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Renato Maurício Prado

Os times que me marcaram - Parte 2

Roberto Rivellino em ação com a camisa do Fluminense - Reprodução
Roberto Rivellino em ação com a camisa do Fluminense Imagem: Reprodução
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

06/04/2020 04h00

Com a paralisação do esporte no mundo inteiro, comecei na coluna passada a relembrar os grandes times de futebol que me marcaram durante a vida. Reafirmo, não pretendo estabelecer nenhum ranking de melhores ou piores, apenas recordar as equipes que, de alguma forma, me emocionaram e ficaram para sempre gravadas na minha memória. Comecei a ver jogos em meados dos anos 60. Daí o Cruzeiro de Tostão e Dirceu Lopes, que surpreendentemente bateu o Santos de Pelé, na Taça do Brasil, de 1966, ter aberto a série. Agora, já entro em meados da década de 70 e início de 80.

A máquina de Francisco Horta

Vencer ou vencer. Esse era o lema do presidente do Fluminense, Francisco Horta, um dos mais revolucionários cartolas do futebol brasileiro em todos os tempos. Foi ele quem, surpreendentemente, contratou Rivelino, do Corinthians, e ao seu redor montou dois grandes times, que reinaram absolutos no Rio, em 1975 e 1976. O primeiro, dirigido por Paulo Emílio, teve, no Carioca, a formação básica com Félix, Toninho, Silveira, Assis e Marco Antônio; Zé Mário, Carlos Alberto Pintinho (Cléber) e Rivelino; Cafuringa, Manfrini e Paulo César Caju.

Para celebrar a contratação de Paulo César (feita após a conquista da Taça Guanabara), Horta convidou o poderoso Bayern de Munique, base da seleção alemã campeã mundial um ano antes, para um amistoso no Maracanã. Nesse jogo, com a presença de craques como Sepp Maier, Franz Beckenbauer, Gerd Muller, Georg Schwarzenbeck e o jovem Karl Heinz Rumenigge, o tricolor saiu vitorioso por apenas 1 a 0, mas teve amplo domínio durante os 90 minutos.

No Brasileiro, já dirigido por Didi, o time trocou Assis por Edinho, deslocou Paulo César Caju para o meio-campo e contratou Carlos Alberto Torres. Chegou à semifinal do campeonato, mas acabou batido pelo fortíssimo Internacional de Manga, Figueroa, Falcão, Carpegianni, Flávio e Lula (os dois últimos ex-craques tricolores).

Nesse duelo de gigantes (vencido pelo Colorado por 2 a 0, em pleno Maracanã), aconteceu um lance do qual jamais me esquecerei. Paulo César Carpegianni recebeu um passe na entrada da área e, com um toquinho magistral, driblou o zagueiro Silveira (recentemente falecido). O beque tricolor veio com tanta vontade, para isolar a bola, que sua perna foi lá no alto, dando a impressão de que furara grotescamente e não que acabara de tomar um drible minimalista. Carpegiani, então, marcou o segundo gol, que definiu a partida — o primeiro fora do ponta-esquerda Lula. As duas jogadas tiveram participação de Falcão, o grande maestro daquela equipe gaúcha.

No ano seguinte, a segunda versão da Máquina (com o goleiro Renato, o lateral-esquerdo Rodrigues Neto e o atacante Doval, todos trazidos num troca-troca altamente vantajoso com o Flamengo), o Fluminense, então sob o comando de Mário Travaglini, voltou à semifinal do Brasileiro. Mas, novamente, foi eliminado no famoso jogo da "invasão corintiana", quando metade das arquibancadas foi tomada pela torcida do Timão, aproveitando-se de que, para promover a partida, o presidente Francisco Horta disponibilizou para os paulistas uma cota de 80 mil ingressos.

O duelo, prejudicado por um enorme temporal na segunda etapa, acabou 1 a 1 e a decisão foi para os pênaltis. O goleiro corintiano Tobias se tornou o grande herói, garantindo a classificação corintiana.

