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Careca titular em 82? Lenda urbana

Careca em ação pela seleção brasileira durante derrota para o País de Gales em 1991; jogador foi reserva na Copa de 1982 - Russell Cheyne/Allsport
Careca em ação pela seleção brasileira durante derrota para o País de Gales em 1991; jogador foi reserva na Copa de 1982 Imagem: Russell Cheyne/Allsport
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

13/04/2020 04h00

A Copa de 1982 voltou a ser um dos principais assuntos entre os amantes do futebol com a reexibição dos jogos daquela seleção mágica de Telê Santana nos gramados da Espanha. Graças a isso, ressurgiu uma das maiores lendas urbanas que conheço, envolvendo aquele timaço: a de que Careca teria sido titular no comando do ataque brasileiro, no lugar de Serginho, se não tivesse se machucado em um coletivo às vésperas da estreia.

Isso tem sido repetido à exaustão, inclusive por jornalistas durante as transmissões - refeitas, não entendo o porquê, pois o áudio original, com a narração do inesquecível Luciano do Vale, os comentários de Márcio Guedes e as reportagens de Juarez Soares, seria muito melhor, inclusive para reviver bem o clima da época. Mas, enfim, voltando ao Careca supostamente titular, nada mais falso. Ou fake, como se diz hoje em dia.

Acompanhei bem de perto a seleção brasileira, como repórter, durante todo aquele período. Das bem-sucedidas Eliminatórias à brilhante excursão à Europa, passando pelo Mundialito de 1981, em Montevidéu, no qual o Brasil - sem Zico, machucado - acabou vice-campeão, após empatar com a Argentina de Maradona e golear a Alemanha de Rummenigge. Perdeu a final para o Uruguai de Ruben Paz, que depois seria comprado pelo Internacional. Careca não esteve em nenhum desses jogos.

Serginho foi o titular na estreia nas Eliminatórias, contra a Venezuela. Reinaldo assumiu a posição a partir daí, e Sócrates vestiu a camisa nove no Mundialito - Serginho, na reserva, entrou em alguns jogos e fez gol contra os alemães.

A primeira participação de Careca sob o comando de Telê ocorreu em um amistoso contra a mesma Alemanha, no Maracanã, já em 1982, jogo no qual Adílio, do Flamengo, também estreou e deu lindo passe por cobertura para o gol solitário de Júnior. O ponta-esquerda Mário Sérgio foi mais um estreante nessa vitória por 1 a 0. Mas Adílio e Mário Sérgio não foram à Copa.

Nos amistosos disputados antes do Mundial da Espanha, Telê fez vários testes. O camisa nove de seus sonhos, ele nunca escondeu, era o talentosíssimo Reinaldo, mas as precárias condições físicas do centroavante do Atlético Mineiro e seu comportamento fora de campo não ajudaram. Por isso, o treinador desistiu dele.

Antes de Careca, chegaram a ser testados Nunes, do Flamengo; César, do Vasco; Roberto, do Sport; e Baltazar, do Grêmio. Juntamente com o então craque do Guarani, Telê experimentou ainda Roberto Dinamite, também do Vasco. E Careca ganhou a disputa contra o artilheiro cruz-maltino, entrando na lista final como reserva de Serginho.

O que certamente induz muita gente ao erro é o fato de o atacante do Guarani ter começado como titular o último amistoso do Brasil antes da viagem para a Espanha. Ele atuou nos 45 minutos iniciais na goleada por 7 a 0 sobre a Irlanda, mas não marcou, e Serginho, que o substituiu no intervalo, balançou as redes duas vezes. Os outros gols foram de Sócrates, também dois, Falcão, Luisinho e Zico.

Fato é que, quando saiu a lista oficial da seleção brasileira, na Copa, Serginho era o camisa nove, e Careca era o vinte. Nada mais claro para quem conhecia Telê, um fervoroso adepto da tradicionalíssima numeração de 1 ao 11. Basta conferir a escalação titular: Valdir Peres (1), Leandro (2), Oscar (3), Luisinho (4), Júnior (6), Cerezo (5), Falcão (15), Sócrates (8), Zico (10), Serginho (9) e Éder (11).

O Rei de Roma, a única exceção, usava o 15 porque não abria mão de ter o 5 na camisa, seu número no Internacional e na Roma, mas esse já era de Cerezo desde as Eliminatórias. O 7 ficou, então, com Paulo Isidoro, que fora titular várias vezes na ausência de Falcão - disputava a ponta-direita com Tita, mas o rubro-negro não quis mais jogar na posição e saiu da briga (é até hoje o maior arrependimento da carreira dele).

Voltando a Serginho e Careca, acompanhei, como disse, o dia a dia aquela seleção. Estive na pré-temporada inteira no Guincho, em Portugal, onde Telê fez ainda alguns jogos-treino e dezenas de coletivos, o tipo de treino preferido do técnico. Em todos eles, quem começava como centroavante dos titulares? Serginho.

Até mesmo no fatídico coletivo, na simpática Mairena Del Alcor (onde ficava o campo de treino da seleção, próximo a Sevilha), às vésperas da estreia, Careca atuava entre os suplentes quando recebeu um passe longo pelo alto e, ao erguer demais a perna para controlar a bola, estourou o músculo, sofrendo a lesão que provocaria seu corte.

Não era titular, nem seria, ao menos no início da Copa. Se ganharia a posição com o desenrolar dos jogos, como defendem alguns, já é outra história. O que posso dizer é que conversava diariamente (em diversas ocasiões, mais de uma vez por dia) com Telê desde a viagem para Portugal até o "day after" da tragédia do Sarriá, na concentração no castelo de Mas Badó. E ele nunca demonstrou ter a menor intenção de barrar Serginho. Muito pelo contrário. E olha que nós, da imprensa do Rio, de Minas e do Rio Grande do Sul, questionávamos um bocado essa sua escolha. Serginho só era unanimidade entre os jornalistas de São Paulo. Que o diga o meu querido e doce Alberto Helena Júnior, então um dos principais nomes da imprensa paulista e fã incondicional do atacante.

Desmentida a lenda urbana, me restou uma agridoce conclusão revendo os jogos daquela Copa. Acho que a equipe brasileira ideal teria sido, sim, sem Serginho e com Sócrates avançado como centroavante - posição em que o Doutor chegou a jogar, com sucesso, no Corinthians e na seleção, com Cláudio Coutinho e com o próprio Telê, no Mundialito.

Sócrates, que fez uma Copa soberba, poderia ter feito um fantástico falso nove (como Tostão, em 70), e o time provavelmente ficaria muito mais equilibrado, com Paulo Isidoro na direita. Essa formação chegou a ser usada nos minutos finais das goleadas sobre a Escócia e Nova Zelândia e no fatídico jogo contra a Itália, logo após gol de Falcão, que empatou o placar em 2 a 2. Mas aí o bambino Paolo Rossi fez o terceiro, e o resto é uma triste história.

Para finalizar, por que Telê nunca usou Roberto Dinamite, chamado às pressas para o lugar de Careca? Na época, chegou até a haver dúvidas se ele fora de fato inscrito no Mundial, pois Careca se machucou um dia depois do prazo máximo para trocas nas listas das equipes, obrigando o vice-presidente da CBF, João Maria Medrado Dias, a fazer uma solicitação especial à Fifa. A verdade, porém, é que Telê nunca morreu de amores pelo futebol de Roberto - em minha opinião, muito mais jogador que Serginho. Pena, pois o Dinamite fizera uma bela Copa em 78, na Argentina.

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UOL Esporte

Renato Maurício Prado