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Renato Maurício Prado


Nas entusiasmadas ondas do rádio

Ramon, um dos talentos da base do Flamengo, diante do Macaé - Thiago Ribeiro/ Agif
Ramon, um dos talentos da base do Flamengo, diante do Macaé Imagem: Thiago Ribeiro/ Agif
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

20/01/2020 04h00

O Campeonato Estadual do Rio de Janeiro, que já foi considerado o mais charmoso do país, vive há anos um inexorável processo de decadência, justificando a má fama de "Me Engana que Eu Gosto". O deste 2020, entretanto, atinge níveis surreais, com a briga do Flamengo com a Rede Globo (o que impede a transmissão de seus jogos), a decisão de vários grandes (inclusive o rubro-negro) de escalar times alternativos e o estado deplorável dos gramados já na primeira rodada (imagine nas últimas), vide os pastos de São Januário e Bacaxá - o de Volta Redonda está razoável.

Toda essa confusão, entretanto, acabou me fazendo retomar um hábito gostoso, que havia abandonado há muitos e muitos anos, quando a TV a cabo e o "pay-per-view" tornaram possível assistir a praticamente todas as partidas ao vivo. Sem alternativa, agora, voltei a acompanhar um jogo de futebol pelo rádio! E não o fiz sozinho!

Antes de mais nada, é preciso explicar aos novos leitores, que só me conheceram aqui pelo UOL, quem é o Bagá! Sim, quem me acompanha desde os tempos das colunas no Globo, está farto de conhecê-lo. Um tresloucado torcedor rubro-negro que já fez toda sorte de loucuras para acompanhar o seu time de coração e apareceu pela primeira vez nos meus textos, quando quebrou um bar inteiro, em Ipanema, após se enfurecer com o italiano, dono do estabelecimento, que cometeu a insanidade de provocá-lo, vibrando com a compra de Zico pela Udinese. Faz tempo, hein?

Pois é. Bagá, assim como eu, já passou dos 60 e viu de tudo um pouco na sua saga de flamenguista apaixonado. Da era de ouro dos anos 80, aos (muitos) anos de vacas magras e quase falência, até à glória atual, "sob a luz de Jesus" - pelo menos é assim que ele entende e fala. Bagá é negro, favelado, semianalfabeto, mas esperto pra chuchu e forte feito um touro.

Os adjetivos como me refiro a ele podem, nos tempos atuais, deixar os politicamente corretos de cabelos em pé. Mas o que interessa é que o gigante de ébano não se incomoda, muito pelo contrário, e foi ao seu lado que "assisti, pelas ondas do rádio" à estreia do Fla no mal-ajambrado Carioquinha do Rubinho.

Bagá apareceu do nada, aqui em minha casa de Itaipava, em Petrópolis, certo de que, por eu ter trabalhado tantos anos no Globo e no SporTV, teria alguma maneira secreta de acompanhar, com imagens, o confronto do rubro-negro com o Macaé, no Maracanã.

- Fala sério, chefia! É claro que você tem algum jeito de ver o Mengão! Não foi mandachuva tanto tempo no jornal? Liga pra lá que eles resolvem...

Santa paciência! Foi um custo convencê-lo de que não havia como. Diante do irremediável, a solução foi navegar mesmo as ondas do rádio. Não por um aparelho tradicional, que já nem tenho mais, mas por um app que permite ouvi-las pela internet.

- Vamos de Garotinho! Esse ainda é dos bons tempos! - sugeriu o negão.

De fato, o grande José Carlos Araújo remete à época áurea de locutores espetaculares, como Waldyr Amaral, Jorge Cúri, Doalcei Bueno e outros, inclusive o próprio Zé Carlos, então um jovem iniciante, daí o apelido de Garotinho. Infelizmente, porém, na Tupi, onde ele é o principal narrador, o escalado era outro. E acabamos, então, na Rádio Globo.

Rola a bola e o entusiasmo da transmissão sugere uma atuação espetacular da garotada do Fla. Cada ataque é quase um gol; cada passe, uma obra de arte; cada drible, um lance de supercraque.

- Olha só, chefia! Esse Yuri César é um fora de série, um maestro completo; o Vinição é uma muralha à frente da zaga e o Matheusinho uma nova versão de Rafinha! - vibrava o ciclope, certo de que a narração refletia fidedignamente o "show de bola" que ia acontecendo no Maracanã. O gol, pelo que diziam, parecia mera questão de tempo.

Só que o tempo ia passando e nada. Segundo a transmissão, culpa total do goleiro Jonathan, do Macaé:

- O homem é um paredão! - comentava o Bagá, com um riso nervoso, balouçando a cabeçorra e a pança proeminente.

Nesse meio-tempo, porém, comecei a ler alguns tuítes de rubro-negros que estavam no Maracanã:

- Primeiro tempo de dar sono - disparou um.

- A molecada está nervosa, a bola queima nos pés - informou outro.

- Vítor Gabriel está parecendo um bode cego - sentenciou um terceiro.

Bem, estava na cara que, como normalmente acontece nas transmissões de futebol no rádio, a verdade era, digamos assim, "colorida" e o que interessava era manter os ouvintes ligados e empolgados. Qualquer chute a gol passava "raspando" e qualquer defesa do goleiro era "monumental".

Para decepção do ciclope, entretanto, o 0 a 0 não saiu do placar e, pouco depois do término da partida, imagens dos "melhores momentos" (na verdade, apenas dois minutos) começaram a pipocar nas redes sociais, comprovando que, a não ser uma bola cabeceada por Yúri Cesar na trave, as poucas oportunidades de gol tinham sido desperdiçadas por falhas dos rubro-negros - a de Vítor Gabriel, então, foi de assustar.

- Não esquenta, Bagá. Isso não vale nada. O que interessa é dar tempo para Jorge Jesus fazer a pré-temporada direito, para disputar o Brasileiro e a Libertadores novamente com tudo - tentei consolá-lo.

- Ah, chefia, esse treco não vale nada, mas eu quero ganhar! Com a manutenção do time do ano passado e todos esses reforços que estão chegando, temos que ganhar tudo! Até esse carioquinha chulé! - respondeu, emburrado.

Bem, como o Ministério da Saúde adverte, discutir com o Bagá pode provocar sérios danos a saúde e, por isso, como quem não quer nada e fingindo concordar, tratei de ir encaminhando a besta fera para a saída de Ponderosa (nome do meu sítio), ajudado na tarefa pelo Rin Tin Tin, o pastor alemão 01 da minha matilha de 11 cães, que sempre fica em alerta quando o gigante aparece.

- Chefia, esse negócio de relembrar os tempos de radinho de pilha até foi legal, mas vou tratar é de voltar ao Maraca, pra ver de perto o meu Mengão!

Vai Bagá, vai mesmo e me deixa aqui, posto em sossego. Eu só me animarei quando os campeões brasileiros e da Libertadores voltarem a campo. Serão capazes de repetir os feitos esta temporada?

- Claro, chefia! Não ouviu o Jesus, dizer, ao embarcar, que tem um pacto com todo o time para voltar ao Mundial, no final deste ano, para a revanche com o Liverpool? - fuzilou-me o sacrossanto crioulo, na despedida.

Esse é o Bagá, otimista até à morte. Tomara que esteja prenhe de razão...

Renato Maurício Prado