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O nó tático do Papai Joel no "Profexô"

Renato Gaúcho (7) marca o histórico gol de barriga e sai para comemorar; rubro-negros observam o lance no Maracanã lotado - Site Oficial do Fluminense
Renato Gaúcho (7) marca o histórico gol de barriga e sai para comemorar; rubro-negros observam o lance no Maracanã lotado Imagem: Site Oficial do Fluminense
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

18/05/2020 04h00

A reprise mais badalada de domingo, para os cariocas, foi a da Rede Globo, com a dramática final da Libertadores do ano passado. Antes dela, porém, revi, na Band, uma decisão bem mais antiga, mas também eletrizante: o Fla-Flu do Estadual de 1995, com o famoso gol de barriga de Renato Gaúcho, garantindo o título ao tricolor. Que delícia ouvir de novo a narração de Januário de Oliveira, com os comentários de Gérson, canhotinha de ouro. Como é bom escutar as transmissões originais.

Assisti a esse jogo na época e as lembranças que tinha dele foram confirmadas. O primeiro tempo teve um amplo domínio do Fluminense que, embora no papel tivesse um time tecnicamente inferior ao do adversário, estava muito mais bem armado e sabia exatamente o que fazer em campo, enquanto o rubro-negro dependia muito mais do talento individual de seus jogadores. O placar de 2 a 0, a favor do tricolor, nos 45 minutos iniciais, foi até modesto, diante do que se viu em um gramado encharcado por um temporal. Renato Gaúcho e Leonardo marcaram.

Importante lembrar: era o ano do centenário do Flamengo e Romário, um ano antes campeão do mundo e eleito o melhor jogador do planeta, fora contratado numa negociação tão espetacular quanto surpreendente. Seu companheiro de ataque seria Sávio, o "Anjo louro da Gávea", e nenhum outro rival carioca contava com dupla tão badalada. Além disso, o time era treinado por Vanderlei Luxemburgo, bicampeão brasileiro e paulista, nos dois anos anteriores, com o Palmeiras. Tudo parecia perfeito para uma temporada gloriosa. Mas...

A "química" entre o trio mostrou-se desastrosa. Os egos sabidamente inflados de Romário e Luxemburgo provocaram, desde o início, sérios problemas de relacionamento entre eles, com péssimos reflexos em todo o elenco. O Baixinho não queria dividir o papel de protagonista absoluto com ninguém e logo ficou clara que sua animosidade fora estendida também a Sávio, atleta tímido e bem comportado, bem no estilo predileto do treinador, e autêntico antônimo do Baixinho fora de campo.

O resultado final dessa mistura explosiva foi que o Flamengo nunca chegou a ter um ambiente propriamente saudável na Gávea, enquanto, nas Laranjeiras, Joel Santana, com seu jeito de paizão, unia um grupo de poucas estrelas - Renato Gaúcho, já em processo de decadência, era o único nome realmente famoso. O técnico conseguiu assim tirar daquele time 100% do que ele podia dar. Joel vinha de um bicampeonato estadual com o Vasco em 92 e 93. O tri cruz-maltino, em 94, já fora conquistado sob o comando de Jair Pereira.

Voltando, então, ao jogo, o que se viu no segundo tempo daquele Fla-Flu foi um Flamengo desordenado lançar-se ao ataque de qualquer maneira, pressionando até chegar a um empate que parecia improvável - antes dos dois gols rubro-negros, o Fluminense teve e desperdiçou pelo menos duas oportunidades de liquidar a partida, em rápidos contra-ataques.

Não o fez, Romário, que não jogava bulhufas, aproveitou uma bola vadia para, enfim, balançar a rede tricolor pela primeira vez na carreira (nunca marcara no Flu em seus tempos de Vasco) e Fabinho empatou pouco depois. O tão sonhado título no ano do centenário parecia, então, próximo, até porque o tricolor passou a jogar com um a menos, após entrada criminosa de Lira em Fabinho. Antes, em briga, na comemoração do gol de Romário, tinham sido expulsos Marquinhos, do Fla, e Sorlei, do Flu.

Aos 42 minutos, porém, numa jogada de Aílton nas costas de Branco (nitidamente fora de forma e acima do peso), a bola acabou cruzada e Renato Gaúcho, de barriga, transformou o sonho rubro-negro em pesadelo. O ano do centenário terminaria sem títulos e com mais uma enorme frustração. No meio da temporada, para a disputa do Brasileiro, o clube contrataria ainda Edmundo, o Animal, formando aquele que os dirigentes e a torcida esperavam seria "o melhor ataque do mundo".

Mesmo sem Luxemburgo (demitido ao final do Carioca), a fogueira de vaidades da Gávea continuou queimando alto e o fracasso do trio, uma vez mais, foi alimentada pelo conflito de personalidades extremamente narcisistas (Romário e Edmundo), tornando o ambiente insuportável e os resultados esportivos desastrosos.

