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Essa nem o VAR resolve...

Gabigol e Diego, do Flamengo, levantam taça da Libertadores após o título de 2019 - ALEXANDRE VIDAL/Flamengo
Gabigol e Diego, do Flamengo, levantam taça da Libertadores após o título de 2019 Imagem: ALEXANDRE VIDAL/Flamengo
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

29/12/2019 04h00

Final de ano, época das tradicionais peladas festivas, a daquela turma de apaixonados pelo futebol já era tradicional, no campinho de terra batida na Lagoa, próximo ao Clube Naval. Devido ao fenomenal ano do Flamengo, os rubro-negros da turma resolveram jogar com a camisa do clube e só aceitar em seu time torcedores do campeão brasileiro e das Américas.

Virou, portanto, uma espécie de Mengão x Resto do Mundo. Tricolores, vascaínos, botafoguenses, dois palmeirenses, um santista, um atleticano e um gremista formavam a equipe do arco-íris que prometia ser o Liverpool do "scratch" do Mais Querido.

Rola a bola e logo se percebe que paixão da galera por seus clubes de coração é bem maior do que o talento no trato com a bola. De parte a parte, predominavam bicos medonhos, caneladas de dar dó e os raros momentos de categoria, expressos em dribles sobre a maioria absoluta de pernas-de-pau, eram respondidos com entradas, digamos, viris em excesso. Traduzindo: bordoadas para "acabar com a graça dos folgados".

O pobre juiz - que também fazia parte do grupo de ex-colegas de colégio, companheiros de trabalho, vizinhos e filhos dos mais velhos - sofria, pobre coitado. Mas, no final de muita discussão, o jogo recomeçava, animado e encarniçado, como de hábito. Afinal, eram todos grandes amigos.

Com jogadores um pouco melhores tecnicamente (principalmente pela presença de um par de gêmeos jovens e habilidosos) o time do "Resto do Mundo" começou a se impor e acabou abrindo o placar, numa tabelinha infernal dos moleques, que deixou a zaga de barrigudos do Fla com as respectivas bundas no chão.

- Firmino é o nome da emoção! - gritou o guri goleador e zombeteiro.

O 1 a 0 incendiou o jogo de vez e, pelo andar da carruagem, o segundo gol dos "antis" parecia mais próximo que o empate dos rubro-negros. Sorte da turma do Fla que o seu goleiro era excelente. Tinha jogado nos juvenis do clube em priscas eras e mesmo já careca e longe de sua melhor forma física, ainda conseguia fazer defesas que arrancavam aplausos da numerosa turma do sereno, que a tudo assistia, ao lado do campinho.

O primeiro tempo terminou mesmo com a vantagem mínima no placar e, para alívio da galera que ia perdendo, chegou, atrasada, "a cavalaria" - três adolescentes bons de bola, filhos de coroas rubro-negros. Aí, as ações se equilibraram.

Nos dois times, à medida que o tempo ia passando e o fôlego acabando, as substituições se sucediam e os que deixavam o campinho, logo se atracavam com geladíssimas garrafas de cerveja e devoravam linguiças, picanhas etc., que eram preparadas numa grelha levada especialmente para o "churrasco de final de ano".

À medida que o grau etílico dos de fora ia aumentando, a gozação tomava conta do ambiente:

- Vem pra cá, que você não joga nada, mesmo. Você só é craque no garfo e no gargalo - gritavam para os que erravam jogadas bisonhas.

Assim ia transcorrendo a confraternização futebolística, entre palavrões, gargalhadas e chutões. Já ao apagar das luzes, numa triangulação perfeita dos "juvenis" que chegaram atrasados, gol do "Mengão"! Empate de 1 a 1 no placar.

- Chega, chega! Apita o final dessa pelada! Não vai sair mais nada, mesmo! - provocava a turma de fora.

E o empate parecia perfeito, para coroar a festa, sem brigas e provocações. Só que os rubro-negros, inspirados na virada sobre o River Plate, na final da Libertadores, queriam mais.

- Cinco de acréscimo, cinco de acréscimo! Encarnei o Gabigol! - gritava, gozador, o autor do gol.

Tudo muito bom, tudo muito bem, mas eis que o ponta-esquerda dos rubro-negros sente uma fisgada na virilha, ao cobrar um escanteio. Urrando de dor, sai de campo e ninguém se anima a substitui-lo. A turma do lado de fora já está pra lá de Bagdá e não quer mais nada com a bola.

É quando o pipoqueiro que a tudo assistia, encantado, pede:

- Posso entrar e jogar esses últimos minutinhos?

Todos ficam com pena do rapaz. Que usa uma muleta para se apoiar pois de uma das pernas só tem um toco. Que situação! Mas ele veste uma esfarrapada camisa do Flamengo... Como dizer não?

- Vai lá, entra na ponta-esquerda!

E o manquitola adentra o campo, todo feliz. Seguem-se os derradeiros minutos e nada de a bola chegar até ele, que parece muito satisfeito só de estar ali no meio da turma. Ao apagar das luzes, outro córner pra equipe do Fla. Desta vez, pela direita.

- Último lance do jogo! - avisa o juiz.

Todo mundo na área. Até o goleiro rubro-negro. O escanteio é batido e vai passando por cima de zagueiros e atacantes. Eis que o pipoqueiro perneta, lá do outro lado, se atira no ar, numa acrobacia tão inesperada quanto espetacular e, numa bicicleta improvável, acerta a bola com a muleta, mandando-a no ângulo! Golaço!

Confusão dentro e fora das quatro linhas, A turma do arco-íris protesta, alegando que o gol foi "de mão". Mas os flamenguistas cercam o juiz, defendendo a tese de que a muleta substitui a perna inexistente, portanto, gol legal! E agora?

Essa, nem o VAR é capaz de elucidar. O juiz, que de bobo não tinha nada se escafedeu, com uma cerveja numa mão e um belo pedaço de picanha na outra. A turma do arco-íris foi pra casa, dizendo que o jogo acabou 1 a 1. E a do Mengão, arrotando que virou nos acréscimos, tal qual o Fla, na vitória na final da Libertadores.

Qual o seu veredicto? Gol legal ou não?

Feliz 2020 para todos!

Renato Maurício Prado