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Corrida maluca com Senna, no México

Gil Passareli/Folhapress
Imagem: Gil Passareli/Folhapress
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

23/03/2020 04h00

Ayrton Senna teria feito 60 anos há alguns dias e, aproveitando a paralisação do futebol, no mundo inteiro, vou contar aqui uma história pra lá de curiosa que vivi com ele, no ano de 1987, quando fui correspondente do Globo na Europa e cobria a Fórmula 1, prova a prova, mundo afora.

Tirando o próprio Ayrton e o então produtor da Tele Monte Carlo, Gilberto Conde, os demais integrantes da famosa "corrida maluca", nas ruas do México, estão vivos para confirmá-la: Galvão Bueno, Reginaldo Leme e Wagner Gonzalez, na época correspondente do Estado de S. Paulo.

Tudo começou num descontraído jantar após o GP mexicano, onde se falou de tudo, menos de automobilismo - Ayrton estava chateado, por ter saído da pista e impedido de voltar a ela pelos fiscais, sendo obrigado a abandonar a corrida. A Williams, construtora dos melhores bólidos daquela temporada, tinha feito a dobradinha, com Nigel Mansell em primeiro e Nelson Piquet (que conquistaria o seu tricampeonato, naquele ano) em segundo.

Conversa boa, muito vinho, gargalhas e brincadeiras à vontade, saímos todos (inclusive Senna, que não custava beber) um tanto quanto "alegres" do restaurante. Estávamos em dois carros alugados e neles embarcamos, rumo ao hotel, onde nos hospedávamos. No meu, Galvão era o piloto, eu ia no banco do carona e Gilberto Conde, no banco de trás. No outro, Ayrton dirigia, com Reginaldo Leme ao seu lado e Wagner Gonzalez atrás.

Ruas praticamente desertas (já era bem tarde), eis que, ao parar num sinal, Galvão esboça um riso nervoso e diz:

- Se segura que lá vem ele!

Gilberto e eu custamos a entender o alerta. O ronco alto do motor do automóvel de Senna nos despertou para a realidade. Mal tive tempo de apoiar as mãos no painel à minha frente, antes que fossemos abalroados, com uma tremenda bordoada na traseira. Dada pelo Ayrton!

- Agora é que ele vai ver o que é bom!

Engatando a ré, Galvão jogou o nosso carro contra o de Senna, que acabara de nos atingir. Um acelerava para trás, e outro para frente. Para-choques colados, os pneus "cantavam" alucinadamente, provocando uma espessa cortina de fumaça - fruto da borracha queimada. Olhos esbugalhados, um pobre motorista de táxi mexicano, parado ao nosso lado, tratou de se escafeder, furando o sinal e se afastando rapidamente daquela cena de loucos.

Quando a luz verde, enfim, surgiu, disparamos na larga avenida, fugindo de... Ayrton Senna! Na madrugada da Cidade do México, passávamos a disputar um autêntico Grand Prix de malucos! Ora era o Galvão que jogava o nosso automóvel em cima do dele, ora, o contrário. E tome de bordoada, nas laterais, na traseira e até nas portas, um do outro.

Vez por outra, Senna desaparecia numa rua lateral, aumentando o suspense, pois sabíamos que, do nada, ele ressurgiria, numa perpendicular, para mais um round do "demolition car". A situação era tão surreal que só mesmo com muito álcool no sangue e na cabeça para achar graça naquilo. E a cada pancada, ríamos todos, sem parar...

Sinceramente, nem sei quanto tempo durou aquela loucura. Sei que, enfim, chegamos ao estacionamento do hotel nos sentindo vitoriosos por termos dado a última cacetada no carro "adversário". Qual o quê. Foi estacionarmos e "BUM", do nada surgiu o Ayrton para nos atingir, já parados! Imagina se ele aceitaria perder... Nem par ou ímpar!

Quando saltei, confesso, só pensava como seria a devolução dos dois automóveis, então mais amassados que uva-passa. Acham que Senna se apertou? Nada! No dia seguinte, no aeroporto, entregou as duas chaves e, entre autógrafos e algumas fotografias (na época ainda não existiam nem celulares, nem a mania das selfies), ainda comentou com os funcionários da locadora, com a maior cara-de-pau:

- Que trânsito maluco vocês têm aqui, hein? E como dirigem mal os mexicanos...

Ficou tudo por isso mesmo; os carros, claro, tinham seguro total.

Relembrando a maluquice (absolutamente inadmissível, nos dias de hoje), relembro o próprio Ayrton, que era sem dúvida, uma figura muito especial. E se algum consolo pode haver na trágica morte que interrompeu sua carreira tão brilhante (teria conquistado, no mínimo, mais três títulos mundiais - dois deles, impedindo os da Benetton, com Michael Schumacher), é que ele viveu até o último instante fazendo exatamente o que mais gostava: guiando, acelerando, liderando e, por que não dizer, batendo. Só que, na Tamburello, a batida não acabou em gostosas, ainda que nervosas, gargalhadas, como naquela inesquecível noite no México.

Onde quer que você esteja, acelere, Ayrton. Seu destino, certamente, será o lugar mais alto do pódio.

Renato Maurício Prado