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Fotografia do futebol paralisado

Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

16/03/2020 04h00

O futebol, enfim, vai parar no Brasil. Como dizem os mais jovens, "demorou"! A pandemia de coronavírus não é brincadeira, embora boa parte da nossa população pareça ainda não se dar conta disso, participando festivamente de manifestações nas ruas, enchendo bares e restaurantes e lotando as praias, como se não houvesse amanhã.

Pelo visto, vamos aprender o quanto é sério da pior maneira possível, como acontece na Itália. Enquanto isso, também atrasados, Estados Unidos, França, Espanha, Inglaterra e Alemanha, que assistem ao crescimento exponencial dos infectados, tomam medidas rígidas para tentar controlar o contágio e diminuir o número de mortos.

A paralisação nos esportes em geral e no futebol em particular não tem data para acabar. Resta, portanto, fazer uma análise do momento. Uma espécie de fotografia que possa registrar como foram esses primeiros meses em que a bola rolou pelos campos do Brasil. Quem foi bem? Quem foi mal? Qual a maior decepção? Quais as maiores dúvidas? Quem pagou o maior mico? Vamos por partes:

O Corinthians de Tiago Nunes fica, em minha opinião, como a maior decepção dessa primeira parte da temporada. Pode ser até (não creio) que se recupere milagrosamente na volta e ainda conquiste o tetracampeonato paulista (se é que teremos datas disponíveis para encerrar os estaduais). Mas a bolinha murcha que jogou até o momento é de chorar.

Luan, seu principal reforço, continua a ser um vaga-lume, como em seus últimos anos no Grêmio. O colombiano Cantillo, que começou tão bem, já se nivelou à mediocridade geral. E nem o esperado futebol ofensivo e a mudança de mentalidade tão sonhados no Timão deram as caras até agora.

Terá que melhorar MUITO se quiser disputar algo em 2020. E parece difícil conseguir isso com Camacho, Yony Gonzalez, Everaldo, Boselli, o veteraníssimo Vagner Love e que tais. O elenco é limitado, e a química dos jogadores com Tiago Nunes e seus métodos se mostra longe do ideal. A evolução que o técnico propala a cada entrevista só ele enxerga.

Progresso mesmo se pode ver no Flamengo de Jorge Jesus, que ratificou nesse comecinho de temporada a condição de adversário a ser batido, não somente no Brasil, mas no continente. Com um banco de reservas regiamente reforçado (Michael, Pedro, Gustavo Henrique, Léo Pereira e Pedro Rocha), ganhou as três taças que disputou (Supercopa do Brasil, Taça Guanabara e Recopa Sul-Americana) e está com 100% de aproveitamento na Libertadores.

Até quando joga mal, o Flamengo consegue vencer, como na partida contra a Portuguesa, na qual os rubro-negros atuaram claramente incomodados pela ameaça real do coronavírus, já que um dos vice-presidentes do clube, comprovadamente infectado, esteve com a delegação em Barranquilla, obrigando o elenco inteiro a fazer exame na véspera o duelo - os resultados só seriam conhecidos em 48 horas.

Com Gabigol em estado de graça e a base e a maneira de jogar mantidas do vitorioso ano de 2019, a maior ameaça que o Mais Querido sofre é uma possível saída de Jorge Jesus, cujo contrato termina em maio. Mas até isso soa improvável pelas últimas declarações do Mister e do vice-presidente de futebol Marcos Braz - seu principal interlocutor. A pedida do português é salgada, R$ 3 milhões por mês (que podem aumentar caso o euro dispare), mas o Flamengo aposta em um acordo intermediário.

Apontado pela maioria como principal adversário do rubro-negro carioca este ano, o Palmeiras, de Vanderlei Luxemburgo, ainda não chega a empolgar no Paulistinha, mas está 100% na Libertadores e tem escalado um poderoso quarteto de atacantes: Dudu, William, Luís Adriano e Rony. É bem verdade que tal formação obriga seu melhor jogador, Dudu, a atuar fora de posição, como um meia que ainda não conseguiu atingir o brilho que costuma exibir mais solto, pelo lado do campo.

Essa é uma das dúvidas para o prosseguimento da temporada. Luxemburgo insistirá com o quadrado ofensivo ou acabará se rendendo à escalação de um meia que, por enquanto, ele não encontrou? As tentativas com Lucas Lima foram todas frustradas. Ramires (muito mal) e Bruno Henrique, sozinhos, não conseguem armar o time. Patrick de Paula e Zé Rafael geralmente entram bem. Mas serão capazes de se firmar como titulares? Equilibrar esse ataque poderoso com um meio-campo até agora inoperante é o grande desafio palmeirense.

