense não compareceram ao Fla-Flu (ambos foram considerados derrotados por W.O) e, por fim, o rubro-negro se recusou a entrar em campo para enfrentar o Vasco, na última rodada. Em suma, uma tremenda e vergonhosa zona!

Pensando bem, é isso: ao que tudo indica teremos uma versão moderna do "Caixão" (apelido tragicamente ainda mais adequado, nos dias de hoje) e novos casos de W.O, nas duas rodadas que restam.

No final de tudo, restará um título vergonhoso que será para sempre acompanhado não de um asterisco, mas de uma cruz. Em homenagem ao enterro da sensatez, da sensibilidade, da solidariedade e do próprio espírito esportivo. Seus coveiros têm nome e sobrenome. E todos sabem quem são.

Renato Maurício Prado