O Internacional de Falcão

Bicampeão brasileiro em 75 e 76 (batendo o Cruzeiro, no primeiro ano, e o Corinthians, no segundo), o Colorado ainda conquistou o tri, em 1979, com uma impressionante campanha invicta. É a equipe base do bi, entretanto, que guardo com mais carinho e admiração na memória. Em 1976, já como repórter do Jornal do Brasil, fui escalado para cobrir, em Porto Alegre, a final, no Beira-Rio, e foi um deleite ver de perto aquele timaço que já admirara, da arquibancada, contra o Flu, e, pela TV, na final diante do Cruzeiro, no ano anterior, antes de começar a trabalhar como jornalista.

Na decisão de 1975, há um lance absolutamente espetacular: uma cobrança de falta de fora da área feita por Nelinho, na qual a bola (vê-se pela câmera de trás), chutada com enorme força, vai variando de direção durante o seu trajeto e, mesmo assim, Manga a acompanha e acaba conseguindo fazer a defesa quase impossível. Manga era um monstro no gol!

Como não se deslumbrar ainda com jogadores como o chileno Elias Figueroa, na zaga, Carpegianni (depois, Batista), Falcão, Flávio Minuano (depois, Dario) e Lula? Em 1976, entrou também Marinho Perez na defesa. Uma equipe que misturava a técnica com a força, a agilidade com a raça, a precisão com a elegância. Tudo sob o comando daquele que era, na época, o melhor treinador do Brasil. Rubens Minelli. Um timaço!

Um golaço de Falcão, de voleio, após tabelinha de cabeça com Escurinho, na entrada da área - na semifinal de 1976, contra o Atlético Mineiro - está, certamente, na galeria das jogadas mais geniais do nosso futebol.

O Flamengo de Zico

Muito se fala no Flamengo de 1981, como se ele fosse um fato isolado, mas a verdade é que a era Zico, no rubro-negro, foi bem mais que isso. Tricampeão do Rio em 78/79/79 (houve um campeonato carioca e um outro estadual, em 79), faltava ao rubro-negro o sonhado título brasileiro, que viria no ano seguinte, na épica final contra o Atlético Mineiro, com o gol decisivo de Nunes, nos últimos minutos, selando a vitória por 3 a 2 e coroando a conquista em um Maracanã abarrotado de gente (154.355 pagantes naquele dia).

O mais curioso, nessa jogada é que o João Danado, aparentemente, faz todas as escolhas erradas, mas elas vão dando certo e seu chute no canto do goleiro acaba vencendo João Leite. Depois desse gol, a torcida do Flamengo ainda levaria um susto enorme, quando o zagueiro Manguito atrasou mal uma bola para Raul, no derradeiro lance da partida. "Meu Deus", gritou ele, ao ver o que fizera (me contou isso, no vestiário). Mas Andrade, disparando atrás de Palhinha, conseguiu cortar a jogada antes do chute que poderia ter decretado o 3 a 3 e o título para os mineiros.

Como repórter responsável pela cobertura do Flamengo em seu dia a dia, acompanhei bem de perto aquela conquista e as dos anos seguintes, no qual o Mais Querido dominou amplamente o futebol por aqui, com três títulos brasileiros em quatro anos, além da Libertadores e do Mundial, em 1981. Fora a tão sonhada devolução dos 6 a 0 sobre o Botafogo. Era um time irresistível. Da era Coutinho, passando por Carpegianni e terminando com Carlos Alberto Torres, na reta final da conquista de 1983.

A venda de Zico para a Udinese acabou com a magia e com os anos de ouro. Sua volta, dois anos depois, ainda permitiu o título da Copa União de 1987, mas o encanto já não era o mesmo - até porque o Galo, brutalmente machucado no joelho, por Márcio, do Bangu - passou a lutar constantemente com problemas físicos. A Copa União foi conquistada com uma equipe base que impressionava numa escalação onde apenas um jogador não era de seleção - Zé Carlos, Jorginho, Leandro, Edinho (Aldair) e Leonardo; Andrade, Aílton e Zico; Renato Gaúcho, Bebeto e Zinho. Mas muitos desses jogadores já estavam em final de carreira (Leandro, Edinho, Andrade e o próprio Zico).