Quem também ainda está se acertando é o São Paulo de Fernando Diniz. Após início claudicante, o tricolor paulista, porém, chega à paralisação em viés de alta. Recuperou-se da decepcionante derrota para o fraco Binacional, na estreia da Libertadores, com uma vitória convincente sobre a LDU, no Morumbi e, de quebra, ganhou o clássico contra o Santos, com direito à redenção de Pablo, artilheiro que andava na muda e desencantou com os dois gols da virada sobre o time da Vila Belmiro.

Daniel Alves, enfim, vai se tornando o maestro do meio-campo que os torcedores esperavam, desde a sua contratação, e Alexandre Pato, que muitos já davam como um jogador em completo declínio, vem se recuperando bem, virando peça importante no ataque, que se ainda não transforma em gols a maior parte das oportunidades que cria (curiosa característica das equipes treinadas por Diniz), mas já vem balançando suficientemente as redes para liderar o seu grupo no Paulistinha e estar em segundo lugar na chave da Libertadores, graças ao saldo de gols.

Por fim, o Santos de Jesualdo iniciou capengando e foi se ajeitando taticamente. Mas de forma bem menos encantadora do que nos tempos de Sampaoli. O elenco é mais fraco do que o do ano passado e, a menos que contratações sejam feitas (o que parece improvável), não o vejo como forte concorrente a nenhum título importante na temporada. Um Soteldo sozinho, decididamente, não faz verão.

Fora do eixo Rio-São Paulo (já que os demais cariocas dificilmente escaparão de ser meros coadjuvantes em 2020), as maiores forças se concentram mesmo no Rio Grande do Sul, onde o Internacional de Coudet começou devagar quase parando (mal no Gauchão e jogando um futebol muito feio nas primeiras fases da Libertadores), mas terminou essa, digamos, primeira parte do ano em alta, apesar da ausência de talentos no meio-campo, onde o treinador argentino chegou a usar quatro volantes, mas agora já escala apenas um brucutu típico (Musto), com o festejado Edenilson, Boschilla e Marcos Guilherme tornando o setor mais ágil, ainda que não tão criativo - D'Alessandro faz falta. E como faz. O desempenho do Inter de Coudet, entretanto, melhora a olhos vistos. E promete.

O Grêmio, por sua vez, ainda patina. Pelas contratações que fez (Victor Ferraz, Caio Henrique, Diego Souza e, vá lá, Thiago Neves) e as voltas de jogadores importantes que andaram contundidos no fim do ano passado (Jean Pyerre e Matheus Henrique), tudo indicava que Renato Gaúcho teria condições de montar um time forte, capaz de brigar por títulos importantes. Mas, sabe-se lá o motivo, o treinador, que sempre se caracterizou pelo estilo ofensivo e vistoso, passou a usar três volantes no meio e a explorar mais os contra-ataques do que a propor o jogo. E ainda perdeu o primeiro turno do Gauchão para o Caxias.

Quando Pepê se tornará titular é a pergunta que todo gremista se faz, com razão. No momento em que isso acontecer, Jean Pyerre recuperar a forma física (curado, já está) e a bola chegar mais vezes a Everton Cebolinha, o Grêmio voltará a ser muito forte. Ainda que continue a faltar, no elenco, um centroavante de verdade - Diego Souza é quem tem atuado por lá e até feito os seus gols.

Para fechar esse balanço, coloco em votação o Troféu Mico dos primeiros três meses de 2020. Não fosse a contratação de Jorge Sampaoli, confesso, eu já o teria entregue para o Atlético Mineiro, que trouxe Dudamel e o demitiu com menos de três meses no cargo. Mas a chegada do técnico argentino atenuou um pouco o absurdo anterior. Não o bastante para tirá-lo da eleição.

Como seus concorrentes, surgem o Cruzeiro (que me dá todas as pistas de que está caminhando a passos largos para repetir o Fluminense e acabar na Série C), que demitiu, desistiu de demitir e agora demitiu de vez Adílson Batista e, claro, Ronaldinho Gaúcho, apanhado, no Paraguai, em mais uma de suas, digamos (para ser condescendentes) "trapalhadas" - vale lembrar que já são inúmeros os processos que ele e seu indefectível irmão Assis respondem por aqui.

O Dentuço, porém, é impossível. Não é que, mesmo encarcerado, conseguiu levantar mais um troféu do mundo da bola? Depois de ganhar a Copa do Mundo, a Liga dos Campeões e a Libertadores, Ronaldinho colocou em sua galeria de troféus, a Taça Leitão da Prisão (sim, o time campeão no presídio de Assunção, ganhava um porco de presente!).

Quer saber? Não tem mais votação, nem Mico do Ano. O Troféu é um Leitão e é de Ronaldinho Gaúcho!

Renato Maurício Prado