No Brasileiro daquele ano, o rubro-negro acabou na vigésima primeira colocação, só não sendo rebaixado porque naquele ano o regulamento determinava que apenas dois times (o último e o penúltimo) cairiam. Na reta final do campeonato, o Animal fraturou o pé, jogando contra o Internacional. Pior, embriagado, envolveu-se num acidente que matou três pessoas, no Rio - e assim encerrou sua triste passagem na Gávea.

Já o Fluminense, de Joel Santana, com Renato Gaúcho à frente, chegaria às semifinais do Brasileiro, sendo eliminado pelo Santos, a quem derrotou por 4 a 1, no jogo de ida, mas acabou goleado por 5 a 2, na volta - os santistas levaram vantagem por ter somado mais pontos em todo o torneio. O campeão seria o Botafogo, do técnico Paulo Autuori, do artilheiro Túlio Maravilha e do presidente Carlos Augusto Montenegro.

Em 1996, Joel trocaria as Laranjeiras pela Gávea e o Flamengo, finalmente, voltaria a ser campeão. Invicto. Com Romário de artilheiro. Em suma: Papai deu um nó tático no Profexô. Dentro e fora de campo.

Vontade divina

Revendo a final da Libertadores, com a calma e o distanciamento possíveis após alguns meses da conquista, me convenci de que, ao contrário do que tanto se falou, após a épica e heroica virada rubro-negra, o River Plate não foi tão superior ao Flamengo até os 42 minutos do segundo tempo, quando Gabigol balançou a rede pela primeira vez.

Na verdade, o jogo foi equilibradíssimo durante a sua maior parte. Os 10 primeiros minutos, inclusive, com predomínio dos rubro-negros, mesmo sem terem conseguido criar chances claras de gol. Nesse período, a bola praticamente não saiu do campo de defesa dos argentinos.

A partir daí, começa o melhor momento do River na partida. Cria duas jogadas de perigo pelas pontas e, aos 14 minutos, marca, após bobeada homérica de Wiliam Arão e Gerson - o famoso "deixa que eu deixo", antes de a bola chegar, limpa, para o chute certeiro de Borré. O gol abala a equipe de Jesus, que passa a não conseguir mais se organizar no meio-campo, sucumbindo à marcação do River, que passa a ser avançada, obrigando-a a provar de seu próprio veneno.

Depois dos 30 minutos, contudo, o equilíbrio volta ao campo. E o Flamengo ao ataque, com algumas boas jogadas de Rafinha, Arrascaeta, Gérson e Bruno Henrique. Mas as conclusões não chegam a ameaçar o gol de Armani. E Gabigol, mesmo lutando muito, segue levando clara desvantagem no duelo com Pinola. Aos 36 minutos, o River assusta, num chute perigoso de Palácios de fora da área. E foi só.

No segundo tempo, o Flamengo volta determinado a empatar. Com um minuto, Gabigol chuta e Armani encaixa. Aos 11, numa jogada só, Arrascaeta, Gabigol e Éverton Ribeiro quase marcam, em boa jogada iniciada por Bruno Henrique, na linha de fundo, pelo lado esquerdo.

O River também tem suas chances, aos 21 e aos 22, mas os chutes vão para fora. E o Flamengo volta a ameaçar, aos 25, após arrancada de Bruno Henrique acabar em falta e essa ser cobrada por Diego, na área, onde Rodrigo Caio não consegue dominá-la bem para chutar. Dois minutos depois, Filipe Luis chuta forte, mas a bola sobe demais. O jogo é absolutamente parelho e a torcida rubro-negra começa a cantar forte, acreditando na virada.

Nova boa trama do Flamengo, aos 30 minutos do segundo tempo, e Gabigol toca para Éverton Ribeiro cruzar e Arrascaeta, de bicicleta, tentar uma conclusão que espirra e sobra para Diego chutar forte, por cima do travessão. Três minutos mais tarde, o mesmo Diego faz lindo passe para Gabigol entrar livre, pela esquerda e errar o cruzamento para Bruno Henrique.

Aos 35, Filipe Luís erra dentro da área e Palácios, livre, chuta pra fora. O jogo, apesar de muito truncado por faltas, é franco, de parte a parte. Aos 42, enfim, Diego faz o primeiro corte, no toque de Prato, Arrascaeta completa o serviço e a bola chega a Bruno Henrique, para a grande jogada que acaba em passe para Arrascaeta e cruzamento na medida para Gabigol empatar.

O River ainda cria um ataque perigoso a seguir (invalidado por impedimento), e a bola chega a Rodrigo Caio, que a toca para Diego. Um lançamento de mais de 30 metros e... o resto é história.

Decididamente, o Flamengo não foi dominado o tempo todo, nem ganhou apenas graças a três minutos "mágicos". A final foi dura. Duríssima. Qualquer um dos dois poderia ter vencido. Ganhou o time de Jesus. Como contestar a vontade divina?

Renato Maurício Prado