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Quando gelo no sangue é vergonhoso

Ninho do Urubu após incêndio que acabou resultando na morte de dez garotos em 2019 - Thiago Ribeiro/AGIF
Ninho do Urubu após incêndio que acabou resultando na morte de dez garotos em 2019 Imagem: Thiago Ribeiro/AGIF
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

03/02/2020 04h00

Gelo no sangue. Tal expressão tem sido repetida inúmeras vezes pelo vice-presidente de futebol do Flamengo, Marcos Braz, para simbolizar a paciência e a habilidade dos dirigentes rubro-negros nas muitas vezes complicadas, mas, ao menos até agora, sempre bem-sucedidas negociações no futebol - vide as contratações de Rafinha, Filipe Luiz, Gerson e, mais recentemente, Gabigol.

O "modus operandi" merecedor de tantos elogios no mundo da bola, porém, está longe de ser digno de aplausos em outras ações da mesma diretoria, notadamente no caso da tragédia que vitimou dez adolescentes em um incêndio até hoje mal explicado no Ninho do Urubu, nos primeiros dias da gestão Landim, no início de 2019 - justiça seja feita, a maior parte da culpa pela tragédia é da administração passada, que instalou e permitiu o uso dos containers como alojamentos, apesar das precárias instalações elétricas e da falta de saídas de emergência, detectores de fogo e etc.

Na patética "entrevista", dada no sábado à Fla TV (onde já se viu classificar como tal um palavrório ensaiado e gravado, sem a presença de jornalistas), o presidente Rodolfo Landim, o vice-geral e jurídico Rodrigo Dunshee de Abranches e o CEO Reinaldo Belotti não trouxeram novidade alguma e tampouco fizeram esclarecimentos convincentes. Pior, foram de insensibilidade ímpar, constrangedora mesmo, até para os torcedores do próprio clube que têm um mínimo de sentimento.

Ao se prender a estatísticas de quantos jogadores da base chegam a ser titulares nos profissionais e comparar as indenizações oferecidas às famílias do Ninho a outros casos de sinistro, Landim, Dunshee e Belotti exibiram o mesmo "gelo no sangue" de que fala Braz, para contratar jogadores. A abissal diferença é que agora trata-se de sangue de verdade, derramado em instalações do Flamengo, que sob qualquer prisma era o responsável direto pela segurança dos meninos.

Não é humano negociar assim com quem sofreu tamanha perda. O Esporte Espetacular exibiu ontem (2) uma reportagem com várias das famílias que não aceitaram a proposta rubro-negra, que é de R$ 2 milhões de reais por cada garoto. Pode ser muito, como alegam, friamente, os dirigentes rubro-negros, se comparado às quantias ofertadas pela Vale, em Brumadinho, pela Boate Kiss, em Porto Alegre, ou pela Air France, no famoso acidente aéreo, em 2009. Pode ser.

A grande diferença é que em nenhum desses trágicos casos as empresas abrigavam e eram responsáveis por jovens, que estavam ali se preparando para dar glórias (e lucros) ao clube, jogando bola. Eram meninos do Ninho, como Vinícius Júnior, Lucas Paquetá, Jorge, Léo Duarte, Vizeu e Reinier. Quanto o Flamengo ganhou somente com estes seis? Pois é...

É muito difícil, impossível diria, estipular um valor determinado para uma vida. Ainda mais de jovens que tinham todo um futuro pela frente e, na maioria dos casos, já eram arrimos de famílias muito pobres, humildes. O que fica evidente a cada declaração do clube é que falta solidariedade com os que sofrem e precisam, acima de tudo, de carinho.

A alegação de que não conseguem mais falar com as famílias, por causa dos advogados, soa fútil e vazia, quando se vê, na reportagem do Esporte Espetacular, um dos pais dizer que o que ele mais queria mesmo era se sentar com os dirigentes para desabafar o que sente e ouvir deles explicações que façam sentido para o que houve no incêndio.

Levando-se em conta o faturamento nunca visto desaguando nos agora sanados cofres do clube, não é possível que a atual diretoria não perceba o dano que vem causando à imagem do clube com tamanha insensibilidade. Esse não é um caso para "gelo no sangue", mas, bem ao contrário, para calor no coração.

Deixar tal sofrimento prosseguir por anos a fio (já se completa o primeiro no próximo dia 8), em intermináveis processos nos tribunais, é cruel e pode ser até péssimo negócio, já que todas as indenizações, quando definidas pela Justiça, serão corrigidas monetariamente, e os juros de mora (retroativos) são de 1% ao mês - basta ver as fortunas que os clubes (inclusive o Flamengo) são obrigados a pagar a ex-jogadores, por atrasados que, originalmente, não ultrapassavam R$ 1 milhão e, ao fim do processo custam mais de R$ 10 milhões.

O risco de um prejuízo financeiro maior talvez sensibilize cabeças "de mercado" que nunca entenderam em toda a sua grandeza o universo de um clube de futebol - notadamente o Flamengo. Cabeças que se mostram frias e vingativas, vide os recentes casos da premiação dos funcionários do futebol - cortada drasticamente, apesar de o dinheiro sair dos 30% doados pelos jogadores para esse fim. Cabeças que agora promovem uma "caça às bruxas", demitindo aqueles que falaram do caso.

Cabeças que foram capazes de dispensar vários dos sobreviventes do inferno em chamas por "deficiência técnica". A menos de um ano do ocorrido! Cabeças que, infelizmente, se sentem seguras, graças ao espetacular desempenho do time de futebol profissional. Cabeças que jamais serão capazes de entender versos, como os de Chico Buarque, em "Pedaço de Mim":

"A saudade é o revés de um parto. A saudade é arrumar um quarto, do filho que já morreu".

Que não tenham a desdita de enfrentar tamanha dor. E tratem de resolver o mais rapidamente possível esse triste caso, para não continuar denegrindo a imagem do Flamengo, justamente, em seu melhor momento futebolístico, em 38 anos.

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Renato Maurício Prado