Os melhores momentos foram mesmo de 80 a 83.

A seleção de Telê em 82

Apenas três seleções conseguiram se tornar lendárias, mesmo sem ganhar a Copa do Mundo: a Hungria de Puskas, em 1954; a Holanda, de Cruijff, em 1974, e o Brasil de Telê, em 1982. Acompanhei de perto, tal seleção brasileira, como repórter. Das eliminatórias até a trágica e inesperada derrota no Sarriá, passando por uma excursão sensacional à Europa, em 1981, quando o mundo inteiro passou a considerar os "canarinhos" franco-favoritos para o Mundial na Espanha.

Neste giro, o Brasil derrotou a Inglaterra (1 a 0) pela primeira vez em Wembley; bateu a França de Michel Platini (3 a 1), no Parc des Princes, e a Alemanha, de Paul Breitner (que teve um pênalti defendido duas vezes por Valdir Peres), por 2 a 0, em Stutgart. Um show de bola em cada jogo. Sem poder contar com Falcão (que o Roma não liberou), Telê jogava com Paulo Isidoro na ponta-direita e Reinaldo (o "Rei" do Atlético Mineiro) era o centroavante. Como esse último fez falta no ano seguinte...

Na Copa, apesar de todo o favoritismo, a seleção de Telê estreou jogando mal contra a União Soviética. Poderia até ter perdido se o juiz espanhol Lamo Castillo (chamado em manchete de vergonha nacional, no dia seguinte, pelo El País) tivesse marcado dois pênaltis claros de Luisinho, quando o placar ainda era 1 a 0 para os soviéticos.

Não marcou (dizem as más línguas, grato à temporada de boca livre passada no Brasil, com direito a vários shows de mulatas, na churrascaria Plataforma, acompanhado do cartola brasileiro Mozart Di Giorgio) e com dois golaços no final (um de Sócrates e outro de Éder) o Brasil chegou a um triunfo épico e emocionante e embalou a partir daí.

A grande partida viria contra a Argentina, campeã mundial, reforçada por ninguém menos que um jovem Diego Maradona, já badalado como melhor jogador do planeta. Um duelo de titãs, com direito a grandes defesas de Valdir Peres e gols de Zico, Serginho e Júnior, contra um de Ramon Diaz (outro jovem valor argentino), praticamente garantindo a classificação à fase seguinte - semifinais e final. Bastava empatar com a Itália, que vinha cambaleante, com três empates na primeira fase, embora também derrotasse a Argentina, no grupo do Brasil.

Desnecessário relembrar aquela que foi, sem dúvida, a derrota mais dolorida da minha vida num campo de futebol. Vibrei alucinadamente com os lindos gols de Sócrates e Falcão, empatando, respectivamente, em 1 a 1 e 2 a 2, mas a verdade é que os italianos foram melhores do início ao fim - e ainda tiveram um gol mal anulado de Antognoni.

A impressão que ficou é que, mesmo se a bola cabeceada por Oscar, no ultimo minuto, tivesse chegado à rede e não parada em cima da linha pela palma da mão de Dino Zoff, a saída teria sido dada e Paolo Rossi ainda marcaria pela quarta vez. Não era nosso dia, mas do bambino d'oro.

O mais triste é lembrar que, se a seleção de Telê tivesse passado, dificilmente não teria conquistado o título, pois a Polônia, sem Boniek, seu craque maior, e a Alemanha, com Rummenigge jogando no sacrifício, na final, nem foram páreo para a Azzurra de Enzo Bearzot.

A seleção brasileira de Telê, com seu quadrado mágico, porém, entrou para a história. Como esquecer um time que tinha Toninho Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico, no meio-campo; Leandro e Júnior, nas laterais e ainda Éder, na ponta-esquerda? Impossível! Era um time de sonho, mesmo que tenha terminado em pesadelo.

Na próxima coluna, na ausência de bola rolando, sigo com as lembranças dos timaços que marcaram a minha vida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Renato Maurício Prado