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Gélidos corações rubro-negros atacam de novo

Thiago Ribeiro/AGIF
Imagem: Thiago Ribeiro/AGIF
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

20/04/2020 04h00

Toca o celular e, quando atendo, ouço aquela malfadada musiquinha que anuncia uma chamada a cobrar. Penso logo, ou é golpe ou é o...

- BAGÁ!

Do outro lado da linha, o ciclope rubro-negro se identifica com seu tradicional vozeirão roufenho. Sim, aceito a chamada. E antes que eu pergunte qualquer coisa, a besta-fera dispara uma cantilena de lamentações:

- Chefia, não aguento mais de saudades do Mengão! Já tô vendo até teipe de jogo dos tempos bicudos de Fábio Baiano, Márcio Araújo, Toró, Welington, Fernando Pontapé e outros pernas-de-pau! É grave a crise!

O negão sofre de uma tremenda crise de abstinência que, claro, não sabe o que é. Mas apesar da imensa saudade que sente de Gabigol, Bruno Henrique, Arrascaeta, Rafinha, Gérson etc, o colosso de ébano não se mostra insensível ao grave momento e distingue o que é certo e errado em meio à essa insana pandemia.

- Amigo, tô louco pra rever os apóstolos de Jesus em campo, mas não entendi essa dos cartolas do Mengão pedirem ao governador pra voltar logo aos treinos e retornar os jogos com os portões fechados, no fim do mês que vem! O bicho tá pegando no mundo inteiro e a coisa aqui, ainda no comecinho, já matou dois mil e quinhentos! Querem entregar o ouro ao bandido, ao tal do vírus? Eu, hein! Só pensam em dinheiro?

Como de hábito, Bagá está prenhe de razão. Em quarentena, confinado em seu minúsculo barraco de um cômodo só, na comunidade do Pavão/Pavãozinho, em Ipanema, o hediondo ser me confessa que vive apavorado.

- Os vizinhos tossem ou espirram aqui por perto e eu me borro de medo. Os grã-finos dos apartamentos lá embaixo não fazem ideia do que é viver numa favela. Doença aqui se espalha feito fogo em papelão, meu irmão.

Pergunto se está lavando bem as mãos com água e sabão e se usa máscara e álcool gel e o monstro solta uma gargalhada sinistra:

- Chefia, álcool aqui tem sempre de sobra. Na caninha braba que compro na birosca do seu Zé. Higieniza por dentro e por fora. Máscara na rua é perigoso. Vai que os traficantes pensam que é "alemão" (polícia ou bandido de outra facção)...

Melhor voltar a falar do Flamengo. E Bagá me faz um questionamento que não é só dele, mas de muitos flamenguistas que não se satisfazem somente com os resultados dentro de campo e sabem que o clube tem uma grandeza histórica que não pode ser diminuída por mesquinharias:

- Chefia, esses caras que dirigem o Mengo às vezes parecem não que não têm coração, né? Até hoje não se acertaram com todas as famílias dos meninos do ninho; cortaram, sem dó, os prêmios dos funcionários mais humildes do futebol; relutaram em paralisar o campeonato e agora querem voltar mais cedo do que os médicos recomendam, expondo nossos craques e todos do futebol a esse maldito "coronga"! Não têm medo de exterminar o melhor time rubro-negro desde a era Zico, não? Esqueceram que nosso treinador tem 64 anos e é do grupo de maior risco?

Tranquilizo o Bagá dizendo que Jorge Jesus já avisou que não poderá retornar de Portugal tão cedo e que o vice-presidente de futebol Marcos Braz se mostrou contrário à iniciativa de apressar a volta aos treinamentos, no Ninho do Urubu, e aos jogos, sejam eles no Maracanã ou na Gávea.

- O Marcão sabe tudo, chefia. A sorte do Fla é que ele é o cabeça do futebol. Se dependesse dos conhecimentos de bola do Landim e do Bap, repetiríamos todos os erros crassos do Bandeira. Pior: agora, com requintes de arrogância e maldade...

O negão quer saber ainda do tal empréstimo de R$ 40 milhões que o clube de maior orçamento do país pegou, segundo a diretoria, para garantir o fluxo de caixa ("Que diabo é isso?", me pergunta). Explico-lhe que é até compreensível, diante da paralisação, que zerou o faturamento da renda de ingressos e dos problemas com alguns patrocinadores, como o Azeite Royal, que deu no pé, e a Adidas, que atrasou uma de suas parcelas. Aí, irônico, Bagá recorda um fato importante:

- Quem diria, os R$ 18 milhões do Carioquinha agora estão fazendo falta, né? E nós ficamos sem ver o time jogar pela TV... É o tal negócio, malandro demais se atrapalha!

Tal lembrança me leva a pensar o que acontecerá quando, enfim, forem disputados os jogos restantes do estadual, com certeza, com portões fechados. Será que as transmissões serão permitidas, como aconteceu na última partida, também sem público?

- É o mínimo que se espera, né chefia? Só falta a gente ficar todo esse tempo sem ver o Mengo e, quando a bola voltar a rolar, ter que se contentar com o radinho, porque a Taça Libertadores é que não volta tão cedo!

Verdade. Pra ser sincero, nem sei se será retomada em 2020, com a América do Sul vivendo momentos tão distintos da pandemia em cada país. É muito complicada a situação. Da Libertadores e do próprio Brasileiro, pois também aqui temos situações bem diversas em cada estado.

Ao apagar das luzes do longo papo, restou o otimismo sarcástico do gigantesco torcedor do Flamengo:

- Bem, senão tiver mais futebol esse ano, só o Mengão faturou três canecos na temporada, né? - me diz, enquanto eu o imagino rindo aquele seu sorrisão de poucos dentes e muita gengiva enquanto sacoleja a pança.

Para finalizar, uma observação absolutamente certeira:

- Vem cá, chefia, se os jogadores dos maiores clubes europeus estão aceitando reduzir os seus salários, durante essa crise, por que isso ainda não começou a ser discutido com o milionário elenco rubro-negro e com os executivos do departamento, que também ganham gordos salários? Cortar grana do massagista, roupeiro e faxineiro é mais fácil, né?

E como, Bagá. E como...

Fiquem em casa! A coisa é seríssima e está muito longe de acabar!

Péssimo exemplo

O ex-técnico Renê Simões, que já foi contaminado pelo coronavírus e se curou, deu entrevista à rádio Grenal, atacando duramente o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, acusado por ele de "fazer terrorismo". Dono de uma rede de seis restaurantes, que diz empregar 200 funcionários, não se conforma que eles tenham que ficar fechados. Parece bem mais preocupado com o seu faturamento do que com a saúde de seus empregados e dos próprios clientes. Lamentável!

Errata: o texto foi atualizado
Ao contrário do que informado anteriormente, Luiz Henrique Mandetta é ex-Ministro da Saúde e não da Fazenda. O erro foi corrigido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Renato Maurício Prado